Ricardo Stuckert
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Para eleger Lula, PT aprova alianças até com partidos que apoiaram impeachment de Dilma

Aproximação com siglas fora da esquerda foi consolidada sob o argumento de que, para derrotar o bolsonarismo 'é preciso dar uma resposta de unidade da sociedade brasileira'

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2022 | 17h43
Atualizado 24 de março de 2022 | 19h36

BRASÍLIA — A cúpula do PT aprovou nesta quinta-feira, 24, uma ampla política de alianças, que ultrapassa as fronteiras de esquerda, para enfrentar o presidente Jair Bolsonaro nas eleições. Com isso, até mesmo partidos que apoiaram o impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016, como o MDB, o PSD e o PSDB, poderão integrar as coligações nos Estados.  

Na prática, o PT está preocupado com o crescimento de Bolsonaro nas pesquisas, embora o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda seja favorito nas intenções de voto. A ordem é evitar o “salto alto” e o clima de “já ganhou”. Dirigentes do partido  querem que Lula tenha um calendário de atividades nas ruas o quanto antes.

A decisão sobre a política de alianças foi tomada em reunião do Diretório Nacional do PT, um dia depois de o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin se filiar ao PSB, dando o primeiro passo para ser vice na chapa de Lula ao Palácio do Planalto.

Não é a primeira vez, porém, que o PT aprova alianças com partidos que votaram a favor do impeachment de Dilma. A estratégia já foi adotada na eleição presidencial de 2018 e na disputa municipal de 2020, quando os petistas diziam ser necessário sair do isolamento e reconquistar o espaço perdido.

Sob o argumento de que para derrotar o bolsonarismo “é preciso dar uma resposta de unidade da sociedade”, o PT afirma agora que a candidatura de Lula deverá trazer “a ampliação (...) que se espera das forças de oposição ao governo nesta quadra da história, respeitando os compromissos programáticos antineoliberais”.

A resolução aprovada nesta quinta-feira pelo PT reflete a estratégia já em curso pela campanha de Lula ao pregar a “unidade dos setores democráticos” não apenas em torno da candidatura de Lula, mas também de um “movimento político e social” para derrotar o presidente. O documento define o bolsonarismo como “o principal vírus em circulação na política brasileira” desde 2018. “Quem outrora não esteve conosco é mais do que bem-vindo a participar deste movimento que devolverá a cadeira de presidente da República ao povo brasileiro”, diz um trecho do texto que passou pelo crivo do Diretório Nacional.

Ao se filiar nesta quinta-feira, 23, ao PSB, Alckmin foi na mesma linha e justificou a aliança, após tantos embates públicos com Lula, dizendo que se trata de um “momento excepcional” no Brasil, com risco à democracia. Na eleição de 2006, quando disputou o segundo turno com Lula, Alckmin acusou o adversário de ter “quebrado o Brasil” e disse que ele queria voltar “à cena do crime”, mesma expressão usada agora por Bolsonaro. De lá para cá, o ex-governador mudou totalmente o discurso e afirma hoje que Lula representa a “esperança” do povo.

“O PT não medirá esforços para agrupar e expandir as alianças que pavimentam este campo, sabendo compor em uma mesma tática nacional a pluralidade de movimentos e candidaturas que porventura existam nos Estados, sem que isto faça enfraquecer o principal objetivo desta eleição”, diz um trecho da resolução que passou pelo crivo do Diretório Nacional. “Da mesma forma como ninguém conhece mais do que Lula as aflições do povo brasileiro, também é nele que reside o potencial de unidade nacional contra Bolsonaro.”

Até agora, o PT só fechou acordo para formar uma federação com o PC do B e o PV, o que significa que esses partidos deverão estar juntos por no mínimo quatro anos nas eleições. O PSB, nova legenda de Alckmin – que deixou o PSDB após 33 anos de filiação – decidiu apoiar Lula, mas sem integrar a federação. O PSOL também deve seguir o mesmo caminho, embora queira negociar pontos do programa de governo, como a revogação das reformas trabalhista e da Previdência.

“Nós faremos alianças com os partidos de esquerda e progressistas, assim como buscaremos alianças com o campo democrático, para garantir o pleno funcionamento das instituições democráticas, que estão sob permanente ataque”, disse ao Estadão o deputado Paulo Teixeira (SP), secretário-geral do PT.

No Nordeste, porém, até mesmo partidos do Centrão, como o Progressistas e o Republicanos – que compõem a base de sustentação de Bolsonaro no Congresso – têm alianças com o PT e seus líderes devem aderir à campanha de Lula em Estados como Bahia, Maranhão e Pernambuco. O vice-governador da Bahia, João Leão (Progressistas), por exemplo, rompeu com o PT, mas disse que apoiará Lula, embora seu partido esteja na base de Bolsonaro.

Uma ala do MDB também promete entrar na campanha de Lula ainda no primeiro turno da eleição, mesmo o partido tendo lançado a pré-candidatura da senadora Simone Tebet (MS) ao Planalto. Pelos cálculos do senador Renan Calheiros (MDB-AL), ao menos 13 diretórios do MDB endossam essa articulação.

Estão na lista seis seções do Nordeste (Alagoas, Pernambuco, Maranhão, Rio Grande do Norte, Paraíba e Piauí), além de dirigentes em outros Estados, como os ex-senadores Eunício Oliveira (CE) e Romero Jucá (RR).

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