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Pão e água

Quem vê hoje um partido magro como o DEM não enxerga sombra da robustez do antecessor, o PFL de Antônio Carlos Magalhães, que mandava chover e fazer sol na República. Dominava o Congresso e cercanias.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2015 | 02h02

Dividia esse poder todo com o PMDB, que não tentou se reinventar como oposicionista. Assim, ao prosseguir na carreira de governista após a vitória dos petistas até então adversários, sobreviveu, cresceu, se fortaleceu, ficou do tamanho de um elefante e agora incomoda muita gente.

E essa "gente" que se sente importunada pelo partido que não disputa eleições presidenciais porque prefere distribuir sua força nos Estados e municípios, e dessa forma ficar vigoroso o suficiente para reivindicar a divisão do poder federal, acha que chegou a hora de o PMDB emagrecer.

A dieta começou pelo corte nas doses da ração que mantém vivo esse organismo. Nenhum dos ministérios reservados ao partido (que se desconte da lista Agricultura e Minas e Energia, nomeações pessoais da presidente) - Turismo, Pesca, Portos e Aviação Civil - serve para atender a interesses regionais de parlamentares.

São esses interesses que os fortalecem nas "bases" e permitem que se apresentem aos eleitores como representantes do governo, canais de recursos e benfeitorias em geral. Não só com isso, mas também com isso se elegem prefeitos, vereadores, deputados estaduais, federais, senadores e governadores.

Ora, se esses instrumentos são retirados - e aqui se incluem não apenas ministros, mas cargos de segundo e terceiro escalões - começa a faltar oxigênio para recarregar as baterias.

Mas as coisas não param por aí. Há no PT, no governo e em partidos aliados olhos voltados para a Operação Lava Jato com grandes esperanças de que na fase em que aparecerem os nomes dos políticos surjam expoentes do PMDB. Gente da cúpula, de modo a enfraquecer o partido a ponto de atingir o poder de mando dos pemedebistas no Congresso.

É bom que se diga, há ministros preocupados com essa torcida do contra. Acham arriscada a manobra e consideram que a presidente e seus conselheiros se acham os inventores da esperteza e não levam em conta a experiência do PMDB no ramo.

De todo modo, o governo toca em frente. Obviamente sem admitir que o faz. Em termos de apoio partidário conta, por exemplo, com a criação do PL para breve. Sob a inspiração do ministro das Cidades, Gilberto Kassab, a expectativa é a de que o partido esteja regularizado na Justiça Eleitoral em meados de abril.

Com quantos deputados? "De 20 a 80, ainda não sabemos", diz um aliado de Kassab. Ainda que sejam 20, somados aos 36 do PSD do ex-prefeito de São Paulo, seriam 56 contra 66 do PMDB.

Ilusão de ótica. Na visão dos mais otimistas do governo, a questão da presidência da Câmara dos Deputados terminará em acordo entre o PT e o PMDB, repetindo o sistema de "rodízio" de comando entre os dois partidos. Nesta versão, os pemedebistas teriam prioridade. O deputado Eduardo Cunha presidiria a Casa nos próximos dois anos.

Do ponto de vista do PMDB as coisas não são bem assim. Hoje não há a menor disposição para um acordo. E, se a cúpula fechar, a bancada não vai aderir. O que se diz entre os deputados é que será "um acerto para não entregar".

Já os mais realistas do governo pensam o seguinte: a presidência da Câmara, hoje, está perdida para Eduardo Cunha. Pode ser uma derrota acachapante se o PT insistir na disputa ou uma derrota "light" se decidir apoiá-lo.

Uma terceira hipótese, remota, de vitória é considerada: o governo entrar na briga com todas as armas. O problema aí é que se perder o tamanho do estrago é enorme.

Charlie Hebdo. Não há liberdade possível nem expressão cabível.

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