Para Dilma, Cunha é quem manda no governo Temer

Em entrevista à Folha, petista acusou o governo interino de tentar barrar a Lava Jato e disse que acredita que pode voltar ao Planalto

O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2016 | 16h13

SÃO PAULO - Em entrevista publicada neste domingo, 29, pelo jornal Folha de S.Paulo, a presidente afastada Dilma Rousseff afirmou que o governo interino de Michel Temer terá que "se ajoelhar" para o presidente afastado da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ), com quem "não há negociação possível". Dilma também comentou as conversas gravadas do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado com integrantes da cúpula do PMDB, como os senadores Romero Jucá (RR), ex-ministro de Temer, e Renan Calheiros (AL), além do ex-presidente e ex-senador José Sarney (AP). "As razões do impeachment estão cada vez mais claras", disse.

Segundo a interpretação de Dilma, seu afastamento se deveria a uma tentativa de obstrução da Operação Lava Jato - ou seja, com a petista fora do governo, determinados grupos políticos poderiam escapar das investigações. "As conversas provam o que sistematicamente falamos: jamais interferimos na Lava Jato. E aqueles que quiseram o impeachment tinham esse objetivo", alegou Dilma. Além disso, a presidente afastada afirma que o impeachment foi uma forma de se implementar uma "política ultraliberal em economia e conservadora em todo o resto. Com cortes drásticos de programas sociais".

Sobre Cunha, Dilma fala que ele é a figura central do governo Temer. "Isso ficou claríssimo agora, com a indicação do André Moura (deputado ligado a Cunha e líder do governo Temer na Câmara). Cunha não só manda: ele é o governo Temer. E não há governo possível nos termos do Eduardo Cunha".

Sobre a hipótese de ser citada na delação premiada de Marcelo Odebrecht, e acusada de pedir a ele dinheiro para o pagamento do marqueteiro João Santana (campanha de 2014), a presidente afastada foi enfática: "Eu jamais tive conversa com o Marcelo Odebrecht sobre isso". Ela também afirmou que teve poucos encontros com Odebrecht. "Eu não recebi nunca o Marcelo no (Palácio da ) Alvorada. No Planalto, eu não me lembro. Recordo que encontrei o Marcelo Odebrecht no México, o maior investimento privado do país é da Odebrecht com um sócio de lá. Conversamos a respeito do negócio, ele queria que déssemos um apoio maior. Uma conversa absolutamente padrão do Marcelo". 

Dilma ainda afirmou que acredita na possibilidade de reverter o seu processo de impeachment e voltar a Presidência da República.

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