ERNESTO RODRIGUES/ESTADÃO
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Papo ‘reto’

Diferentemente da expectativa de que usaria ao menos uma das falas para pregar a união do País e prometer governar para todos, o presidente Jair Bolsonaro preferiu se dirigir aos próprios eleitores e aliados

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

02 Janeiro 2019 | 03h00

Os dois discursos de Jair Bolsonaro na posse seguiram a mesma linha “papo reto”, como definiu o novo ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. Diferentemente da expectativa de que usaria ao menos uma das falas para pregar a união do País e prometer governar para todos, o presidente preferiu se dirigir aos próprios eleitores e aliados. 

Na Câmara, fez um discurso de forte tom ideológico, intercalado com um aceno para os congressistas ao anunciar que estava “casando” com eles, mas com as cláusulas do contrato nupcial previamente estipuladas: nada de negociação nas velhas bases partidárias, a agenda será aquela com a qual foi eleito e os deputados e senadores serão instados a endossá-la por meio da pressão popular.

Mais tarde, no parlatório, o tom “palanqueiro” foi ainda mais acentuado, com as menções historicamente equivocadas à superação do “socialismo”, como se o Brasil, sob Michel Temer, tivesse um governo sequer de esquerda. Soou apenas caricato. Da mesma forma que o grito de guerra de que a bandeira do Brasil nunca será vermelha, a não ser que seja a cor do sangue que poderá ser derramado para defendê-la.

Que ele governe segundo sua plataforma de campanha é desejável e sinal de maturidade política do Brasil. Que insista em uma retórica incendiária em nome de uma mobilização permanente é o contrário da necessidade de uma articulação política muito precisa para aprovar medidas duras, como a reforma da Previdência – que, não por acaso, só apareceu de forma tímida nos discursos para os convertidos.

PRIMEIRA-DAMA

Michelle acerta com discurso pró-inclusão

Michelle Bolsonaro foi a surpresa positiva da posse. A primeira-dama inovou e quebrou o protocolo ao discursar em libras em favor da inclusão de surdos. Fez uma fala que soou espontânea sobre um tema que desperta pouca mobilização da sociedade, suavizou as falas em determinados momentos belicosas de Jair Bolsonaro e mostrou uma faceta de engajamento pouco conhecida do público em geral. No aspecto estético, estava belíssima num vestido de cetim rosa de corte clássico ombro-a-ombro confeccionado por uma estilista pouco conhecida do Rio de Janeiro.

SÃO PAULO

Doria se projeta nacionalmente e anuncia guinada no PSDB

Os discursos de João Doria Jr. na posse foram muito claros no sentido de se apresentar como uma liderança nacional, e não apenas o governador do maior Estado do País. O tucano apresentou o próprio secretariado como uma “seleção”, se dirigiu aos “brasileiros de São Paulo”, destacou a importância econômica do Estado e demonstrou disposição de implementar a pauta liberal defendida nacionalmente por Jair Bolsonaro em ritmo mais “acelerado”, para usar seu jargão preferido. Doria reiterou apoio ao presidente, a cuja posse compareceu, mas monta para si uma vitrine própria para mais adiante se distanciar dele, se for conveniente. Em outra frente, deixou clara a disposição de dar uma guinada no PSDB e assumir seu comando. A ausência da velha guarda tucana na posse apenas acentuou a ruptura que ele mesmo fez questão de marcar, ao pontuar as diferenças de estilo entre ele e os “pais fundadores”, inclusive o ex-padrinho Geraldo Alckmin.

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