Para analistas, Dilma tenta capitalizar resistência à ditadura

Para analistas, Dilma tenta capitalizar resistência à ditadura

Declaração da pré-candidata petista sobre exílio mostra supervalorização da questão no País, dizem historiadores

André Mascarenhas, do estadao.com.br

12 de abril de 2010 | 19h03

Embora em posições diametralmente opostas no cenário que definirá o próximo presidente brasileiro, pode-se dizer que os dois principais pré-candidatos ao cargo - Dilma Rousseff, do PT, e José Serra, do PSDB - combateram um inimigo comum durante a ditadura militar (1964-1985). Para historiadores ouvidos pelo estadao.com.br nesta segunda-feira, 12, é natural que ambos utilizem a bagagem de militantes contrários ao regime para vender a imagem de comprometimento com a democracia. A questão, agora, será como cada um contará essa história ao eleitorado.

 

 

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No fim de semana, a ex-ministra da Casa Civil, famosa por ter militado na resistência armada, deu o tom dos caminhos que esse debate poderá tomar, ao comparar indiretamente sua trajetória durante o período a do ex-governador de São Paulo, que partiu para o exílio. Sem citar nomes, mas numa clara referência a Serra, Dilma disse que não "foge da situação quando ela fica difícil".

 

"A construção de autobiografias são muito perigosas em momentos como esse", avalia a historiadora da Universidade de São Paulo (USP) Maria Luiza Tucci Carneiro, que vê nas declarações de Dilma uma tentativa de usar seu "passado revolucionário" para se aproximar do eleitor. A tese é corroborada pela professora de história contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF) Denise Rollemberg. "Vivemos, desde os anos 1980, uma supervalorização da resistência à ditadura. Ter participado dela virou um capital simbólico muito positivo."

 

Coordenadora do Laboratório de Estudos da Memória Política Brasileira (Proin), Maria Luiza alerta, entretanto, que a tática não será usada unicamente pela petista. Na opinião da estudiosa, "ambos irão apelar para esse discurso", já que "ter sido perseguido ou torturado sensibiliza os militantes".

 

Assim como Maria Luiza, o professor da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) Marco Antonio Villa pede atenção para o fato de que os discursos políticos podem muitas vezes causar "confusão". "Ela (a ministra) fez uma afirmação equivocada", disse Villa. Para ele, a ex-ministra omitiu uma informação relevante: "o golpe civil-militar que derrubou João Goulart cassou várias pessoas, entre elas o presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes), que à época era José Serra."

 

Denise Rollemberg lembra ainda que a tentativa de marcar diferenças entre partir para o exílio ou aderir à guerrilha não implica, por si só, em um maior ou menor comprometimento com a luta contra a ditadura. "De forma alguma o exílio foi uma fuga. Uma série de experiências históricas provam o contrário. Na Rússia e na Alemanha o exílio funcionou como forma de reorganização política. Não dá para dizer que Lenin fugiu da luta", explica Denise, cujo doutorado foi uma tese sobre a experiência no exílio.

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