Palpites de Mangabeira têm aval do presidente

Ministro entrevistou integrantes de todos os ministérios

João Domingos, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

31 de janeiro de 2009 | 00h00

Os ministros que estiverem descontentes com as investidas de Mangabeira Unger (Assuntos Estratégicos) sobre o trabalho de suas pastas, ou que sentirem seu espaço invadido por programas comandados pelo professor da Universidade Harvard, terão pouco a fazer a não ser reclamar ao vento. A ordem para que Mangabeira encoste neles, peça informações e dê palpites é do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Foi comunicada numa reunião ministerial no ano passado.Lula acha que o método está dando certo, visto que tem agitado os ministros e seus ministérios, mesmo que à custa de crises internas. E elas têm aparecido constantemente. Na semana passada, Mangabeira sugeriu mudanças no Bolsa-Família, para abrir a janela de saída aos que aumentarem a renda. Já andou também pelas áreas de Relações Exteriores, Meio Ambiente, Reforma Agrária, Agricultura, Educação, Integração Nacional e Defesa. Tem a incumbência de fazer projetos estratégicos. Nessa missão, vai continuar a onda de agitações.Um dos principais motivos de brigas internas no governo é o Plano Amazônia Sustentável (PAS), que envolve interesses de meia dúzia de ministérios e está entregue a Mangabeira. A solução encontrada para a regularização das terras públicas da Amazônia Legal tem conturbado a Esplanada. Os ministérios do Meio Ambiente e de Desenvolvimento Agrário reagiram imediatamente à proposta de Mangabeira de criar uma agência executiva para tocar o programa.Mangabeira, em compensação, conseguiu tirar o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) do processo. Ficou decidido que, para facilitar a regularização fundiária, será enviado ao Congresso um projeto de lei que modificará outras nove leis agrárias, o que deverá possibilitar a situação dos posseiros na região.Logo que Mangabeira entrou no governo, suas participações andaram um tempo pela linha do folclórico. Por algumas razões: ele enfrenta resistências no PT; seu sotaque era por demais norte-americano; e Lula o convidou para atender a um pedido pessoal do vice José Alencar. Nem gabinete ele tinha.Mas, em poucos meses, o professor caiu nas graças do presidente. Suas longas argumentações, sempre com bases lógicas e calcaldas em correntes filosóficas, matemáticas e econômicas, encantaram Lula. Nesse contexto, Mangabeira ganhou um gabinete muito maior do que o da maioria dos colegas. E num lugar nobre, o oitavo andar do Comando do Exército. É a primeira vez depois de 1964 que um ministro civil ocupa a sala onde mandaram e desmandaram, entre outros, Orlando Geisel, Sylvio Frota, Walter Pires e Leonidas Pires Gonçalves. "Presidente, a Amazônia não é só a nossa grande fronteira da geografia; é a fronteira da nossa imaginação", disse o ministro a Lula, no ano passado. E discorreu sobre a forma como acha que a Amazônia deve ser desenvolvida, com o fim da ação predatória, mas com desenvolvimento sustentável. Lula o nomeou imediatamente coordenador do PAS. Com isso, veio a primeira crise.Já desgastada por causa da recusa em conceder licenças para as usinas do Rio Madeira, a então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, não suportou a perda do PAS para Mangabeira, de quem discordava frontalmente. Pediu demissão no dia 13 de maio.Com o aval de Lula, Mangabeira começou a percorrer todos os ministérios para saber o que eles vinham fazendo. Entrevistou um a um. Depois, passou para o segundo escalão. "Conheci o governo federal todo. E comecei a conversar com todos sobre quais as iniciativas nevrálgicas e estratégicas que surtiriam efeito imediato e encaixariam com a agenda existente do governo, mas que também tivessem o sentido de prenunciar, como desejado, a mudança do ideário do desenvolvimento com base na ampliação das oportunidades", relatou Mangabeira ao Estado.O ministro sabe que, por baixo do pano, falam mal dele. Mas não quis saber de nomes. "Os mal-entendidos, em alguns casos falsificações de minhas ideias, incomodariam qualquer um, mas são um elemento pequeno em comparação com a imensa generosidade e entusiasmo com que as ideias são recebidas", afirmou Mangabeira. Como exemplo de generosidade, Mangabeira cita a do próprio presidente Lula, que o convidou para seu ministério mesmo depois de ele ter escrito, em 2005, que o governo do PT era "o mais corrupto da história".

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.