País descobre salas antigrampo

Para evitar polícia ou arapongas, políticos, advogados e lobistas mandam construir espaços à prova de intrusos

Vannildo Mendes, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

19 Janeiro 2008 | 00h00

A paranóia que tomou conta do País com a banalização do grampo, da espionagem eletrônica e da multiplicação das formas de invasão da vida privada está aumentando o uso de salas blindadas por pessoas e empresas que precisam de sigilo nas atividades. Entre os principais usuários, estão empresários, políticos, lobistas, doleiros e profissionais liberais em geral. É cada vez maior o número de advogados que recorrem a esse serviço, em razão da freqüente violação das conversas com clientes nas operações policiais. Os escritórios de advocacia - que têm por obrigação legal e por direito o dever de manter o sigilo da relação advogado-cliente - foram alvos de várias operações policiais no ano passado.As estatísticas são imprecisas, mas os especialistas da área estimam que em 2007 foram construídas entre 90 e 100 salas blindadas em Brasília e São Paulo, os principais mercados desse tipo de serviço. É um número 30% maior que o do ano anterior e o triplo da média histórica de 30 encomendas por ano, antes de eclodir no Brasil, no início da década, a chamada farra do grampo ou "era big brother", que tornou as pessoas cada vez mais expostas. A bisbilhotagem parte tanto da polícia em busca de provas criminais como de arapongas, detetives particulares ou espiões a serviço dos mais diversos tipos de interesse. O medo se expandiu com a proliferação de câmeras nas ruas e locais públicos, o avanço das tecnologias invasivas e o emprego generalizado de escutas ambientais e grampos telefônicos nas investigações tanto da Polícia Federal como das polícias estaduais."Agora você pode escolher entre entrar nu na piscina com seu cliente ou pagar pelo uso de uma sala blindada, totalmente imune a grampo telefônico ou ambiental", diz Jorge Maia, diretor de tecnologia da B2T - Business Technology, pioneira na oferta desse tipo de ambiente em Brasília: "A paranóia existe, mas para todo veneno há um antídoto", completou.BLINDAGEM ACÚSTICAChamado tecnicamente de "sala segura", esse tipo de ambiente é totalmente blindado contra grampo telefônico, escuta ambiental e outras formas de violações de conversas. É em geral uma sala quadrada, sem janelas e com entrada única, num espaço central da empresa ou escritório. A exemplo da casa do Big Brother Brasil, o reality show da TV Globo, a entrada tem porta dupla, com revestimento acústico entre as duas.Especialistas ouvidos pelo Estado garantem que não vaza nenhum ruído nada pela porta, por mais potente que seja a aparelhagem de gravação. Também não adianta pôr o ouvido nas paredes, porque têm revestimento acústico interno. A sala não tem quadros, adereços de nenhum tipo, computador, ramal telefônico ou equipamento que possa esconder qualquer tipo de microcâmera ou escuta ambiental. Quando inevitável, conterá apenas um carrinho singelo para café e água.O interior, incluindo piso, teto e paredes, é revestido de metal, de preferência alumínio, criando a chamada gaiola de Fahrrad, sistema que evita a saída de qualquer tipo de sinais elétricos. A mesa de reunião tem de ter tampo de vidro transparente, para permitir a visibilidade total. As paredes precisam ser na cor clara. Se houver algo embutido para violar as conversas, aparecerá o ponto preto onde o equipamento foi colocado. "Cada detalhe tem um sentido", acrescenta Maia.A sala deve ser dotada de um equipamento gerador de ruído brando. Mesmo que alguém consiga gravar a conversa, não conseguirá filtrar o som. Embora o conteúdo da conversa possa ser recuperado, o equipamento mascara a voz e impede a identificação dos personagens. Entre os equipamentos oferecidos no kit, um serve para embaralhar o som de microfone e outro é um bloqueador de celular de três bandas.É aconselhável ainda uma máquina de fragmentação de papéis. "Lixo é fonte e, se for produzido, tem de ser imediatamente eliminado", justifica o especialista. Ultimamente, foi adicionado ao kit um equipamento que bloqueia o uso de gravadores, mesmo os digitais. Apesar de todas essas medidas, ele aconselha a fazer uma varredura eletrônica no ambiente antes de participar de uma reunião.ASSALTOPrivacidade em tempos de bisbilhotagem, porém, não é artigo barato. Com tantos equipamentos e cuidados, uma sala segura padrão, de 30 a 40 metros quadrados, custa entre R$ 200 mil e R$ 250 mil. Uma pechincha perto dos bunkers - também chamados de "quartos do pânico" - de US$ 1 milhão, em média, que alguns magnatas paranóicos estão construindo no subsolo de suas casas, com o objetivo de se preservarem contra seqüestros e assaltos.Só em São Paulo foram construídas mais de 100 salas seguras nos últimos anos. "Quem vai falar nesse tipo de espaço tem assuntos mais importantes do que esse valor, são pessoas que mexem com fatos relevantes, situações decisórias, temas sensíveis e, assim, o investimento é proporcional ao fato a ser protegido", disse Tiago Schettini Batista, especialista em tecnologia e segurança da informação.No setor financeiro, o que inclui casas de câmbio, legais e ilegais, , esse serviço já é usado há muito tempo, mas a procura se expande sobretudo junto a empresários, políticos e advogados. No Senado, os ex-presidentes da Casa Jader Barbalho (PA) e Renan Calheiros (AL) inauguraram a moda dos gabinetes à prova de escuta. Blindaram com espuma especial as salas onde realizavam encontros e faziam acordos sigilosos.

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