Papa diz que século 20 foi marcado pelo "mistério da iniquidade"

O papa João Paulo II afirmou hoje, diante de uma multidão calculada em 2,5 milhões de fiéis no Parque Blonia, que o século 20 foi marcado pelo "mistério da iniquidade", porque muitas vezes o homem "vive como se Deus não existisse e se arroga o direito do Criador de interferir no mistério da vida humana". O homem, advertiu o papa, "quer decidir, por meio de manipulações genéticas, a vida do homem e determinar o limite da morte".A homilia de João Paulo II, que ele leu com voz pausada, em cansativos 35 minutos, foi uma condenação dos males que, segundo ele, representa perigos até agora inéditos numa época marcada por indiscutíveis conquistas e por novas perspectivas de desenvolvimento. "O homem quer fazer de Deus o grande ausente na cultura e na consciência dos povos", advertiu.João Paulo II voltou a falar sobre o tema central de sua viagem - a misericórdia divina, que, conforme insistiu, marcou a ação pastoral dos quatro religiosos que ele beatificou durante a celebração. A missa durou três horas, numa manhã de muito sol, com temperatura de 28 graus. Mais de 100 pessoas desmaiaram e foram carregadas de maca para os postos de socorro médico."Obrigado pela paciência", agradeceu o papa ao concluir a leitura. O povo aplaudiu e cantou, mais uma vez, o refrão de uma música entoada a meia voz com que Karol Wojtyla foi sempre recebido. "A Polônia te saúda, a Polônia te ama, a Polônia te agradece". O parque estava tão cheio que, duas horas e meia antes do início da cerimônia, um porta-voz da arquidiocese pediu pelo alto falante que ninguém fosse mais para lá.Falou-se inicialmente em 2 milhões de pessoas, mas depois as emissoras de televisão fecharam o número em 2,5 milhões, com base em estimativas da polícia. É mais de três vezes a população de Cracóvia, que tem cerca de 800 mil habitantes. Vieram peregrinos e turistas de todos os cantos da Polônia e de vários países da Europa.Faixas e cartazes identificavam delegações da Lituânia, Rússia, Ucrânia, Bielo-Rússia, República Checa, Eslováquia, Alemanha, Bélgica, Itália, além de pequenos grupos de outras partes do mundo. No fim da missa, o papa dirigiu mensagens especiais aos fiéis de 12 países, falando a cada um em sua língua. Havia também bandeiras do Brasil.João Paulo II chegou ao altar num carrinho especial - uma espécie de estrado com rodinhas - e permaneceu quase o tempo todo sentado. Arrastava as palavras, mas não precisou de ajuda para a leitura dos textos litúrgicos. Ao entoar um cântico, no entanto, antes da recitação do Pai Nosso, ele perdeu a voz por alguns segundos. O povo preencheu o vazio com aplausos.Houve momentos de muita emoção. Um deles foi quando o papa abraçou, na hora do ofertório, a mãe do padre Jerzy Popieluszko, capelão do sindicato Solidariedade que morreu assassinado, na década de 80, quando os trabalhadores lutavam contra o regime comunista. Há um movimento entre os católicos poloneses pela canonização do padre Jerzy.No fim da celebração, o entusiasmo ficou por conta dos jovens a quem João Paulo II sempre dirige uma mensagem especial. "Ficamos orgulhosos e felizes pelo fato de o papa dizer tanta coisa para a juventude, porque é sinal de que ele vê na gente o futuro do mundo e da Polônia", observou o estudante Mateuz Zabieronski. Ele e a namorada, Magda, ambos de 17 anos, são militantes do movimento Ancoradouro, dirigido pelos frades dominicanos."Até a próxima vez, só que isso está nas mãos de Deus", despediu-se o papa, depois de observar que a canção A Barca, entoada naquele instante, o acompanha há mais de 24 anos, desde que trocou a Polônia pelo Vaticano, em 1978. "Nós nos veremos de novo, Wadowice está esperando", gritou um grupo de rapazes e moças da cidade natal de Karol Wojtyla. Ele olhou os conterrâneos e comentou: "Esta é uma tentação para eu deixar Roma!"BeatificaçõesUm dos quatro religiosos que João Paulo II beatificou hoje, na missa do Parque Blonia, foi Sigismundo Felício Felinski, ex-arcebispo de Varsóvia, que passou 20 anos deportado na Sibéria por ter contestado a autoridade do governo imperial da Rússia no século 19. Ele nasceu em 1822 na cidade ucraniana de Wojutyn, que pertencia então à Polônia.O papa exaltou a coragem do arcebispo que, conforme disse na homilia, "em um difícil período marcado pela falta de liberdade abriu instituições educativas e obras de caridade, porque estava decidido a servir generosamente os pobres". Ressaltando que o novo beato lutou em defesa da liberdade de seu país, João Paulo II disse que os bispos da Polônia devem seguir o exemplo dele.Felinski foi o fundador da Congregação das Irmãs da Sagrada Família de Maria, instituição que se dedica a dar assistência a crianças em orfanatos e aos doentes em hospitais. A atual superiora-geral da congregação é Irmã Fabíola (Júlia Flávia) Ruszczyk, uma brasileira do Paraná que vive há seis anos na Polônia.Irmã Fabíola, que veio de Varsóvia para assistir à cerimônia de beatificação, comparou João Paulo II com o fundador de sua congregação. "O papa, um homem que sempre demonstrou muito amor pela Polônia e pelo povo polonês, insiste em seus discursos que todos devem amar a sua pátria". Foi por essa razão, acredita a freira que Karol Wojtyla voltou agora a Cracóvia, apesar de se encontrar tão debilitado.Os outros três religiosos que foram declarados beatos são o jesuíta Jan Beysym, que fundou uma obra para hansenianos em Madagascar, o padre Jan Balicki, professor de seminário, e irmã Sancja Szymkoiwiak, que prestou socorro e assistência a perseguidos políticos durante a ocupação nazista.FamiliaresO papa ficou apenas três minutos junto ao túmulo de seus parentes, na área militar do Cemitério de Rakowicki, onde estão sepultados seus pais, Karol Wojtyla e Emília, seu irmão Edmundo e mais cinco tios e primos. Ele nem desceu do papamóvel, ao chegar às 19h30, como fez em sete visitas anteriores.Ajoelhado dentro do veículo, João Paulo II rezou alguns instantes e depois acendeu três velas que um assessor depositou em cima da sepultura, coberta de flores. Um tapete que havia sido estendido no chão não chegou a ser usado. Um coral mal teve tempo para concluir sua participação, pois ainda estava cantando quando o papa foi embora.Uma hora antes, João Paulo II havia rezado as vésperas (horas do ofício divino) na Catedral de Wawel, junto ao castelo do mesmo nome, onde estão sepultados os antigos reis, quando Cracóvia era a capital do país. O papa rezou junto ao túmulo de Santo Estanislau, o padroeiro da Polônia, o santo de maior devoção dos poloneses.Tanto na catedral como no cemitério, a segurança de João Paulo II redobrou a atenção, depois que a polícia descobriu uma suspeita caixa de metal na Praça do Mercado, a dois quarteirões do Palácio Episcopal, onde o papa está hospedado. Sem informar se podia ser uma bomba, os policiais disseram apenas que a caixa seria destruída com uma explosão.Amanhã de manhã, o papa vai celebrar missa na Basílica de Nossa Senhora dos Anjos, na cidade de Kalwaria, em comemoração dos 400 anos de fundação do santuário. Administrado pelos frades franciscanos, que na Polônia são chamados de bernardinos, o santuário tem uma via-sacra num parque onde os fiéis rezam e meditam sobre a morte de Jesus Cristo.Na Semana Santa, os frades promovem a dramatização da Paixão, no estilo de Nova Jerusalém, em Pernambuco, com representações nas quais os atores se vestem como os personagens do Novo Testamento. João Paulo II foi muitas vezes a Kalwaria, quando era jovem e mesmo depois de padre, porque a cidade fica a apenas 13 quilômetros de Wadowice, onde ele nasceu.O helicóptero de João Paulo II vai sobrevoar Wadowice, amanhã à tarde, no trajeto para o aeroporto, de onde ele partirá às 17h30 para a Itália.

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