Tiago Queiroz/Estadão - 13/01/2022
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Eliane Cantanhêde
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Para Bolsonaro, Queiroga e Damares, parada cardíaca de criança vacinada seria troféu

De todo o show de horrores da pandemia, poucos conseguem ser piores do que a tentativa de usar uma menininha na campanha contra a vacinação de crianças

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2022 | 03h00

De todo o show de horrores da pandemia, poucos conseguem ser piores do que a tentativa de usar uma menininha que teve parada cardíaca em Lençóis Paulista como troféu na campanha contra a vacinação de crianças. É vil, indigno, imoral.

Sempre indiferente, o presidente Jair Bolsonaro telefonou diligentemente para os pais da menina, que teve a parada horas após receber a vacina contra a covid-19. Logo ele, que nunca deu uma palavra de consolo para as famílias dos mais de 620 mil adultos e de 1.400 crianças mortos pela doença – o que ele acha pouco.

Quando o Brasil atingiu 10 mil mortos, Bolsonaro foi passear de jet ski no Lago Paranoá, em Brasília. Com mais alguns milhares, deu de ombros: “E daí? Todo mundo vai morrer”. E, depois de trabalhar contra a vacinação de adultos, faz campanha aberta contra a de crianças. Não se vacinou nem vacina a filha.

Então, por que ligou para os pais da menininha? Para se solidarizar? Manifestar empatia? Não. Só ligou para saber o quanto a dor e o susto deles lhe poderiam ser úteis, o quanto poderiam comprovar que vacina é perigosa. Na próxima live, diria: “Viu? Eu não disse?”

Fiéis coadjuvantes, os ministros Marcelo Queiroga, da Saúde, e Damares Alves, da Mulher, Família e Direitos Humanos, saíram em desabalada carreira atrás da família. Frustração. A menina se recupera bem e a parada foi por uma síndrome congênita, sem relação de causa e efeito com a vacina. 

O Sindicato dos Médicos do Rio e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) pediram o impeachment de Queiroga na Câmara e a CNBB se uniu a cinco entidades num pacto pela vida das crianças. O Ministério da Saúde demorou três semanas após a autorização da Anvisa para admitir a vacinação de 5 a onze anos, inventando bobagens. E as aulas começam em fevereiro.

O ministério de Queiroga também enviou nota técnica para a Anvisa empurrando toda a responsabilidade pelos autotestes para as farmácias. Depois, derrubou as diretrizes da sua própria comissão técnica contra o tal kit covid. E faz corpo mole para a Coronavac em crianças. Sem plano, estimativa de doses, cronograma, logística.

E a Ômicron definitivamente não é “bem-vinda”, como Bolsonaro chegou a dizer, tanto que os hospitais estão lotados, as mortes voltaram a subir e Rio e São Paulo acabam de adiar os desfiles de escolas de samba no Carnaval.

É preciso vacinar nossas crianças o mais rápido possível. Ao contrário do que Bolsonaro diz e Queiroga se esforça para comprovar, vacina contra covid não é experimental. É testada, segura e eficaz. Salvem seus filhos, papais e mamães do Brasil!

*COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA

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