Para economista, culpa é dos governos

Benefícios de longo prazo perdem espaço para obras de visibilidade

Ricardo Brandt, O Estadao de S.Paulo

20 de julho de 2009 | 00h00

A culpa pelo baixo desenvolvimento dos Estados do Nordeste é do próprio poder público, que prioriza investimentos em grandes obras que dão maior visibilidade política, mas geram benefícios temporários para a população local. A avaliação é do economista Fernando Blumenschein, coordenador de projetos da Fundação Getúlio Vargas (FGV)."Aquele modelo Sudene (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste) de fazer grande obras no Nordeste, esse conceito falhou, como mostram os indicadores. Quando se olha os indicadores da região em relação ao Brasil é possível ver que existe uma grande distância", afirmou Blumenschein.A teoria defendida por ele é que as obras tidas como grande solução para tirar o Nordeste da pobreza extrema têm efeito reduzido se elas não vieram acompanhadas de políticas públicas que aumentem a qualidade de vida dessas pessoas. "O Nordeste é uma grande fonte de mão de obra, mas desqualificada e de baixíssima produtividade. Qual a possibilidade de uma multinacional se instalar no sertão do Nordeste em função de uma obra de infraestrutura de transposição de um rio? Muito pouca. Agora, se tivesse ali uma mão de obra muito mais qualificada, bem treinada e vivendo decentemente, sem dúvida nenhuma o efeito multiplicador seria bem maior", explica o economista."As secretarias de planejamento estadual estão pensando em obras, fazer estrada, grandes sistemas de irrigação, trazer grandes siderúrgicas. Isso é o que chamamos de ações estruturantes e que são importantes. Mas o desenvolvimento econômico e o planejamento principal de regiões mais carentes não podem ser baseados única e exclusivamente nessas ações estruturantes. Isso é importante, gera emprego, renda, mas os grandes projetos têm também grande impactos que ficam concentrados no tempo", explica.Ele admite que a aplicabilidade desse conceito de desenvolvimento sustentável enfrenta barreiras quando se depara com os interesses políticos por trás das ações governamentais. "Para um político é muito melhor trabalhar com a ideia das grandes obras, visibilidade, possibilidade de trabalhar com grandes volumes de recursos e o fato de poder transmitir à população que ele está fazendo alguma coisa", avalia."Por que a mortalidade infantil no Nordeste é tão alta em relação às outras? Será que é um fatalismo? Não é, tem coisas que podem ser feitas. A partir do momento que se identifica que o problema existe, mede, compara e mostra, ele começa a ser olhado pela população, pelos formadores de política de uma forma diferente."

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