Para Dirceu, não há saída sem integração com América do Sul

O ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, afirmou ontem que, diante de uma correlação de forças tão desfavorável do ponto de vista econômico, não existe saída para o Brasil sem a integração da América do Sul. Dirceu criticou os Estados Unidos por insistirem na guerra contra o Iraque e disse que o ataque pode levar o mundo a uma tragédia. "Não vamos fazer a roda da história voltar, mas podemos dar outro rumo para a história e para a globalização", defendeu. As afirmações de Dirceu foram feitas na abertura da série batizada de "mesa de diálogo e controvérsias", uma novidade no Fórum Social Mundial. O tema do debate era a crise econômico-financeira e suas alternativas. Aplaudido pela platéia, Dirceu afirmou que não há "nenhuma possibilidade" de mudança do cenário desfavorável para os países pobres sem mobilização e aliança internacional entre as diferentes forças políticas. "Não acreditamos em saída para o Brasil sem a visão de unidade latino-americana", afirmou. "Mais do que isso: essa ameaça de guerra no Iraque, de desintegração da África e crescimento do racismo e xenofobismo são apenas sinais de que corremos riscos enquanto humanidade." Dirceu foi enfático: "Quero dizer com franqueza para o País que a guerra vai prejudicar muito o nosso País." Com discurso voltado para o público interno - ou seja, a esquerda que vitamina o Fórum Social Mundial --, Dirceu pregou a revisão dos organismos internacionais, como o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização Mundial do Comércio (OMC). "Está evidente que o século 21 não comporta os organismos internacionais que temos hoje", disse. "Eles só correspondem aos interesses de quem detém a hegemonia no mundo." Cuba Dirceu insistiu, porém, que é um "erro gravíssimo" virar as costas para os poderosos, até porque o Brasil já tem muitos contenciosos. "Não podemos pensar numa saída sem retomar o projeto de desenvolvimento nacional, mas também não podemos desligar o país e o continente do mundo". O ministro lembrou que Cuba, por exemplo, quer se integrar ao sistema econômico internacional. "São os Estados Unidos que não permitem", advertiu. Logo depois, explicou a estratégia do governo: "Vamos fazer política internacional com o pé no chão. Podemos construir uma nova aliança no mundo, mas sabemos o tamanho do sapato que calçamos." Com esse raciocínio, ele reiterou que é preciso saber articular o social com o institucional. "Quando o presidente Lula vem aqui a Porto Alegre e vai a Davos, significa que nós estamos fazendo isso". A platéia delirava com as intervenções mais à esquerda e, no fim da palestra, a mesa de diálogo e controvérsias ficou só no nome: todos concordaram com Dirceu e as críticas ao imperialismo norte-americano. Para Alicia Castro, parlamentar da Argentina, "os países da América do Sul e da América Latina vão se salvar juntos ou se afundar juntos". Eveline Herfkens, representante da ONU, defendeu regras internacionais para tratar o fluxo financeiro e também aplaudiu a sugestão de Dirceu de rever os organismos internacionais. "As instituições multilaterais precisam de reformas para incluir a agenda social", defendeu. "O dinheiro poderia ser aplicado de outra forma para resolver a pobreza." Veja o especial sobre os Fóruns de Davos e Porto Alegre

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.