Para analistas, candidatos não são 'produtos' em prateleiras

Especialistas ouvidos pelo 'estadao.com.br' acreditam que a função do marketing político é lapidar o candidato

Andréia Sadi e Gisele Silva, do estadao.com.br ,

07 de novembro de 2008 | 10h20

Campanha de marketing não faz milagre. Vender candidatos em uma eleição como "produtos" expostos em prateleiras de supermercado não é tarefa fácil e exige mais do leque de ofertas dos candidatos ao eleitorado do que da própria estratégia de campanha. Em entrevista ao estadao.com.br, especialistas e profissionais da área explicam que o marketing político tem a função de moldar o candidato mas não tira nem põe nada neles  - pelo contrário.   Veja também: Galeria : campanhas marcadas pelo marketing político Estética do 'bonitinho, mas ordinário' cede lugar a propostas  Geografia do voto   Eu prometo   Especial traz o mapa eleitoral com as vitórias em todas as capitais   Mapa traz desempenho de Marta e Kassab   Mapa traz desempenho de Gabeira e Paes    Recado das urnas é que eleitor votou na diversidade, diz cientista político da USP    "É alguém (o marqueteiro) que lapida, vai ressaltar o que tem de bom e esconder os pontos negativos", disse José Paulo Martins Junior, cientista político e professor da Fundação da Escola de Sociologia Política de São Paulo. Para exemplificar, ele cita um dos publicitários mais conhecidos do País, por ter realizado campanhas como a do presidente Luiz Inácio Lula a Silva. "Ele (Duda) conseguiu tornar mais palatável dois candidatos de mais difícil digestão: Paulo Maluf e o Lula. Não digo que ele construiu nenhum dos dois, mas ele conseguiu lapidar para melhorar".   José Paulo Martins Junior, acredita que não existe candidato que "decola" sem que ele tenha algo a mais para oferecer ao eleitorado. Segundo o analista, não é o marketing quem constrói o candidato - este já existe e só precisa de retoques.   Para o presidente da Associação Brasileira de Consultores Políticos, Carlos Manhaneli, marketing é sim uma atividade que mexe com "produto", mas quando o assunto é político, o especialista faz a ressalva de que o candidato é a parte mais interessada porque participa da sua "venda".   "O candidato não é um sabonete, nunca considerei um candidato meu um sabonete. O candidato fala e sabonete não fala. O sabonete você coloca na gôndola. Você está no comando de tudo. Mas com o candidato não. O candidato tem uma historia de vida que você não comanda".   "Não dá para dizer que o marketing construiu o candidato, mas sim uma imagem a partir daquele candidato. O (Gilberto, prefeito reeleito em São Paulo) Kassab (por exemplo) tinha algo a mostrar, apesar de desconhecido, e ficou a frente da adversária. O eleitor acaba indo para o lado 'menos pior', disse.   Sobre o mesmo tema, Emannuel Publio Dias, diretor de marketing da ESPM, explica que Kassab contou com a vantagem de ser um desconhecido, enquanto a sua adversária, a petista Marta Suplicy, já tinha "bagagem".     O marqueteiro que reelegeu o candidato Beto Richa (PSDB) e Curitiba já no primeiro turno, Nelson Biondi, afirma que a função do marketing político é fazer o candidato sair da campanha "maior que entrou". Eu vi nessa eleição candidato sair menor do que entrou. Ou que não ganhou e saiu maior - como o (Fernando) Gabeira", resumiu o publicitário, que também foi responsável por campanhas como as de Paulo Maluf, Celso Pitta e José Serra.   Marketing eleitoral x Marketing Político   Publio Dias explica que no Brasil há uma confusão quanto ao trabalho do marketing político e eleitoral. Segundo ele, se faz pouco marketing político nas eleições, que é visto como uma ação "permanente", como se o candidato cobrasse um feedback do eleitor que o concedeu o mandato.   "É por isso que de dois em dois anos tem de se fazer um verdadeiro 'varejo eleitoral'. O que se faz é marketing eleitoral, o político deveria ser feito pelos partidos. (Mas) Como os partidos são fracos, não se faz".   O diretor da ESPM desconhece políticos que mantém vínculo com o eleitor e cita o partido do presidente Lula no passado como exemplo da prática. "Não é feito por partido nenhum. O PT fazia e talvez até faça um pouco (atualmente). Mas político não conheço nenhum", finaliza.

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