Para atrair PSDB, Cunha prega 'voto útil'

Com a entrada do Palácio do Planalto para fortalecer a candidatura de Arlindo Chinaglia (PT-SP) à presidência da Câmara, o líder do PMDB Eduardo Cunha (RJ) intensificou nos últimos dias a investida sobre os eleitores de Júlio Delgado (PSB-MG). A intenção é tentar evitar um segundo turno na eleição da Mesa Diretora da Casa. O alvo principal é o PSDB.

RICARDO DELLA COLETTA E MARCELO PORTELA, Estadão Conteúdo

24 de janeiro de 2015 | 08h05

Além dos tucanos, aliados de Cunha têm procurado também deputados do PSB, PPS e PV para defender um "voto útil contra o PT" já no 1º turno. Essas legendas apoiam Delgado, hoje visto como um "azarão" e com poucas chances de ameaçar os dois principais postulantes ao comando da Câmara.

A tendência é que a maior parte desses parlamentares migre para Cunha em um eventual 2º turno. Na análise dos tucanos, a expressiva maioria da bancada deve migrar para o peemedebista se a disputa passar da primeira fase.

Dentre os motivos apontados para o apoio estão a chance maior que Cunha tem de atender à oposição na condução dos trabalhos e a expectativa de enfrentamento com o PT e o governo que ele deve fazer. O PSDB não acredita no envolvimento do peemedebista na Operação Lava Jato. Em sua delação premiada, o doleiro Alberto Youssef citou o peemedebista como um dos beneficiários do esquema. Cunha nega.

Mas a avaliação de deputados consultados pelo Estado é de que articulação do governo nas últimas semanas, embora não tenha retirado o favoritismo de Cunha, conseguiu "encorpar" Chinaglia. Para um deputado do PSDB, o candidato do PMDB sentiu a ação do Planalto para desidratá-lo e por isso atua para tentar resolver a eleição no primeiro turno por saber que uma segunda rodada pode se transformar em "outra eleição".

Coerência

Com 54 deputados a partir de fevereiro, o PSDB resiste a antecipar o "voto útil" e trabalha para garantir uma unidade da bancada em torno de Delgado. Para os tucanos, apoiar um candidato genuinamente da oposição no primeiro turno é uma mensagem de coerência com o que foi defendido pelo presidenciável tucano Aécio Neves na campanha do ano passado.

Mas defecções em favor de Cunha são previstas no primeiro turno, tendo em vista que o voto é secreto. Na segunda-feira o peemedebista participa de um encontro com a bancada do PSDB de São Paulo.

Nesta semana, o Palácio do Planalto operou para ampliar os apoios a Chinaglia, o que, na avaliação de deputados, acabou por colocá-lo em uma situação mais favorável na disputa. O ministro das Cidades, Gilberto Kassab, costurou a adesão da bancada do PSD à plataforma do petista.

Tido como um dos principais cabos eleitorais de Chinaglia, ele comanda um orçamento de R$ 32,2 bilhões na pasta e prepara a refundação do Partido Liberal. O Planalto também escalou ministros para cobrar fidelidade de siglas que foram contempladas com ministérios no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff mas que têm demonstrado preferência pelo peemedebista, como PRB, PP e PTB.

O deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) disse ontem que "está claro" que a gravação com conversa telefônica no qual é citado de forma comprometedora "é uma montagem" que pode ser resultado de uma "briga de facções" da Polícia Federal, sem especificar quais seriam essas facções. O parlamentar encaminhou a gravação, que primeiramente atribuiu à "cúpula da PF", ao Ministério da Justiça pedindo a abertura de investigação porque disse ser vítima de "armação" em meio à disputa acirrada pela presidência da Câmara.

"Está claro, como eu sabia, que é uma montagem", disse Cunha ao receber título de cidadão honorário de Belo Horizonte, na Câmara da capital mineira. "Agora eles (PF) apurem onde aquela montagem ia aparecer, como ela surgiu e quem a fez. É importante esclarecer isso para a sociedade. Não dá mais para, em todo processo eleitoral, aparecerem coisas dessa natureza", acrescentou.

Cunha ressaltou que não acusou "quem quer que seja" de estar por trás do caso. "Relatei ao ministro da Justiça coisas que não falei publicamente, porque eu não queria expor nomes sem qualquer prova. Poderiam estar sendo vítimas de qualquer tipo de briga de facções. Não farei isso", disse ele, que terá nova audiência com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, na terça-feira. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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