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Paes peita governo, mas mantém pontes para eleição de 2018

Prefeito do Rio, que foi à Justiça contra a União para pagar menos dívida, pretende ser candidato a governador com ampla aliança

Luciana Nunes Leal, O Estado de S.Paulo

05 Abril 2015 | 02h02

Rio - Cercado de crianças na inauguração de escola municipal em Cosmos, bairro pobre da zona oeste carioca, na manhã de terça-feira, o prefeito Eduardo Paes (PMDB) não deixa dúvidas: está em campanha. "Tem uma hipocrisia no Brasil, parece que é proibido fazer política. Tem que botar a cara a tapa para saber quem é quem", discursa, sob aplausos. Paes não pode ser reeleito pois está no segundo mandato. Quer agora fazer do secretário de Coordenação de Governo, Pedro Paulo, seu sucessor e disputar, em 2018, o governo do Estado.

O prefeito faz uma defesa veemente da candidatura própria do PMDB à Presidência da República - algo bastante comum entre os correligionários quando a eleição está distante. Ele próprio tem seu nome relacionado na lista de presidenciáveis, algo que, no momento, descarta.

Nas últimas semanas, Paes contribuiu para aumentar a tensão entre o partido e o governo ao obter na Justiça a possibilidade de pagar sua dívida com a União a partir de um novo indexador, que na prática reduz as parcelas devidas. No episódio, o prefeito exercitou o estilo explosivo e, após discutir com o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, conduziu as negociações com o titular da Justiça, José Eduardo Cardozo. Ao final, fechou acordo no qual se comprometeu a pagar as parcelas cheias da dívida até 2016, quando o governo se compromete a mudar o indexador das dívidas de Estados e municípios.

Obras. Aos 45 anos, 22 deles na política, o carioca da zona sul está à frente de grandes obras urbanísticas que preparam a cidade para os Jogos Olímpicos. Evita reclamar, mas tem pago contrapartidas federais em obras no Estado, já que as verbas federais demoram a ser liberadas, em especial neste momento em que a presidente Dilma Rousseff tenta aprovar o ajuste fiscal com novas regras trabalhistas e corte de gastos.

Paes calcula que adiantou R$ 130 milhões em obras diretamente ligadas à Olimpíada - a União investirá R$ 1,2 bilhão - e mais R$ 200 milhões na construção do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) no centro, onde o governo federal promete investir R$ 500 milhões. "Levy ganhou um banco, o Banco Eduardo Paes", diz ele, acentuando outra característica, a ironia.

Na quinta-feira passada, o prefeito fez mais uma demonstração do estilo "bateu, levou" e acusou a empreiteira Queiroz Galvão de "farsa" ao atribuir à falta de repasses federais a demissão de operários do Complexo Esportivo Deodoro, na zona oeste, onde serão disputadas 11 modalidades olímpicas.

Paes programou entrevista no Palácio Rio 450, uma das sedes da prefeitura, inaugurado no aniversário da cidade, em 1.º de março. Mudou de ideia. "Vamos fazer a coletiva lá em Deodoro, vou visitar as obras, juntar os operários", decidiu de rompante. Telefonou e acertou a visita para as 14 horas.

Em intensa agenda de inaugurações, Paes sempre mantém o estilo informal do carioca. "Minha amante", gritou, e abraçou a líder comunitária Luzete Maria Aparecida Ribeiro Carneiro, a Xuxa, ao chegar para a inauguração de outra escola na zona oeste, na quarta-feira. Muitas vezes, é ele mesmo quem faz o papel de mestre de cerimônias.

Em fevereiro, o prefeito virou motivo de chacota nas redes sociais ao alertar a população para o risco de um temporal na cidade, que acabou não ocorrendo.

Filiado ao PMDB em 2007, após passar por PV, PFL, PTB e PSDB, Paes é elogiado por líderes peemedebistas como o vice-presidente Michel Temer e o ex-líder do governo no Senado Romero Jucá (RR). Colegas de partido ressalvam, porém, que, para planos nacionais, é preciso mais maturidade e habilidade política. Lembram o ex-governador Sérgio Cabral, que também foi uma aposta do partido, mas sofreu grande desgaste político e chegou a reconhecer que não teve "humildade" diante da população. Cabral comprou briga com Estados ao sair em campanha contra o modelo de partilha do petróleo na camada pré-sal, que prevaleceu.

No PMDB, a iniciativa de Paes de processar a União foi recebida como mais um sinal de "não submissão" do partido à presidente. "Para usar a linguagem do Banco Central, Eduardo Paes tem viés de alta. Vivemos um movimento franco de fortalecer a unidade partidária que passa pela valorização dos quadros existentes e projeção de disputa de novos espaços", afirma Jucá, que não cita nomes para a disputa presidencial.

O governador Luiz Fernando Pezão e o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, já foram claros ao defender Paes para disputar a sucessão de Dilma.

'Antas'. O estilo "sem papas na língua" incomoda aliados. Há uma semana, o vice-prefeito Adilson Pires (PT) recebeu queixas de petistas contrariados com entrevista do prefeito à revista Veja. Paes chamou de "antas despreparadas" petistas que "defendem besteiras como o controle da mídia". Pires apagou o incêndio. Para ele, a relação do PT com Paes "é mais forte que frases mal colocadas".

A aliança local PMDB-PT tende a se repetir na eleição a prefeito em 2016, diz o petista. Segundo ele, o comportamento de Paes na disputa presidencial de 2014, ao apoiar Dilma mesmo com o PMDB fluminense rachado entre ela e o tucano Aécio Neves, é lembrado no partido. A divisão ocorreu quando o PT rompeu aliança estadual com o PMDB e lançou candidato próprio ao governo. "O PT nacional reconhece a lealdade", diz.

No esforço para emplacar a candidatura de Pedro Paulo, Paes tem de lidar com situação delicada: o líder do PMDB na Câmara, Leonardo Picciani, também sonha com a prefeitura. Leonardo é filho do presidente da Assembleia Legislativa e presidente do PMDB-RJ, Jorge Picciani. "Está combinado que Eduardo pode fazer o que quiser, fortalecer o Pedro Paulo. Não vamos tratar disso agora. Todos sabemos que não adianta ganhar convenção e não ganhar eleição. Na hora certa, haverá entendimento", diz Picciani pai.

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