Para analistas, confronto foi só 'treino'

Cientistas políticos convidados pelo ‘Estado’ consideraram nível do primeiro debate fraco, em que ninguém saiu vencedor ou derrotado

Roldão Arruda, de O Estado de S. Paulo

06 de agosto de 2010 | 01h18

Na avaliação de três cientistas políticos convidados pelo Estado para acompanhar e analisar o debate, o nível foi fraco, em termos de propostas para vencer os desafios políticos e econômicos dos próximos anos. Eles também consideraram que não houve vencedor em termos definitivos. Para Carlos Melo, do Instituto Insper, a melhor forma de definir o encontro de ontem seria como um treino inicial.

 

"Serviu para esquentar os motores, desenferrujar os candidatos", disse Melo. "Dilma, que estava debutando, cometeu erros primários, especialmente no primeiro bloco. Mas não chegou a nenhum erro grave e comprometedor. Ninguém saiu vencedor ou derrotado."

 

Ainda segundo Melo, a petista vai precisar passar por demorados treinos, se quiser mostrar um desempenho melhor. "Ela ficou muito nervosa. Vai requerer muito media training."

 

Para Humberto Dantas, conselheiro do Movimento Voto Consciente, a expectativa de partidários do PSDB de que Dilma tropeçasse, permitindo a Serra mostrar uma possível superioridade, não se confirmou. "Ninguém teve uma larga vantagem", disse.

 

Gilberto Palma, do Instituto Ágora, observou que o modelo de debate da TV, cada vez mais engessado pelos marqueteiros dos candidatos, parece esgotado. "Ninguém empolga o eleitor. Os candidatos atuam rigorosamente dentro de scripts determinados pelos marqueteiros, permanecendo o tempo todo dentro dos temas que lhes são mais confortáveis, utilizando truques para tentar travar o outro."

 

Marina eclipsada. Os três chamaram a atenção para o desempenho do candidato do PSOL, Plínio de Arruda Sampaio. Ele teria eclipsado Marina Silva, do PV, que chegou ao debate com o intuito de se apresentar como candidata alternativa. "Experiente, sem nada a perder, ele agiu como um franco-atirador", disse Melo.

 

"O Plínio atuou muito com consciência do espetáculo televisivo e soube usar bem a impunidade da idade", comentou Dantas. "Mas quem prestou atenção no que ele dizia certamente não vai votar nele. Ele mora num apartamento de um milhão de reais e fala para a câmara se dirigindo a um camponês que, certamente, não está assistindo à TV naquele horário. Há uma enorme contradição em tudo que disse."

 

Os três observaram que Serra mostrou mais experiência que Dilma. Ele teria controlado melhor os temas, puxando a concorrente para o terreno em que se sentia mais confortável, como o debate sobre saúde. Em alguns momentos Dilma entrou no jogo dele, sem perceber. Na parte final, porém, ela já estava conseguindo reagir melhor.

 

"Um dos melhores exemplos disso ocorreu quando a Dilma fez a pergunta sobre a indústria naval", disse Melo. "Ele tratou brevemente do assunto e logo começou a falar de temas da saúde. Dilma tinha uma boa oportunidade de reagir, lembrando que na campanha de 2002, quando Lula falou em retomada da indústria naval, o então candidato Serra disse que não era uma iniciativa das mais recomendáveis, por causa dos custos da indústria naval brasileira. Em vez disso, porém, ela foi rebater a questão dos mutirões."

 

O fato de Serra ter se sentido mais à vontade que sua principal concorrente, porém, não significa que vá sempre manter vantagem. "Os erros de Dilma foram caracterizados sobretudo pela inexperiência. Isso não quer dizer que ela será jantada nos próximos encontros."

 

Do ponto de vista plástico e controle do tom do debate, Serra e Plínio tiveram as melhores performances.

 

O candidato tucano mostrou habilidade nos momentos em que Dilma tentou levar o debate para o confronto entre os governos de Lula e Fernando Henrique. "Ele agiu como quem está preocupado em olhar para o futuro, não para o passado", observou Dantas.

 

Ele também destacou a preocupação dos debatedores, especialmente Serra e Dilma, em não citar o nome de Lula.

 

Uma das escorregadas de Serra, na avaliação de Melo, foi ter se demorado demasiadamente na resposta sobre a questão do tamanho da propriedade rural. "Ele poderia ter usado aquele momento para falar mais de propostas de política agrícola."

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