Para analistas, tendência é agravamento da crise

Fala de ministro n TV não seria suficiente para acabar com o desgaste, dizem, pois transparência de atos públicos está acima de contratos particulares

Lucas de Abreu Maia / SÃO PAULO, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2011 | 16h03

A entrevista dada na sexta-feira, 3, pelo chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, ao Jornal Nacional da TV Globo, não bastará para dar fim à crise desencadeada pela revelação sobre a evolução do seu patrimônio, avaliam cientistas políticos. "Politicamente, ele é um fuzil queimado. A fritura do ministro agrada à oposição, ao PMDB e até mesmo a setores do PT", disse Ricardo Ismael, cientista político da PUC-Rio.

 

As novas denúncias divulgadas ontem pela revista Veja deverão tornar ainda mais insuficientes as justificativas apresentadas por Palocci. "Existe um episódio equívoco e que pode ser usado pela oposição justamente naquilo que tem de obscuro e pouco esclarecido", disse o professor Fábio Wanderley Reis, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), depois de assistir à entrevista do ministro.

 

Para Reis, "a tentativa de negar que há uma crise é precária, porque é patente que o governo está desorientado e que a presidente está sujeita a chantagens".

 

Como ele, Ricardo Ismael prevê um agravamento da crise política. "Na verdade, a articulação política do governo está completamente comprometida", diz Ismael. "A estratégia da entrevista do ministro consistiu em dizer: ‘Estou prestando contas ao procurador-geral da República e, portanto, se ele não abrir um inquérito, caso encerrado’. Mas está na cara que o assunto não está encerrado."

 

O sociólogo José Arlindo Soares avalia que o ministro "foi infeliz ao tentar separar o público do privado". "Naturalmente, os negócios de um homem público interessam à população – especialmente um homem público que tem o poder de influenciar em fundos de pensão, que tem informações privilegiadas sobre a taxa de juros", disse. A incapacidade de Palocci de se explicar satisfatoriamente "certamente irá repercutir no Congresso".

 

Incongruências

 

Ismael diz que "existe uma série de incongruências na entrevista". "Como ele não relacionou as empresas atendidas pela Projeto, não se pode fazer um cruzamento para verificar se elas fizeram alguma doação de campanha."

 

Há, no entanto, um ponto na entrevista a favor de Palocci, na avaliação de Wanderley Reis. "Há um certo sentido em que o ministro se saiu bem: ele respondeu às perguntas com aparente tranquilidade e existe o fato de que os órgãos de investigação supostamente têm acesso às informações necessárias."

 

Reis pondera ainda que "o argumento de Palocci de que a divulgação das empresas atendidas por ele seria usada politicamente, não faz sentido".

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