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Palpite infeliz

A presidente Dilma Rousseff anuncia que não respeita delator. Se tudo o que ela tem a dizer sobre o esquema de corrupção ora em processo de desmanche se resume ao tal sentimento, aliado ao confuso raciocínio em que compara atos da ditadura a ações do regime democrático em defesa da legalidade, francamente, é de se concluir que a presidente não sabe o que diz.

Dora Kramer, O Estado de S. Paulo

01 de julho de 2015 | 05h00

Em primeiro lugar porque pouco interessa se ela respeita ou não a figura do delator. Importa, sim, que respeite as leis em vigor no País que governa. Notadamente uma lei sancionada por ela, que prevê o instituto da delação premiada ao qual aderiu Ricardo Pessoa, dono e ex-presidente da UTC, apontado como o “chefe do clube”das empreiteiras. 

Interessaria sobremaneira ao público em geral que a chefe da Nação manifestasse respeito pelo trabalho dos órgãos de investigação, pela Polícia Federal, pelo Ministério Público, pelo Poder Judiciário, cujos serviços prestados nessa Operação Lava Jato podem significar mudanças no funcionamento do Estado e nas relações políticas.

Dilma Rousseff, que na campanha eleitoral como candidata à reeleição tanta questão fez de atribuir a si e ao seu governo todas as ações de combate à corrupção, renega a Dilma Rousseff que na Presidência da República, em viagem oficial aos Estados Unidos, pede a palavra para desqualificar procedimentos das investigações. Foi citada? Defenda-se no conteúdo específico.

O alegado desrespeito ao delator não muda nada. Ou por outra: pressupõe que ela o respeitasse se tivesse ficado calado. Para usar o exemplo indevido da comparação aos torturados na ditadura, se “aguentasse firme”e não entregasse os companheiros. A declaração presidencial dá margem a semelhante interpretação, por menos que possa ter sido essa a intenção.

Na realidade, a ideia da presidente parece ter sido a de se fazer de vítima de um suposto processo arbitrário. Tanto que voltou a falar, referindo-se a falta de provas e a métodos medievais. 

Argumento fora do tempo. Entre outros óbvios motivos, porque a ditadura acabou faz 30 anos.

A fonte secou. Anotado na Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República: desde o momento em que a Operação Lava Jato pegou velocidade, reduziram-se a zero os pedidos relacionados à Petrobrás e à BR Distribuidora, anteriormente o Eldorado dos políticos nos quesitos cargos e favores.

De onde quem entende do riscado conclui que o espaço para os negócios na política tende a se reduzir também em outros setores. Confirmada a tendência, há esperança de que possa prosperar um estímulo a raciocínios mais responsáveis nessa tal maltratada seara. 

Na real. O governo vai tentar convencer o Tribunal de Contas da União de que nada há de ilegal nas “pedaladas fiscais”. Mas, como nem o governo está convencido disso, no Planalto vigora a convicção de que o TCU condenará e que a única salvação seria o Congresso não julgar as contas.

Na avaliação interna feita de maneira bem realista, se houvesse julgamento hoje o resultado seria a derrota. Em clima de comemoração.

Calem-se. Com problemas demais para administrar, o governo orientou suas lideranças no Congresso – mais especificamente no Senado – a não indicar integrantes da CPI da CBF, criada há um mês por iniciativa do senador Romário para, entre outras coisas, investigar contratos da Copa do Mundo de 2014.

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