Papéis indicam sociedade entre Lyra e senador

Usineiro apresenta nota promissória e recibo que comprovariam existência de negócios em comum

Expedito Filho, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2005 | 00h00

Mesmo se não for condenado na sessão de hoje no Conselho de Ética do Senado, o presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), terá muita dificuldade para explicar uma nota promissória datada de 12 de novembro de 1985, no valor de CR$ 143 milhões - em dinheiro da época -, que foi dada como garantia de pagamentos que teriam sido feitos pelo usineiro João Lyra. Juntos, eles teriam adquirido um jornal diário e duas rádios em Alagoas. Renan é acusado de ter utilizado laranjas para ocultar sua participação na transação.A promissória, obtida pelo Estado, foi apresentada pelo usineiro como prova de que ele vem fazendo pagamentos a Renan desde 1985. Além desse documento, a reportagem teve acesso a um recibo de 4 de março de 2005, assinado por Ildefonso Antônio Tito Uchôa Lopes, um dos supostos laranjas do presidente do Senado, de quem é primo.O recibo seria relativo à primeira parcela de R$ 100 mil - de um total de R$ 500 mil - paga por João Lyra para aquisição da Rádio Paraíso, cuja concessão estava para vencer. Segundo o usineiro, depois de dissolvida a sociedade, "Renan exigiu para regularizar a licença da rádio a quantia de R$ 500 mil". Em depoimento, Lyra contou que o pagamento para Tito Uchôa foi uma determinação de Renan, que preferia manter-se no anonimato.A explicação para o fato de que o dinheiro teria sido pago a Uchôa, e não diretamente a Renan foi dada por João Lyra à Polícia Federal e à Corregedoria do Senado. Em depoimento na superintendência da PF em Alagoas, ele afirmou ainda que "Tito Uchôa sempre foi representante do senador Renan Calheiros nos negócios ocultos celebrados por este".OFÍCIOO Estado também teve acesso a um ofício timbrado, do gabinete da presidência do Senado, que está anexado ao processo na PF, comunicando a renovação da concessão da Rádio Paraíso para explorar serviços de radiodifusão em Maceió. De acordo com a versão de João Lyra, Renan é que lhe teria enviado o documento e ele serviria como indício da relação de sociedade "oculta" entre os dois. O empresário alagoano apresentou à PF e à Corregedoria do Senado uma pasta contendo cópias de cheques, notas promissórias, recibos e papelada oficial numerada de 1 a 16. Na documentação consta ainda a relação dos dias em que Renan pediu emprestados aviões da empresa Lug Táxi Aéreo, de propriedade de Lyra. Na versão do usineiro, isso seria mais um indício da amizade entre os dois.A documentação apresentada pode tornar muito mais difícil a defesa de Renan no Conselho de Ética, no processo em que é acusado de uso de laranjas para a compra do jornal e das rádios. Pelas provas e indícios de posse da Corregedoria do Senado e da PF, esse processo é considerado até mais grave - e "mais difícil de explicar", segundo um aliado de Renan - do que o que será julgado hoje, em que ele é acusado de ter despesas pessoais pagas pelo lobista Cláudio Gontijo, da empreiteira Mendes Júnior. O outro processo investiga a acusação de que teria ajudado a cervejaria Schincariol junto à Receita Federal e ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

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