Para CNBB, tortura no País existe até os dias de hoje

D. Dimas apóia abertura de arquivos secretos, mas não punição a militares

Marcelo de Moraes, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

12 de dezembro de 2008 | 00h00

O secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), d. Dimas Lara Barbosa, cobrou ontem atenção especial aos atos de força praticados hoje em dia, que considera comparáveis às torturas cometidas durante o período da ditadura militar. Em solenidade ontem na Câmara sobre os 40 anos da edição do Ato Institucional número 5 (AI-5), d. Dimas criticou a violência praticada atualmente em presídios, a insegurança dos moradores de favelas e as ameaças de morte feitas contra bispos na região do Xingu, entre outros problemas.Para o secretário-geral da CNBB, o governo deveria abrir todos os arquivos secretos referentes ao período da ditadura militar, como forma de resgatar a memória brasileira e mostrar à sociedade todo o lado negativo da repressão aos direitos individuais."Essa mentalidade de uso da força não está tão afastada da nossa realidade não. Ouço dizerem coisas como a polícia é o inseticida social. Existe também uma ascensão política muito perigosa de pessoas ligadas ao crime organizado. Então, a abertura dos arquivos seria importante como resgate dessa memória histórica, para evitar o avanço desse tipo de coisas ", disse o bispo. D. Dimas não defendeu, porém, punição para aqueles que praticaram tortura durante a ditadura. "Eu me preocupo em distinguir o sentimento de resgate da memória do sentimento de vingança", destacou.ANISTIASe a CNBB não defende a punição aos torturadores, o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), César Britto, defendeu a medida abertamente, durante o evento de ontem na Câmara. "A Ordem defende essa posição e entende que é importante para o resgate da história do País, até porque os crimes de tortura não podem ser anistiados, na nossa visão."Representante do governo na solenidade, o ministro da Justiça, Tarso Genro, preferiu discorrer sobre a importância da recuperação da democracia no Brasil, depois do período de endurecimento do regime militar, com a edição do AI-5, no dia 13 de dezembro de 1968. "Esse evento é importante para afirmar a democracia", disse. Visto dentro do governo como um dos principais defensores de punição aos torturadores, Tarso preferiu seguir as instruções do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para evitar esse tipo de debate em público, para não desgastar o governo. "Quem trata de arquivos é a Casa Civil", afirmou.Participaram também da solenidade o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), e o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes.

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