Papéis revelam ação anterior à Operação Condor

Documentos ligam desaparecimentos no Brasil e na Argentina antes da cooperação entre os países

Roberto Simon, O Estado de S. Paulo

08 Outubro 2013 | 22h08

A Comissão Nacional da Verdade localizou documentos secretos que ligam diretamente os desaparecimentos de três militantes de esquerda no Rio de Janeiro e dois em Buenos Aires, ambos ocorridos no fim de 1973. As informações reforçam a tese de que serviços de inteligência do Cone Sul já cooperavam na luta contra a "subversão" antes mesmo da Operação Condor, que teria início dois anos mais tarde.

Encontrados no Arquivo Nacional de Brasília, os papéis trazem novos detalhes sobre o sumiço do francês Jean Henri Raya Ribard, do argentino Antonio Pregoni e do brasileiro Caiupy Alves de Castro em Copacabana, em 23 de novembro de 1973. Os sequestros teriam ligação com a prisão, na capital argentina, do major exonerado e banido do Brasil Joaquim Pires Cerveira e do também brasileiro João Batista Rita, em dezembro daquele ano.

Os documentos foram localizados pelo grupo de trabalho da comissão que investiga a Operação Condor, sob a coordenação da advogada Rosa Cardoso. Na sexta-feira, a Comissão Nacional e a Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva, de São Paulo, farão uma audiência pública sobre os três desaparecidos no Rio em novembro de 1973. Falarão no evento o secretário executivo do Arquivo Nacional da Memória da Argentina, Carlos Lafforge, e a psicanalista Mabel Bernis Raya, viúva do francês Raya. Ela vive atualmente em Buenos Aires, onde foi localizada pela comissão nacional.

"Tenho enorme satisfação em dar uma voz aos desaparecidos, essa categoria de vítimas de nossas ditaduras que não estão nem mortas, nem vivas. É preciso mostrar que pessoas não ‘desaparecem’ - e meu marido daquela época não desapareceu", disse Mabel, em entrevista por telefone ao Estado.

No início de 1974, ela viajou ao Rio em busca de Raya e, depois de levantar as primeiras informações, foi "aconselhada" por seu advogado a deixar imediatamente o Brasil. "Tentei também recorrer ao consulado francês, mas sem resultados. Agora sinto que essa longa história terá um desfecho."

Ciex. A principal tese sobre os desaparecimentos é que Raya, vigiado pela inteligência brasileira, manteve contato com exilados na Argentina e, em seguida, com pessoas que viviam na clandestinidade no Rio. Um relatório interno do Centro de Informações do Exterior (Ciex), do Ministério das Relações Exteriores, localizado pela comissão, corrobora essa hipótese.

No documento, datado de março de 1974, o agente Alberto Conrado Avegno - codinome "Altair" - relata segredos obtidos por um informante não identificado. Segundo a fonte, a poeta argentina Alicia Eguren, militante peronista, era a ponte entre o major brasileiro Cerveira, exilado na Argentina após ter sido banido do Brasil, e o grupo integrado pelo francês Raya e pelo argentino Pregoni. Este último - também preso em Copacabana - era veterano do movimento armado dos tupamaros, do Uruguai.

Ainda com base no relato do informante, o documento do Ciex avisa que o francês viajara ao Brasil em novembro de 1973 para uma ação armada em parceria com o grupo do major do Exército. O alvo da suposta operação não é identificado. A fonte da inteligência brasileira iria ao Rio para investigar melhor o que havia acontecido com Raya - identificado erroneamente no relatório pelo nome de "Juan Rays".

Para o secretário executivo da Comissão Nacional da Verdade, André Saboia Martins, não há mais dúvidas de que os sequestros no Rio e em Buenos Aires, no fim de 1973, são parte de uma mesma história. "Além do relatório do Ciex, que cita explicitamente o nome dos envolvidos, há outras referências aos casos nos documentos encontrados pela comissão", afirma Sabóia.

Os três presos na zona sul do Rio haviam passado por Buenos Aires pouco antes. À época, a Argentina estava sob a presidência de Juan Domingo Perón, eleito após voltar do exílio, em 1973 - os militares tomariam "oficialmente" a Casa Rosada em 1976. Mesmo assim, setores dos serviços de segurança de ambos os lados da fronteira criaram canais de cooperação, mostram os documentos.

A partir de 1975, esse esforço conjunto seria institucionalizado em uma reunião no Chile sob o emblema da Operação Condor.

Mais conteúdo sobre:
CondorBrasilArgentina

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.