Alan Santos/PR
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Para conter polícia nas manifestações de 7 de Setembro, DF prevê promoções

Às vésperas do protesto, governo do Distrito Federal libera mais de R$ 10 mi para tentar atenuar insatisfação da PM

Vinícius Valfré, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2021 | 05h00

BRASÍLIA - Diante da ameaça de um quebra-quebra nas ruas de Brasília no dia 7 de setembro, data da manifestação bolsonarista, o governo do Distrito Federal decidiu liberar mais de R$ 10 milhões para conter a insatisfação da Polícia Militar, um dos alicerces do presidente Jair Bolsonaro. O valor será usado, neste ano, na abreviação do tempo de promoções de mais de 2,4 mil policiais que são os mais bem pagos do País. Um outro montante de menor valor, ainda sem previsão, será gasto no esquema de segurança.

Ao longo da semana, o clima no Congresso e nos tribunais superiores foi de tensão e temor por causa de possíveis atos de vandalismo na capital federal. O Centro Integrado de Operações de Brasília (Ciob), que monitora eventos públicos, trabalha na definição de estratégias de segurança de autoridades e dos locais públicos da região central no dia da manifestação.

As providências tratadas envolvem reforço de agentes no entorno do Supremo Tribunal Federal (STF) – principal alvo de ataques de Bolsonaro e de seus apoiadores – e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o fechamento da Praça dos Três Poderes, onde fica a sede da Corte. 

O trânsito deverá ser interditado na Esplanada dos Ministérios, acesso à praça. Em grandes manifestações anteriores, ao menos mil policiais foram mobilizados, incluindo equipes de atiradores especiais que costumam se posicionar nas coberturas dos prédios.

A disposição da PM do DF para agir com firmeza contra eventuais bolsonaristas radicais é vista com desconfianças no STF, na Câmara e no Senado. Ibaneis foi um dos beneficiados pelo esquema do orçamento secreto montado por Bolsonaro em troca de apoio político, como revelou o Estadão. Sob o comando dele estará o patrulhamento e a manutenção da ordem pública que, por ofício, não cabem à Polícia Federal ou à Polícia Legislativa.

Bolsonaro pretende discursar pela manhã, em Brasília, e seguir com comitiva para fazer o mesmo em São Paulo, à tarde. Autoridades confidenciaram medo de ataque semelhante ao que ocorreu no Capitólio, nos EUA, e dizem que o principal anteparo ao caos só poderá ser feito pela PM comandada pelo governador Ibaneis Rocha (MDB), aliado do presidente.

Ibaneis assinou o decreto das promoções dos policiais no dia 24. Era uma demanda antiga da classe. Agora, em vez de 53 promoções de policiais, em 2021, serão 2.495, de praças e oficiais - sem contar os bombeiros. Além do prestígio, a medida representa um incremento salarial de pelo menos R$ 200 a policiais já com maior faixa de renda entre todas as unidades da federação, o dobro da nacional. Metade da tropa ganha pelo menos R$ 10,8 mil, segundo dados do Anuário Brasileiro da Segurança Pública.

O governador fez da assinatura do decreto das promoções um ato político. Reuniu secretários, deputados distritais e federais e até a ministra da Secretaria de Governo, Flávia Arruda. Na oportunidade, aproveitou para chamar a PM à responsabilidade. “Estive com os governadores e todos mostrando muita preocupação com os eventos do 7 de setembro, que se anunciam muito difíceis. Eles estão preocupados com a insurreição das tropas. Eu disse de forma muito tranquila: aqui no DF não temos esse problema”, afirmou.

O bolsonarismo está presente na PM do DF. O atual comandante-geral, Márcio Cavalcante Vasconcelos, é próximo do ministro Jorge Oliveira, indicado por Jair Bolsonaro ao Tribunal de Contas da União (TCU), e do ministro da Justiça, Anderson Torres. Em um evento recente da corporação que contou com a audiência de Bolsonaro, repetiu o slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

No evento das promoções, o comandante jurou lealdade ao governador. “O que o senhor determinar nós faremos porque nós somos uma polícia de Estado, estaremos sempre prontos para cumprir a lei e para respeitar os direitos do cidadão”, declarou. Vasconcelos não atendeu a pedidos de entrevista feitos pela reportagem. A Secretaria de Segurança e o governador também não.

O comportamento da tropa nos bastidores, porém, já havia ligado o alerta no Ministério Público do DF. O órgão entende que a Constituição veda a participação de militares da ativa em atos políticos, fardados ou à paisana, e cobra relatórios de inteligência que identifiquem a politização interna. A PM, por sua vez, diz que cada policial pode exercer sua cidadania, desde que não represente a instituição.

Interlocutores de Ibaneis dizem que, apesar do alinhamento a Bolsonaro, o governador entendeu o que estará em jogo no dia 7 e não quer ser tolerante com quebra-quebra. Nas reuniões, tem cobrado posicionamentos técnicos das forças de segurança porque, caso algo saia errado, a conta pode ser alta. E como um advogado que construiu fortuna e prestígio percorrendo tribunais em Brasília, ele não poderia ser conivente com a destruição que vem sendo incentivada. 

O compromisso de manter a ordem pública tem também um viés pragmático. O governador já experimentou uma fração da ira de hordas bolsonaristas radicais e não gostou do que sentiu. No ano passado, a Polícia Civil do DF desarticulou um grupo de extremistas que faziam treinamento paramilitar em um sítio no entorno de Brasília. Um dos envolvidos gravou vídeo com ameaça explícita a Ibaneis. “Nós vamos te pegar, seu safado. Nós estamos aí para defender o presidente, o recado está dado”, disse o homem que seria o dono do sítio no qual também foram encontradas armas sem registro.

O governo do Distrito Federal não deu detalhes sobre efetivo a ser emprego, rotas e custos da operação. Reuniões definitivas estão previstas para a semana da véspera do evento, com membros da PF, Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República e outros órgãos. Até o momento, uma das propostas estudadas é suspender o tráfego de carros ainda na altura da Rodoviária de Brasília, localizada antes dos ministérios, e abrir uma linha para revista de manifestantes naquela altura.

Bolsonaro espera recorde de público em Brasília e em São Paulo. À base, o presidente emite sinais contraditórios sobre a maneira como devem encarar os protestos. Diz que serão tranquilos, sem rupturas. Mas também acusa ministros do Supremo de imporem uma “ditadura” por causa de decisões tomadas contra interesses do presidente.

“Não podem uma ou duas pessoas, no máximo, estarem ditando normas no Brasil, impondo uma ditadura no Brasil. Não podemos admitir isso aí”, disse, na live de quinta-feira, 26, em referência aos ministros Alexandre de Moraes e Luis Roberto Barroso, do STF. “Eu vou onde o povo estiver e meu norte é o que o povo quer também. Não queremos e nem trabalhamos por ruptura. Nem sonhamos com isso. Por outro lado, devemos lealdade ao povo brasileiro.”

Nas últimas semanas, o presidente tem caído nas pesquisas de avaliação. Ao mesmo tempo, enfrenta o desagrado de setores produtivos com a postura beligerante e falta de foco e ensaios de afastamento até de alas do Centrão que preveem uma derrota dele em primeiro turno em 2022.

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública do DF ressaltou que realizar manifestação é um direito “fundamental” expresso na Constituição. “Toda medida adotada pela Secretaria de Segurança Pública obedece à legislação que visa assegurar o direito de manifestação e de reunião, a ordem pública e a segurança e integridade dos manifestantes e do patrimônio público”, destacou.

Presidente do Clube dos Bombeiros Militares do DF, o subtenente Jair Dias minimizou a assinatura do decreto às vésperas dos protestos. “Acredito que ele (Ibaneis) alinhou o corpo técnico e as demandas da corporação”, afirmou. “A medida é vista pelos militares de uma forma muito positiva”.

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