Dida Sampaio/AE
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Palocci atendeu banco parceiro da União

Santander contratou a Projeto Consultoria, do ministro da Casa Civil, quando ele era deputado, para fazer 'palestras a grupos de executivos'

Leandro Cólon, de O Estado de S. Paulo

26 de maio de 2011 | 01h00

BRASÍLIA - O ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci, prestou serviços para o Banco Santander no período em que era deputado federal. O contrato foi feito por meio da sua empresa Projeto Consultoria Econômica e Financeira para "análises econômicas e financeiras" a executivos do banco. A informação foi confirmada nesta quarta-feira, 25, ao Estado pelo próprio Santander. É a primeira instituição bancária a revelar publicamente a contratação de Palocci, que foi ministro da Fazenda no primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

 

Em nota enviada à reportagem, a assessoria do Santander informa que contratou Palocci para dar palestras sobre economia aos seus executivos. "O Santander Brasil informa que contrata eventualmente palestrantes para apresentar análises econômicas e financeiras, nacionais e internacionais, aos seus funcionários. Dentro deste contexto, o sr. Antonio Palocci, por meio da empresa Projeto, fez palestras para grupos de executivos da organização."

 

O banco argumenta ainda que não pode revelar mais detalhes - como datas e valores dos contratos - por questões de cláusula de confidencialidade.

 

O Grupo Santander é o quarto maior banco do mundo em lucros e o oitavo em capitalização de mercado. Em junho de 2010, o banco no Brasil registrou ativos totais de R$ 347 bilhões. A instituição é o terceiro maior banco privado do País.

 

Parceria. O Santander é parceiro do governo federal. Em agosto de 2010, o banco comprou seis jatos da Embraer via o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), vinculado ao governo, para alugar à empresa aérea Azul numa operação inédita de financiamento. O negócio, avaliado em US$ 250 milhões, é conhecido como "spanish leasing", no qual o Santander comprou as aeronaves com 80% de financiamento do BNDES. O banco ainda é um dos parceiros da Petrobrás num programa para facilitar a oferta de crédito aos fornecedores.

 

Fontes do mercado confirmaram ao Estado que a Projeto Consultoria Econômica e Financeira prestou serviços ao banco entre 2008 e 2010. O ano de 2008 ficou marcado por uma grave crise econômica mundial, quando o governo Lula adotou medidas para contê-la no Brasil.

 

Em janeiro de 2009, Lula recebeu no Palácio do Planalto o presidente mundial do Grupo Santander, Emilio Botín. Naquele encontro, os dois discutiram os efeitos da crise e o banco anunciou investimentos de R$ 2,5 bilhões no País. Hoje, o Santander tem cerca de 23 milhões de clientes no Brasil.

 

Outros clientes. Além do Santander, outras duas empresas já admitiram publicamente terem sido clientes do ministro da Casa Civil no período em que Palocci foi deputado federal: a construtora WTorre, que tem negócios com o governo, e a operadora de plano de saúde Amil.

 

Na sexta-feira, o Estado revelou que Palocci prestou serviços para pelo menos 20 empresas, incluindo bancos, indústrias e montadoras.

 

Desde a revelação de que seu patrimônio cresceu pelo menos 20 vezes em quatro anos, Palocci tem se negado a revelar a relação de clientes. Diz que cláusulas de confidencialidade o impedem de contar para quem trabalhou. A empresa de Palocci teve faturamento recorde entre os meses de novembro e dezembro de 2010, ano eleitoral. O ministro foi coordenador da campanha de Dilma Rousseff. No ano passado, o Santander doou R$ 1 milhão para a campanha de Dilma, R$ 1 milhão para o rival da petista, José Serra (PSDB), e R$ 800 mil para o PMDB.

 

A empresa Projeto foi aberta em 2006 e, até dezembro de 2010, funcionou como uma empresa de consultoria. Foi quando Palocci alterou a razão social para Projeto Administração de Imóveis, cujo objetivo seria cuidar do apartamento de R$ 6,6 milhões e o escritório de R$ 882 mil comprados entre 2009 e 2010.

 

Procurado pelo Estado, o ministro, por intermédio de sua assessoria de imprensa, disse que não comentaria sobre os serviços prestados ao Santander.

 

No período em que Palocci foi deputado, o então presidente do Santander, Fábio Barbosa, presidiu a Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

 

Amizade antiga. O relacionamento entre Palocci e o banco Santander é antigo.

 

Em 2001, pouco depois da compra do Banespa, o banco espanhol enfrentou uma rebelião de prefeitos petistas, a maioria da região de Ribeirão Preto.

 

Contrários à privatização, os prefeitos queriam tirar as folhas de pagamento dos municípios do Banespa e transferi-las para outras instituições financeiras.

 

A pedido do Santander, Palocci interveio e convenceu os colegas a mudar de ideia. Depois disso, Antonio Palocci transformou-se num interlocutor frequente do Santander. / COLABOROU DAVID FRIEDLANDER

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