Para DAC, ultraleve é aeronave experimental

O Departamento de Aviação Civil (DAC) não tem informações estatísticas sobre o número de acidentes com ultraleves no Brasil. Mas, segundo o DAC, Todo ultraleve, por determinação, tem que trazer o seguinte aviso, em frente ao manche do piloto: "Esta aeronave não satisfaz os requisitos de aero navegabilidade. Vôo por conta e riscos próprios". O DAC não investiga acidentes ocorridos com ultraleves e algumas seguradoras ou empresas de assistência à saúde se recusam a cobrir ou a assistir pilotos e passageiros acidentados neles. Segundo o major Ruy Flemming, chefe da Divisão Técnica do Serviço Regional da Aviação Civil (Serac) 4, de São Paulo, o ultraleve não é uma aeronave homologada pelo DAC. "Trata-se de aeronave experimental e quem voa nela assume os riscos", afirma. Os altos riscos de vôos com ultraleves levaram o DAC a agir com rigor na legislação. As aeronaves são proibidos de voar sobre cidades ou núcleos urbanos. Mas o mesmo rigor não foi aplicado na formação dos pilotos. "Um piloto de ultraleve é habilitado com dez horas de vôo, enquanto o piloto de avião precisa de 40 horas", reconhece o proprietário da maior fábrica de ultraleves do estado de São Paulo, Luiz Cláudio Gonçalves, da Flyer Indústria Aeronáutica instalada na cidade de Sumaré. José Eduardo Dipolito, instrutor de aviação em aeroclubes da região de São Paulo, com mais de 10 mil horas de vôo, têm graves restrições à formação de pilotos de ultraleve. "Eles são enquadrados na categoria de pilotos aeroesportivos e não precisam brevê, mas apenas de uma licença para voar. As exigências necessárias para que consigam a licença são muito menores do que as exigidas para um piloto de aeronaves pequenas", avalia Dipolito. O presidente da ABU admite a proliferação do que ele chama "instrutores individuais" para a pilotagem de ultraleve no Brasil. "A ABU só reconhece instrutores ligados à escolas de aviação", afirma. Para ele, a falta de informação adequada é a principal responsável pelos acidentes com ultraleves no país. Segurança Golçalves, da Flyer, garante que as novas gerações de ultraleves já superaram as falhas comuns das antigas aeronaves. Embora não existam dados oficiais, Golçalves afirma que nos últimos dez anos no Brasil não foi registrado um único histórico de acidente com ultraleve causado por falha na estrutura da aeronave. "Todos os acidentes ocorridos no país na última década foram provocados por falhas humanas na pilotagem ou na manutenção", diz Golçalves. O major Flemming também reconhece que, "quando as normas técnicas são respeitadas", o ultraleve é uma aeronave segura. "Ele voa em velocidades e altitudes muito baixas e, se tudo for feito certinho, pousa em qualquer lugar mesmo em casos de pane no motor", afirma ele. O instrutor Dipolito lembra que os problemas mais comuns ocorridos com ultraleves estão relacionados exatamente à falhas nos motores. "Se o piloto é experiente e está voando dentro das especificações, consegue pousar sem maiores traumas", avalia. Em alguns países, a legislação permite a fabricação de ultraleves com dois motores. No Brasil, o DAC ainda não regulamentou este tipo de aeronave. Acrobacias Flemming se recusa a fazer qualquer avaliação específica sobre o acidente de Vianna. "Não sabemos ainda em quais circunstâncias ocorreu", diz ele. Mas, do ponto de vista técnico, o major garante que o ultraleve "não é feito e nem indicado" para manobras acrobáticas. "Em alguns tipos de ultraleve a acrobacia pode até ser realizada, mas mesmo nestes casos as restrições são inúmeras e é indispensável que o piloto tenha sido suficientemente treinado para isso", afirma o major. O presidente do Clube Esportivo de Ultraleve (CEU) do Rio de Janeiro, César Nepomuceno, afirmou hoje que não acredita que Vianna estivesse realizando acrobacias quando se acidentou. "Seu ultraleve não era apropriado para este tipo de manobra e ele era um piloto muito prudente", afirmou Nepomuceno. Imprudência O DAC reconhece que, além dos ultraleves, as pequenas aeronaves representam o maior problema de segurança para a aviação no Brasil. Das 1.090 mortes ocorridas em acidentes aéreos no país nos últimos dez anos, 987 foram causadas por aeronaves pequenas. Investigações do DAC revelaram que 95% dos acidentes com pequenas aeronaves ocorreram no Brasil por falta de habilidade, imprudência ou negligência dos pilotos. As falhas mecânicas são responsáveis por 5% dos acidentes com pequenas aeronaves. "E, mesmo nestes casos, a maioria dos acidentes ocorre por falta de manutenção adequada", garante o major Flemming.

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