Para Centrão, vídeo da reunião ministerial mostra que 'feitiço virou contra o feiticeiro'

Com o inquérito no Supremo, o preço da fatura política para Bolsonaro deve ser cada vez mais alto

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2020 | 16h13

Caro leitor,

A existência de um vídeo com o conteúdo da reunião ministerial que pode destruir o governo foi revelada pelo próprio presidente Jair Bolsonaro, há 15 dias, na portaria do Palácio da Alvorada. Na noite de 28 de abril, Bolsonaro conversava com apoiadores e respondia a perguntas de jornalistas quando, pouco antes de se despedir, prometeu divulgar a gravação da última reunião da qual Sérgio Moro havia participado, no dia 22.

Bolsonaro está convencido de que Moro será candidato à sua sucessão, em 2022. Para ele, o ex-juiz da Lava Jato se movimenta para enfrentá-lo na política e “vender” na campanha a marca de quem ataca a corrupção doa a quem doer. Foi com essa avaliação que o presidente pediu “autorização” aos ministros para expor o ocorrido naquele tenso encontro. Disse que queria pôr os pingos nos ‘is’. “Ninguém foi contra. Mandei legendar (...) e vou divulgar. Tire as conclusões de como eu converso com os ministros”, disse ele.

Ninguém imaginava, porém, que a reunião tivesse sido marcada por palavrões, ameaças de demissão, bate-boca entre auxiliares e até a defesa da “prisão” de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Muito menos que o presidente fosse abordar a necessidade de trocar o superintendente da PF no Rio para proteger sua família, como relataram investigadores. Se o conteúdo do vídeo for tão explosivo quanto asseguram as pessoas que o assistiram – o que só saberemos quando seu sigilo for quebrado –, Bolsonaro pode se preparar para negociar ainda mais com o Centrão, a fim de barrar eventual processo de impeachment.   

Quando anunciou que divulgaria o vídeo do encontro, Bolsonaro parecia de bom humor e chegou até a dizer que tinha um “amor enrustido” pela imprensa. Naquele 28 de abril, seis dias depois da fatídica reunião ministerial – convocada para apresentar o plano Pró-Brasil de retomada de investimentos em tempos de pandemia do coronavírus –, o Diário Oficial da União trazia a nomeação de André Mendonça para o Ministério da Justiça, no lugar de Moro, e de Alexandre Ramagem para o comando da PF.

Após consultar militares e até mesmo juristas, Bolsonaro demonstrava satisfação com a equação encontrada para a dança das cadeiras – desfeita na manhã seguinte, quando o ministro do Supremo Alexandre de Moraes suspendeu a nomeação de Ramagem, sob alegação de “desvio de finalidade”. Diante dos jornalistas e de seus seguidores, o presidente só tinha uma obsessão: dizer que Moro precisava provar as acusações feitas contra ele, de ingerência política na Polícia Federal. “Pelo amor de Deus, pô! Está na lei: quem nomeia o chefe da Polícia Federal sou eu. Se eu nomeio, eu exonero”, afirmou Bolsonaro, aplaudido por aliados. “Tentei negociar com ele o tempo todo um nome de consenso. Ele não aceitou. Fechou questão.”

Sempre com uma claque que lhe arremessava palavras de incentivo, Bolsonaro citou ali, com todas as letras, a preocupação com o vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ), seu filho “zero dois”.

“Não é justo um presidente viver numa situação dessas. Como é que vocês dizem que meu filho Carlos está sendo investigado se é um processo que corre em segredo de Justiça e tem 10 deputados? Por que não revelam o nome dos 10 deputados? Só o Carlos Bolsonaro? É para atingir a mim? Só pode ser”, insistiu.

Em mensagem trocada por WhatsApp com Moro, dias antes, Bolsonaro havia compartilhado com ele uma publicação dizendo que “dez a 12 deputados bolsonaristas”, além de empresários, estavam sendo investigados pela Polícia Federal. O então ministro respondeu que esse inquérito era da alçada de Alexandre de Moraes, no Supremo. 

O enredo dessa história é conhecido: no próprio dia 29 de abril, Bolsonaro recuou da decisão de divulgar o vídeo “legendado” da reunião ministerial, sob o argumento de que havia sido aconselhado a não “criar turbulência” porque assuntos de Estado, “potencialmente sensíveis e reservados”, haviam sido tratados ali.

Moro, porém, aproveitou a senha dada por Bolsonaro e, em depoimento à Polícia Federal, oito dias após pedir demissão, citou o vídeo como prova da tentativa do ex-chefe de interferir em investigações conduzidas pela Polícia Federal. Para o ex-juiz da Lava Jato, o conteúdo do vídeo representa a confissão do presidente, que nega ter citado termos como “Polícia Federal” e “superintendência” naquele encontro.

Agora, Bolsonaro diz que não vai mais fazer reuniões ministeriais nos moldes de “antigamente” e, nesta terça-feira, 12, já não permitiu a gravação da conversa coletiva com auxiliares - aquela que, segundo ele, tinha sempre um “chip” guardado no cofre.

Na prática, o inquérito Moro versus Bolsonaro –  aberto pelo ministro Celso de Mello, decano do STF – tem hoje potencial para agravar muito mais a crise política, com consequências imprevisíveis. Até mesmo integrantes do Centrão – bloco que negocia apoio ao governo em troca de cargos –  dizem, nos bastidores, que “o feitiço virou contra o feiticeiro”. E, para Bolsonaro, o preço da fatura política deve ser cada vez mais alto.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

Bolsonaro e o Congresso

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