''País não tem regras estáveis. É péssimo''

A cada governo, afirma Cristian Klein, normas da reeleição são alteradas de acordo com as relações de poder

Entrevista com

Clarissa Oliveira, O Estadao de S.Paulo

18 de dezembro de 2008 | 00h00

A chegada ao Congresso de uma nova proposta que altera as regras da reeleição é mais um exemplo do "casuísmo" da classe política brasileira. A avaliação é do cientista político Cristian Klein, ligado ao Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro e autor do livro O Desafio da Reforma Política. Diante do fato de o Brasil - de Collor a Lula - nunca ter escolhido mais de um presidente sem que regras eleitorais fossem alteradas, ele diz que o País carrega o "legado de tentativas de golpe", em que forças políticas alteram as regras para permanecer no poder. Ouça a íntegra da entrevistaDesde a redemocratização, há a cada mandato uma nova mudança de regras. Não é ruim para o País? O problema da reeleição é fácil de diagnosticar com uma palavra, que virou até chavão: casuísmo. A cada governo, regras são alteradas de acordo com relações de poder. É péssimo. O País não tem regras confiáveis e estáveis. Na história americana, por exemplo, é impressionante a regularidade, desde o primeiro presidente.Em comparação a outros países, a instabilidade é grande demais? Se pegarmos o período da redemocratização para cá, sim. Esta questão das regras do jogo precisa ser resolvida. Parece que o País ainda traz um legado de instabilidade, de tentativas de golpe. O que era feito fora do mundo institucional parece ter sido levado para dentro do mundo institucional. É a relação de forças do momento tentando mudar as regras para permanecer mais tempo no poder. E democraticamente. Esta é a ironia. Como o sr. vê o fato de reforma política servir de base para essa manobra? A reforma política é sempre usada para esses subterfúgios, essas interrupções. A verdadeira reforma política é outro assunto. Ela lida muito mais com uma engenharia institucional, uma engrenagem bem complexa. Há interesse de governo e oposição em mudar a reeleição.É o casuísmo da classe política como um todo. Mas quem acha que está ganhando agora, depois pode perder. É um jogo perigoso. O que deveria ser discutido na reforma política?Não sou um grande defensor da reforma ampla. O Brasil tem instituições boas. O problema é mais de cultura e menos de regras. Aquela coisa da Lei de Gerson, sempre querendo levar vantagem. Precisamos é de vergonha na cara.

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