Dida Sampaio/AE
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Palocci se cala sobre renda, omite os clientes e nega tráfico de influência

Acuado após 20 dias de crise, ministro da Casa Civil concede primeira explicação pública em entrevista ao ‘Jornal Nacional’, mas evita divulgar valores

João Domingos, de O Estado de S. Paulo

03 de junho de 2011 | 23h05

BRASÍLIA - Sem revelar nomes de clientes e detalhar os valores recebidos como consultor, o ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, admitiu nesta sexta-feira, 3, em entrevista ao Jornal Nacional, da TV Globo, que teve um grande faturamento nos últimos meses de 2010, quando já montava a equipe da presidente eleita, mas negou que tenha cometido tráfico de influência. "Minha empresa jamais atuou junto a órgãos públicos, ou diretamente prestando consultoria para órgãos públicos, ou representando empresas privadas nos órgãos públicos. Quando a empresa privada tinha negócios com o setor público, nunca prestei consultoria", disse, rompendo o silêncio após 20 dias de crise gerada a partir de suspeitas sobre sua evolução patrimonial.

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O ministro informou que trabalhou para "20 ou 25 empresas" e enumerou os setores de algumas delas: "Trabalhei no setor de serviços financeiros, indústria, mercado de capitais, bancos e empresas, fundos de mercado de capitais. Fundos trabalham principalmente com investimentos em outras empresas privadas, e trabalhei em empresas de serviços em geral".

 

Segundo Palocci, alguns clientes o contrataram para obter análises sobre o comportamento do câmbio. "Não me considero rico, mas bem remunerado pelos serviços que prestei", disse. Em novembro passado o ministro comprou um apartamento de 500 metros quadrados em São Paulo avaliado em R$ 6,6 milhões. No ano anterior, adquiriu um escritório por R$ 882 mil.

 

Palocci, que foi forçado pela presidente Dilma Rousseff a se explicar diante do prolongamento da crise, insistiu em dizer que não ocultou dados: "Se tratava de uma empresa privada, que prestava atividades privadas, que foi registrada em meu nome e de meu sócio na Junta Comercial de São Paulo. Portanto eu não tive uma atividade reservada, tive uma atividade pública". Sobre os clientes, disse que não vai expor "contratos com empresas privadas num ambiente de conflito político".

 

Quanto aos números relativos à empresa, disse que gostaria de mantê-los reservados. O ministro foi indagado sobre o faturamento de R$ 10 milhões, que teria sido obtido somente nos meses de novembro e dezembro de 2010. De novo, não confirmou valores. Questionado se antes de 2010 os ganhos de sua empresa tinham sido de 30%, 10%,Palocci respondeu: "Algo nesse sentido", disse, sem precisar. Ele afirmou ainda que os lucros de sua empresa correspondem aos de outras de consultorias que atuam no mercado.

 

Palocci em alguns momentos pareceu nervoso. Mexia-se de um lado para o outro, embora estivesse sentado, de costas para a parede de vidro de seu gabinete, no quarto andar do Planalto.

 

Eleição. O ministro negou com veemência qualquer correlação entre os rendimentos de sua empresa e doações de campanha. Ele foi o coordenador da campanha de Dilma Rousseff em 2010. "Não existe nenhum centavo que se refira a política ou campanha eleitoral, nenhum centavo."

 

Apesar da visível crise política que a revelação a respeito do crescimento de seu patrimônio provocou, insistiu em afirmar que não há crise no País, não há crise no governo. O que há, disse, é uma questão dirigida à sua pessoa. "O governo está tocando sua vida. Enfrento uma questão agora. Vou fazê-lo pessoalmente, trazer para a minha responsabilidade, informando os órgãos de controle e dialogando francamente sobre isso."

 

Disse que não conversou com Dilma sobre as suspeitas que pesam sobre ele e que seu cargo, como o de outros ministros, a ela pertence: "Não chegamos a conversar sobre esse assunto, mas não é isso que me prende ao governo. Estou aqui para colaborar com a presidente."

 

Palocci procurou seguidamente dizer que encerrou as atividades de sua empresa no fim de 2010, porque era incompatível mantê-la sendo nomeado ministro da Casa Civil. Disse que a Receita Federal não encontrou nenhum indício de irregularidade a respeito de sua empresa.

 

A crise envolvendo Palocci começou no dia 15 de maio quando o jornal Folha de S. Paulo revelou que o patrimônio do ministro aumentou 20 vezes em quatro anos. Questionado sobre o patrimônio milionário, ele alegou que o dinheiro era oriundo de consultorias realizadas entre no período em que foi deputado, entre 2007 e 2010. A empresa teria faturado pelo menos R$ 20 milhões em 2010, sendo metade entre novembro e dezembro.

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