TV Estadão
TV Estadão

Panfletismo e palanque pautam relação de Bolsonaro com o Congresso, diz Romero Jucá

Em entrevista ao 'Estado', o ex-senador e presidente do MDB fala sobre os atritos de Jair Bolsonaro com o Congresso e o futuro do seu partido

Pedro Venceslau e Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2019 | 14h29

A relação do presidente Jair Bolsonaro com o Congresso ainda está pautada pelo clima eleitoral e pelo palanque. A avaliação é do ex-senador Romero Jucá, presidente nacional do MDB. "Essa relação está pautada pelo processo eleitoral, pelas redes sociais de ataque, pelo panfletismo da eleição e pelo palanque. É muito importante para o presidente, para o governo federal e para o Congresso, que isso possa ser colocado de lado", afirmou em entrevista ao Estado.

Nos últimos dias, o presidente o líder da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), voltaram a trocar insultos, ampliando a escalada de atritos iniciada na semana passada. Após afirmar que Bolsonaro está “brincando de presidir o Brasil”, Maia pediu um basta na troca de provocações. Para Jucá, é hora de ter humildade para mudar de rumos e corrigir ações. "Esse governo precisa ter duas coisas: humildade para reconhecer quando erra e rapidez para corrigir o erro. Se tiver essas duas coisas, vai aprumando". 

Derrotado na disputa para o Senado em Roraima em 2018 por apenas 426 votos, Jucá diz que foi "um acidente". Ele ficou de fora da Casa após três mandatos consecutivos. Na entrevista, o presidente do MDB fala também sobre a reformulação de seu partido, a prisão do ex-presidente Michel Temer e sobre a necessidade de o general Hamilton Mourão ser mais bem utilizado pelo governo.  

O MDB está planejando mudanças depois do resultado nas urnas. Como está essa agenda?

A eleição do ano passado foi um sinal de alerta vermelho para os partidos políticos, principalmente os mais tradicionais. Nós soubemos ler e tomamos a lição de casa. Estamos reestruturando, preparando a mudança do estatuto, uma mudança do Código de Ética e vamos discutir em todos os Estados e municípios a questão programática do partido, as bandeiras, as causas.

Vamos fazer em agosto um congresso para definir essa questão programática. E em 4 de setembro faremos uma convenção para aprovar tudo isso e também eleger a nova direção do partido para os próximos quatro anos.

O que deve mudar no Código de Ética do partido?

O Código será mais duro. Temos que levar em conta como o partido vai se comportar em situações que começaram a acontecer a partir de todo tipo de investigação, independente de ser justa ou não, é importante o partido se preservar e ter um mecanismo que possa colocar para os seus filiados, os seus admiradores, os próprios membros do partido, uma regra clara.

Como definiria a relação do governo Jair Bolsonaro com o Congresso?

Essa relação está pautada pelo processo eleitoral, pelas redes sociais de ataque, pelo panfletismo da eleição e pelo palanque. É muito importante para o presidente, para o governo federal e para o Congresso, que isso possa ser colocado de lado. Quem vai definir o futuro do Brasil é a política. Se política for bem-feita, o futuro será melhor. Se for mal feita, o futuro será pior. Tudo tem consequência.

Não estou defendendo distribuição de cargo, de verba. A questão é de respeito, de ouvir, de entendimento. Tem que ter compromisso programático com partidos, tem que ter agenda de partidos negociado com governo para funcionar determinados temas e determinados projetos. E isso a gente não vê. Espero que o governo e Congresso possam corrigir o rumo.

Há uma inabilidade por parte desse governo e do próprio presidente?

Acho que há inabilidade e erro de leitura. Governo tem que ler e corrigir rumos. Esse governo precisa ter duas coisas: humildade para reconhecer quando erra e rapidez para corrigir o erro. Se tiver essas duas coisas, vai aprumando. Porque tem muita gente inexperiente, é normal que o governo erre, não pode ser condenado porque tá errando, mas não pode persisitr no erro ou aprofundar o erro, o que é ainda pior.

Uma das pessoas que tem tentado corrigir os erros tem sido o general Hamilton Mourão, o vice-presidente. Como vê essa relação entre os dois?

Vejo o general Hamilton Mourão como aliado do governo e do País. Tem papel de vice-presidente, não é demitível, pode colocar suas questões, tem representatividade. Deveria ter um papel muito mais forte em toda essa condução ajudando o presidente, ajudando o governo, se relacionando. Esteve em SP, jantou com empresários, ouviu empresários. O governo tem que fazer isso. Não pode ficar hermético e não pode se fechar. O governo tem que se abrir para a realidade brasileira.

O ataque à velha política é uma muleta?

Isso foi um gancho de campanha. Deu certo na campanha. O resto não vai dar certo. Porque não tem velha política nem nova política. Existe a política. Existem pessoas que atuam de um jeito na política e outros que atuam de outro. Mas não é erradicando a política que vai construir alguma coisa no lugar. É muito importante que haja uma releitura do governo para saber em que bases políticas vai discutir e se entender com os partidos. 

Como avalia, com a distância do tempo, sua derrota para o Senado e de outros quadros do MDB?

Na verdade, essa eleição foi contra a política e contra os políticos. Os alvos maiores de ataques foram os mais conhecidos, que era o meu caso. Perdi a eleição por 426 votos. Um acidente. Já perdi eleição, ganhei eleição. Fui governador, três vezes senador. Você não deixa a política, você muda de trincheira na política.

Lideranças importantes do MDB nos últimos anos foram alvo de operações da Polícia Federal. Como avalia isso e que isso deve continuar?

A Lava Jato foi um momento importante para o Brasil. Mudou o paradigma da política. Defendo a Lava Jato. Agora, acho que as investigações têm que ser feitas cumprindo a lei. É importante que se investigue e que se investigue rápido. Porque quem é investigado, ou algum delator que é instado a falar sobre alguém, não está vendo o que o MP está dizendo. O Rodrigo Janot armou operações, delações contra determinadas pessoas. É muito importante que qualquer um possa ser investigado, que investigação seja rápida e cristalina.

O ex-presidente Michel Temer foi alvo de operação da PF, foi preso. Essa prisão foi criticada por juristas. Como avaliou essa ação? O senhor teme ser alvo?

Michel Temer não foi alvo de operação, foi alvo de uma violência, foi algo estapafúrdio o que se fez. Qualquer um pode instador a depor. Eu tenho cobrado da PF fazer depoimento nessas investigações. Eu sou o maior interessado em que as investigações corram rapidamente. Estarei sempre à disposição. Não há demérito em ser investigado, o demérito é ser condenado. Tenho tranquilidade, sei que não fiz nada de errado, vou continuar exercendo o meu papel e estando à disposiçao para prestar qualquer esclarecimento.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.