Paes diz que PMDB não pode ceder à 'tentação' de tomar o poder que não pela via do voto

Prefeito do Rio evidenciou o racha no seu partido e do vice-presidente Michel Temer e disse acreditar que maioria da sigla não deseja 'tomar o poder'; o peemedebista também defendeu a recondução de Picciani à liderança da sigla na Câmara

Carla Araújo, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2015 | 21h11

BRASÍLIA - Após reunir-se por cerca de duas horas nesta segunda-feira,14, com a presidente Dilma Rousseff, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB-RJ), evidenciou o racha no seu partido e do vice-presidente Michel Temer e disse acreditar que a maioria da sigla não está voltada para a "tentação de tomar o poder".

"Eu quero crer que não há ninguém, ou pelo menos a maioria do PMDB, voltado para essa tentação ou tendência de tomar o poder que não pela via do voto popular", disse, após entregar ao lado de cinco prefeitos um manifesto de apoio ao mandato de Dilma e contra o impeachment.

Paes ironizou a carta enviada por Temer a Dilma na semana passada ao dizer que "nos dias de hoje é melhor um manifesto do que uma carta" e, evitando usar o termo "golpe" disse que o PMDB tem que definir um lado e defender a democracia. "A gente precisa ter posição nesse momento. O PMDB está a favor da democracia, das instituições, ou quer garantir autoritarismo, defender o autoritarismo, não vou usar expressão golpe, mas algo parecido com isso", disse.

O prefeito do Rio disse que o partido nunca escondeu sua vontade de estar ao poder e que é legítima a intenção de ter um candidato próprio em 2018. "Eu também estou sedento para estar com o PMDB na presidência da República", disse Paes, que é tido como um pré-candidato do partido nas próximas eleições presidenciais. "Agora quero que dispute a eleição em 2018, com candidato próprio, essa é a melhor maneira de chegar à Presidência", afirmou.

Segundo ele, é preciso reconhecer que a presidente foi eleita democraticamente e o partido, por fazer parte da aliança, tem que dar "tranquilidade" para que o Brasil possa avançar. "A gente sabe que essa crise econômica existe, mas ela foi agravada por essa loucura política", disse.

Para o prefeito, o processo de impedimento é sem sentido e está ocorrendo "de forma estapafúrdia". "O que se faz nesse momento no Brasil é um desrespeito à democracia", disse, ressaltando que a presidente Dilma não cometeu nenhum crime de responsabilidade fiscal.

Paes elogiou ainda a postura do Supremo Tribunal Federal (STF) de barrar o processo para definir um rito para o impeachment e disse que ao menos a Justiça está tentando organizar esse processo.

Picciani. O prefeito do Rio saiu em defesa da recondução do ex-líder do PMDB na Câmara, Leonardo Picciani (PMDB-RJ), e disse que a destituição do deputado foi “uma violência” e uma tentativa de ganhar “na mão grande”.

“Defendo a volta do Picciani. O que foi feito foi uma violência que não condiz com a história do PMDB”, disse, ressaltando que, na sua avaliação, Picciani conduziu a liderança respeitando a bancada e o fato da maioria ter optado por fazer parte da base do governo. “Ele deu grandeza e protagonismo a bancada do PMDB da Câmara”, disse, após encontro com a presidente Dilma Rousseff, no Palácio do Alvorada.

Mais cedo, Picciani afirmou que até o fim desta semana apresentará nova lista com o número de assinaturas suficientes para sua recondução à liderança do PMDB na Câmara. A principal estratégia do peemedebista tem sido articular a volta de deputados licenciados ou de suplentes da ala pró-governo do PMDB, com a ajuda do Planalto e do diretório estadual da sigla no Rio de Janeiro.

Paes disse ainda que a ameaça da ala até então dissidente do PMDB de antecipar a convenção do partido para formalizar a saída do governo é outro gesto “completamente sem sentido” e disse que o atual líder Leonardo Quintão (MG) deveria ter disputado a liderança em fevereiro. “Tem uma certa ação que eu chamo de mão grande”, disse.  

Picciani foi destituído da liderança do PMDB na semana passada, após deputados peemedebistas pró-impeachment protocolarem lista com assinatura de 35 dos então 66 parlamentares do PMDB na Câmara. Em seu lugar assumiu o deputado mineiro Leonardo Quintão.

O prefeito do Rio evitou um embate direto com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), sobre a possibilidade de ele estar por trás da articulação para a saída de Picciani, mas disse que hoje Cunha “é muito mais presidente da Câmara do que quadro do PMDB”, disse, citando ainda que a população “está ai julgando as atitudes dele.”

Ao dizer que não teme que seu apoio à presidente influencie negativamente as eleições de 2016 para o PMDB, Paes também fez críticas indiretas a ala mais próxima de Cunha.  “Eu não vou disputar a reeleição, mas não temo nenhum tipo de efeito desse apoio à presidente Dilma, porque o que se está colocando é um grupo de parlamentares, que não emociona ninguém, querendo apear a presidente Dilma do poder”, disse.

Enquanto Paes estava com a presidente Dilma, o vice Michel Temer recebia Cunha no gabinete da vice-presidência no Palácio do Planalto.

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