Para defesa, denúncia é confusa e açodada

Advogados contestam texto, que comparam a uma 'novela da Globo'

Eugênia Lopes e Leonencio Nossa, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2024 | 00h00

Pelo segundo dia, advogados de parte dos 40 políticos, empresários e assessores acusados no esquema do mensalão procuraram desqualificar a denúncia apresentada pelo procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza. Na defesa, que durou toda a manhã de ontem, chegaram a dizer que carece de raciocínio lógico e parece "novela da TV Globo".Para eles, a denúncia de Souza não tem fundamento, é um "texto confuso" e foi feita de forma "açodada", só para atender ao "clamor da imprensa". Também reclamaram do enquadramento dos acusados no crime de formação de quadrilha."É preciso separar o joio do trigo. Separar quem é mensaleiro de quem é um inocente mensageiro", disse Délio Lins e Silva, advogado dos irmãos Jacinto e Antonio Lamas, assessores do PR. Os dois sacaram dinheiro do Banco Rural a pedido do deputado Valdemar Costa Neto (SP), presidente do partido. "Essa quadrilha mais parece quadrilha de São João", criticou Lins e Silva, ao alegar que os dois só cumpriram ordens."Essa denúncia não merece ser recebida pelo simples fato de que não pode ser provada", argumentou Marcelo Bessa, advogado de Costa Neto e do ex-deputado Carlos Rodrigues, o Bispo Rodrigues. Para Castelar Modesto Guimarães, advogado do ex-ministro e ex-deputado Anderson Adauto, a denúncia foi feita de "afogadilho".Uma das defesas mais contundentes foi a de Tales Castelo Branco, advogado do publicitário Duda Mendonça e sua sócia Zilmar Fernandes. Segundo ele, os dois cometeram a "desgraça de dizer a verdade" e por isso foram denunciados. "Duda está desiludido por ter dito a verdade no Parlamento."Duda revelou à CPI dos Correios, em agosto de 2005, que recebeu R$ 10,5 milhões numa conta no exterior como pagamento de parte da campanha de 2002 do PT. "Ocultar dinheiro no exterior não é lavagem. É crime de sonegação fiscal", defendeu Castelo Branco.Luiz Francisco Corrêa Barbosa, que defende o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), considerou "surpreendente" a inclusão de seu cliente no rol de denunciados. "Jefferson foi a principal testemunha do caso e surpreendentemente aparece aqui como denunciado. Ele é o denunciante do mensalão. Ele nunca participou disso", afirmou, ao argumentar que seu cliente é "uma valiosa testemunha de acusação".Para Luiz Maximiliano Leal, advogado da assessora do PT Anita Leocádia, a denúncia "se lastreia em núcleos, tal qual uma novela da Globo". Anita foi acusada de sacar recursos de contas de empresas de Marcos Valério, apontado como principal operador do mensalão, para pagar contas de campanha do PT. Ela teria sacado o dinheiro a pedido de seu chefe na época, o deputado Paulo Rocha (PT-PA), também denunciado por Souza. "Não dá para perceber em Anita Leocádia, que não tem sequer um carro quitado, a conduta de lavagem de dinheiro", disse o advogado.

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