Para ''''Cabelo'''', Senado é reality show, sob a mira da imprensa

Salgado diz que Renan foi para o paredão, a exemplo de programa de TV

O Estadao de S.Paulo

21 de outubro de 2007 | 00h00

A aparência de rebelde, com longas madeixas - que já lhe valeram o apelido de Cabelo -, parece não combinar com as posições conservadoras, sempre favoráveis a quem tem o poder nas mãos. Ele divide a mesma Casa com o ministro das Comunicações, Hélio Costa, de quem é suplente, e as mesmas idéias com o presidente licenciado do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), de quem se tornou um leal escudeiro. Foi assim que o senador Wellington Salgado (PMDB-MG), mesmo não sendo do ramo, virou símbolo de uma época em que não é necessário ter votos para se chegar ao Senado, mas apenas boas relações. O ex-senador Darcy Ribeiro comparava o Senado ao céu, ressalvando que a vantagem era que, para se chegar ali, o eleito não precisava morrer. Empresário dos setores do ensino e das comunicações, Salgado tem outra visão, mais terrena e midiática, do Senado. Para ele, a Casa funciona como uma espécie de reality show, um "Big Brother cruel" que, para manter-se de bem com a opinião pública, coloca no paredão aqueles que contrariam os interesses da mídia. Nesse show, a imprensa, por sua vez, seria a grande vilã, a responsável por tudo de ruim que acontece aos nobres senadores. "Vocês são umas hienas. Quando eu sair daqui, vou fazer um filme de curta-metragem mostrando vocês como hienas e vou ganhar prêmio no Festival de Cannes", afirmou o senador, falando sério. Olhos esbugalhados e fixos no interlocutor, o senador contou, misturando política e entretenimento, que está convencido de que o pedido de licença de 45 dias de Renan foi uma manobra semelhante às que ocorrem nos shows de TV, quando os participantes se reúnem para decidir quem continua no espetáculo. "Os verdugos (os colegas senadores) que colocaram Renan no paredão podem se arrepender nas próximas eleições. A experiência do Big Brother na TV mostra que o povo se revolta contra aqueles que se unem e conspiram para colocar um dos integrantes da casa no paredão."Salgado já começou o seu desembarque do "Big Brother Senado". De acordo com seus colegas de Casa, Marlene, sua mãe, está mais preocupada que o próprio aprendiz de senador. Ela teria convocado Salgado de volta.Primeiro, por ele ser considerado mais competente que os irmãos para gerenciar os negócios em educação e comunicação do clã. Segundo, por temer que a atuação de Salgado, como franco-defensor daqueles que se encontram na berlinda da ética, acabe contaminando os negócios da família. Os temores são compartilhados pelo ministro Hélio Costa. Na avaliação fria e racional, ele tem confidenciado que a agressiva exposição do senador estaria provocando reações no eleitorado mineiro. Afinal, na lógica política de Salgado, os problemas de desvio de conduta dos colegas peemedebistas são fruto de perseguição da mídia ou da disputa de poder.Jornalista e político experiente, Costa já percebeu que a atuação de seu suplente está lhe custando muito caro. Um senador confidenciou que o ministro já mandou recados para Salgado "maneirar" porque estaria começando a tirar seus votos. Ao colar a sua imagem à de Renan em queda livre, Salgado fragilizou sua trajetória. Descobriu-se ainda que, na condição de empresário, o senador tem problemas com a Receita. "Eu fui acusado de sonegação, mas vão ter de provar que eu soneguei. Na verdade, eu não cometi crime algum. Fui eu quem procurou a Receita e não o contrário. Eu já contratei advogado e vou processar todo mundo. Comigo não tem essa conversa de sigilo da fonte", disse ele ao Estado. Com a mesma coragem, batizada de inexperiência por políticos profissionais, Salgado foi o único integrante da tropa de choque a ficar com Renan até o último momento. "Eu não era amigo do Renan, conheci Renan no Senado, mas fui o único que não o abandonou no momento da licença." Entre os colegas, Salgado colecionou amizades, apesar da espalhafatosa atuação política. Para o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), o colega do PMDB é confiável e sabe entender as diferenças políticas. "Ele cumpre o que combina."Para outros, o senador não deve ser levado a sério. "Ele tem o raciocínio de uma criança de 12 anos", disse, em conversa com um amigo, o senador Arthur Virgílio, líder do PSDB. "É um garotão, não é do ramo", minimiza o senador Heráclito Fortes (DEM-PI).Em pouco tempo de suplência, no entanto, Salgado tornou-se presidente da Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática. Dono de universidades e retransmissoras, Salgado não tem do que se queixar. A comissão é um posto-chave e por ali passa toda a regulamentação do setor. É a cereja do bolo de uma receita típica de Salgado, acostumado a misturar educação com comunicação, negócios com política. Com tanto poder, ele também se cacifou para freqüentar o circuito fechado da cúpula do PMDB. Aos trancos, lançou-se numa missão de paz para buscar o apoio da oposição na manobra para evitar a cassação de Renan. "A paz voltou?", perguntou a um líder da oposição na quarta-feira. A resposta foi negativa. Em menos de 24 horas, ele já trabalhava para evitar que o PSDB se unisse com o PT na briga pela presidência do Senado. A um senador do PSDB, provocou: "Vocês não vão apoiar alguém do PT para a presidência do Senado?" O colega respondeu com ironia: "É só o PMDB arrumar um candidato decente que a gente vota nele." O senador Sérgio Guerra (PSDB-PE)resume: "Ele é um senador primitivo."

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