Nilton Fukuda| Estadão
Nilton Fukuda| Estadão

Palácio do Planalto já planeja ‘refundar’ governo

Apesar do cenário imprevisível, plano articulado por Lula para o ‘pós-impeachment’ inclui nova política econômica e reforma ministerial

Vera Rosa / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2016 | 05h00

A uma semana da votação do impeachment na Câmara, a presidente Dilma Rousseff e seu padrinho político, Luiz Inácio Lula da Silva, já fazem planos para “refundar” o governo com outros ministros, nova política econômica e uma agenda que amplie a oferta de crédito no País. Embora o desfecho da crise seja imprevisível, o Palácio do Planalto acelera as negociações de última hora e ainda acredita ter votos, no plenário da Câmara, para impedir o afastamento de Dilma e “começar de novo”.

É de autoria de Lula, mesmo com a nomeação suspensa na Casa Civil, o plano de “sobrevivência” da presidente. Na lista das medidas em estudo para reerguer o governo sitiado constam o anúncio de mais um reajuste para o programa Bolsa Família – ainda sem porcentual definido –, a expansão da oferta de crédito, maior tributação para o “andar de cima” e novos investimentos na construção civil, setor com potencial de elevar rapidamente o nível de emprego.

A meta é promover o crescimento, resgatar a confiança dos mais pobres, neste ano de eleições municipais, e garantir a governabilidade. “Não é o mercado que vai votar na gente. É o andar de baixo”, disse Lula a Dilma e a ministros, em recente conversa, no Alvorada.

Na prática, a ideia do ex-presidente é reunir forças políticas em torno de diretrizes para um “novo governo” – que contemplaria propostas de todos os aliados com assento no Congresso – e ampliar a reforma ministerial, após a votação do processo de impeachment.

Um grupo de parlamentares do PT pediu a Lula, na semana passada, que não escale o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles para o lugar do ministro da Fazenda, Nelson Barbosa. Não que eles defendam Barbosa, mas a maioria diz que Meirelles poderia arrochar ainda mais a economia. “Meirelles não quer ser ministro. Há muitos bons economistas neste país”, encerrou Lula.

O ex-presidente avalia, porém, que as mudanças no primeiro escalão não podem se resumir à redistribuição do espólio do PMDB. O partido comandado pelo vice Michel Temer rompeu com Dilma, mas, até agora, apenas um de seus sete ministros – Henrique Alves (Turismo) – entregou o cargo.

O novo modelo de coalizão esboçado pelo Planalto abriga um “centrão” repaginado, formado por PP, PR, PSD e PRB – partidos que se juntariam a PT, PC do B, PDT, PROS e a outras legendas menores. O governo espera recuperar musculatura política com o fim do impeachment e atrair “nomes de peso” para a equipe, embora o ambiente, hoje, seja de incerteza.

‘Sobrenatural de Almeida’. No Planalto, o comentário é que só o “Sobrenatural de Almeida” pode provocar uma reviravolta e derrotar Dilma. A referência é ao personagem do escritor Nelson Rodrigues, que fazia com que um time perdesse, quando tinha tudo para ganhar.

O receio da presidente é de que novos vazamentos de delações premiadas da Operação Lava Jato façam o papel do “Sobrenatural” no epílogo. Neste caso, porém, o governo tem um “plano B”, que é o esvaziamento da sessão convocada para votar o impeachment no plenário da Câmara, já que a batalha na Comissão Especial é dada como praticamente perdida.

Para o afastamento de Dilma ser aprovado é necessário o apoio de 342 dos 513 deputados. Faltas contam a favor do governo. Caso seja aceito, o processo segue para análise do Senado. Apesar de ser este o foco do Planalto no momento, o “day after” da votação vem sendo preparado por Lula, mesmo com o agravamento da crise política.

O cenário traçado pelo Planalto também prevê que Lula assuma a Casa Civil, embora um novo parecer do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, peça ao Supremo Tribunal Federal a anulação de sua posse. Para Janot, Dilma deu o cargo ao antecessor para ajudá-lo a fugir da alçada do juiz Sérgio Moro nas investigações da Lava Jato.

O julgamento do caso no Supremo está marcado para o próximo dia 20, três dias após a votação do impeachment. Se Dilma escapar da deposição na Câmara e o ex-presidente não conseguir virar ministro, ela pretende levá-lo para uma “assessoria especial” do Planalto.

“Teremos dias muito difíceis pela frente, qualquer que seja o resultado dessa guerra”, disse o senador Aécio Neves (MG), presidente do PSDB. “O País está imobilizado, com um governo que vive os seus estertores.”

A plataforma alinhavada por Lula também joga os holofotes sobre a proposta de reforma política, que em sua gestão nunca saiu do papel. “A nossa preocupação não pode ser apenas numérica, para derrotar o impeachment”, disse o deputado Paulo Teixeira (PT-SP), um dos vice-líderes do Executivo. “O governo deve atualizar o seu programa, convocando todas as forças para montar uma agenda e, se necessário, estabelecer pontos de diálogo com a oposição.”

O plano se contrapõe, porém, ao programa econômico “Uma Ponte para o Futuro”, divulgado pelo PMDB de Michel Temer no ano passado. O documento provocou polêmica no PT ao pregar o fim das indexações de qualquer benefício ao salário mínimo e também dos gastos mínimos constitucionais em saúde e educação.

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