Para Cardozo, vincular investigação sobre Santana à campanha de Dilma é 'coisa estapafúrdia'

'Campanha de Dilma pagou R$ 70 milhões para João Santana. Por que quem paga R$ 70 milhões tem que pagar por fora alguma coisa?', questiona ministro da Justiça

Vera Rosa, O Estado de S. Paulo

23 de fevereiro de 2016 | 22h07

BRASÍLIA - O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, classificou ontem como “uma coisa estapafúrdia” a tentativa do PSDB e de setores dissidentes do PMDB de vincular os pagamentos sob investigação para o marqueteiro João Santana com a campanha de 2014 da presidente Dilma Rousseff.

O governo está preocupado com os desdobramentos da prisão de Santana, que assinou a propaganda de Dilma e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e tenta se descolar de mais um escândalo num momento em que a oposição procura  obter a cassação da presidente no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

“A campanha de Dilma pagou R$ 70 milhões para João Santana. É a maior contratação que temos. Por que quem paga R$ 70 milhões tem que pagar por fora alguma coisa como US$ 7,5 milhões? Não tem o menor sentido. É um verdadeiro nonsense, uma coisa estapafúrdia”, disse Cardozo. “Quem  declarou R$ 70 milhões pode declarar R$ 80 milhões, R$ 85 milhões. Por que então (o marqueteiro) teria de receber no caixa 2?”

No relatório que deu origem ao pedido de prisão de Santana, o delegado da Polícia Federal Filipe Hille Pace observa que os pagamentos feitos por campanhas petistas a Santana, entre 2006 e 2014, somaram R$ 171,5 milhões. A representação de Pace sustenta que “não há, e isto deve ser ressaltado, indícios de que tais pagamentos estejam revestidos de ilegalidades”, mas lança suspeitas sobre o PT em relação ao desvio de recursos da Petrobrás.

“Todo mundo sabe que o que está em discussão no TSE são as finanças da campanha da presidenta Dilma. Se o partido A, B, C ou D recebeu alguma coisa, isso não se comunica com as campanhas. Seria a mesma coisa que eu tivesse de cassar o mandato de todos os eleitos de um partido por uma situação de um desvio qualquer, que, no caso, não está nem provado”, afirmou Cardozo.

Questionado se estaria acusando o PT, o ministro reagiu e disse que “de forma nenhuma”. A orientação do governo, porém, é deixar claro que o tesoureiro da campanha de Dilma era Edinho Silva, hoje ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social, e o do PT, João Vaccari Neto, preso desde março do ano passado pela Operação Lava Jato. O núcleo político do governo bate na tecla de que havia “autonomia” entre a arrecadação do PT e a do comitê da reeleição.

“Tenho absoluta certeza de que o PT irá esclarecer esses fatos e que a Polícia Federal vai investigar com autonomia, como sempre investigou. Não dá para fazer prejulgamentos de qualquer natureza”, insistiu Cardozo.

Para o ministro, o PSDB “continua aflito”, procurando um fato para justificar a deposição da presidente. “Parece aquela personagem do Axterix, o Ideiafix (mascote). Qualquer coisa que aparece, mesmo sem nexo, sem nada, o Ideiafix quer o impeachment, o impeachment, o impeachment”, ironizou ele. Ao ser lembrado que dissidentes do PMDB, partido do vice Michel Temer, também integram o comitê pró-impeachment, Cardozo admitiu a divisão da base aliada.

“Há parlamentares da base governista que sempre quiseram o impeachment e agem na mesma toada da oposição, quando o ideal é que estivéssemos debatendo soluções para sairmos da crise”, argumentou o ministro.

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