Ricardo Stuckert/PR
Ricardo Stuckert/PR

Para Dilma, não há rebelião no Congresso

Questionada se a perda de votações na Câmara dos Deputados pode passar a se reproduzir no Senado, presidente evita responder e diz que em democracias a aprovação de projetos 'é complexa'

Andrei Netto, enviado especial a Milão, O Estado de S. Paulo

11 de julho de 2015 | 07h10

*Atualizado às 8h15

A presidente Dilma Rousseff afirmou neste sábado, 11, em Milão, na Itália, que não há rebelião no Congresso Nacional, mas evitou responder se as derrotas sofridas na Câmara dos Deputados podem passar a acontecer agora também no Senado. Para exemplificar o que dizia, citou os Estados Unidos - cujo governo de Barack Obama não tem maioria em nenhuma das casa do Parlamento.

As dúvidas sobre a capacidade do governo de manter a articulação política e garantir o apoio de sua base de sustentação aumentaram na quarta-feira, quando os senadores contrariaram o interesse do Palácio do Planalto e aprovaram a extensão da política de reajuste do salário mínimo também às aposentadorias e pensões. O placar da votação, de 34 votos a favor, e 25 contra, despertou a preocupação no governo de que a instabilidade que predomina na câmara possa agora se instalar em definitivo no Senado.

Questionada sobre o assunto em Milão, onde visitou o estande brasileiro da Exposição Universal, Dilma Rousseff diz não ver rebelião em sua base de sustentação. "Eu não chamo de rebelião votação no congresso em que há divergências", afirmou. A gente perde umas e ganha outras. Se a gente for fazer um balanço, nós mais ganhamos do que perdemos. Eu não concordo que haja uma rebelião."

Segundo a presidente, o governo também registrou vitórias importantes no Congresso durante o período em que aconteceram as derrotas mais duras. "Nós temos tido aprovação de muitas coisas importantes e temos tido também desaprovações. Agora isso não significa que haja uma rebelião."

Sobre a hipótese de que a instabilidade passar a nortear a ação dos senadores, Dilma não respondeu de maneira direta. "Em uma democracia se espera que haja debate, não é? Não tem como em país nenhum no mundo você achar que ganha todas no congresso, argumentou. 

A presidente usou ainda o exemplo dos Estados Unidos para ilustrar seu raciocínio. Detalhe: em Washington, a administração de Barack Obama não tem a maioria nem no equivalente americana da Câmara dos Deputados, nem no Senado. "Nos mais democráticos é que se torna mais complexa a aprovação", disse Dilma, completando: "Nos mais democráticos, onde há liberdade de opinião, onde há uma ampla manifestação de opiniões, como é o caso dos Estados Unidos."

Na mesma entrevista, Dilma afirmou que "para não cair" "é preciso de ajuda". A declaração foi feita depois de uma caminhada realizada em uma rede instalada no estande do Brasil na Expo Milano, a Exposição Universal que a delegação brasileira visitara instantes antes.

Dilma visitou o estande no início da manhã de hoje, no último evento oficial previsto na sua turnê por Rússia e Itália realizada nesta semana. No início da visita, a presidente assinou o livro dos visitantes da Expo Milano - que tem como tema a alimentação - e aproveitou e deixou uma mensagem: "Alimentar o mundo e o Brasil é algo que tem sido nossa prioridade. Eliminar a fome e superar a pobreza foram as grandes conquista do Brasil na última década", afirmou.

Então a presidente decidiu se aventurar e caminhar por uma rede elástica que se estende do início ao fim do pavilhão, uma das grandes atrações do estande brasileiro na Exposição Universal. Em um primeiro momento, caminhando sozinha, Dilma teve dificuldades e balançou, sem cair. A seguir foi apoiada primeiro por uma, e depois por duas pessoas, conseguindo se estabilizar e concluir a caminhada pela rede, que definiu como "lúdica" e "muito criativa".

Minutos depois, questionada pelo Estado sobre se o desequilíbrio que enfrentou no início da caminhada, seguido de estabilização seria uma metáfora de seu segundo governo, Dilma afirmou: "Não, querido, o meu mandato é, eu diria, mais firme que essa rede".

A presidente seguiu explicando como fizera para caminhar, e então disse: "Quando você está lá em cima, você inclina para um lado e imediatamente vira para o outro, você fica balançando mesmo". Lembrada do fato de que, ainda que balançando, não chegou a cair, Dilma respondeu: "Eu não caí, mas a gente sempre para não cair precisa ser ajudada, né?".

As imagens da presidente caminhando na rede foram registradas por cinegrafistas de empresas privadas de mídia e também pela NBR, a emissora oficial do governo. O momento em que Dilma balança, porém, não foi distribuído pela equipe que registrou as imagens. Segundo a equipe de jornalistas oficiais, houve "ordens expressas" para que essas tomadas não fossem colocadas à disposição da imprensa.

AUMENTO NO JUDICIÁRIO

O governo voltou a sinalizar em Milão que vai vetar o aumento de 53% a 78,5% nos salários dos servidores do Judiciário aprovado pelo Congresso. A presidente Dilma Rousseff comentou o encontro que teve com o ministro Ricardo Lewandowski na terça-feira em Porto, em Portugal, durante a escala da delegação presidencial em viagem pela Europa. "De fato o ministro Lewandowski pleiteia que não haja veto. No entanto nós estamos avaliando porque é impossível o Brasil sustentar um reajuste daquelas proporções", afirmou. "Nem em momentos de grande crescimento se consegue garantir reajustes de 70%. Muito menos no momento em que o Brasil precisa fazer um grande esforço para voltar a crescer."

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