Clemilson Campos/JC Imagem
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Padre italiano expulso por militares volta a Pernambuco e comemora

Vitto Miracapillo foi expulso por ter se recusado a celebrar missa da Independência do Brasil; padre afirmou que Marco Maciel silenciara no episódio

Monica Bernardes, especial para o 'Estado',

04 de janeiro de 2012 | 18h55

RECIFE - Trinta e um anos depois de ter sido expulso do Brasil pelo ex-presidente João Baptista Figueiredo, durante o regime militar, por ter se recusado a celebrar uma missa em homenagem ao Dia da Independência do Brasil, na paróquia de Ribeirão, município localizado no Litoral Sul pernambucano, o padre italiano Vitto Miracapillo está de volta ao País. O religioso desembarcou na noite da última terça-feira no Recife, onde foi recebido por centenas de amigos, fiéis e militantes do Movimento Nacional dos Direitos Humanos. Nesta quarta-feira, 4, Miracapillo concedeu entrevista coletiva á imprensa e foi recebido pelo governador de Pernambuco, Eduardo Campos, no Palácio do Campo das Princesas. O retorno só foi possível graças a uma decisão do Ministério da Justiça, que no último mês de outubro, concedeu o direito de renovação do visto permanente do italiano.

 

Questionado sobre a possivel participação de ex-aliados dos militares, na Comissão da Verdade, criada para investigar, por um período de dois anos, eventuais violações aos direitos humanos entre os anos de 1946 e 1988, a exemplo do ex-presidente Marco Maciel (DEM/PE), o padre foi duro. "Não sei quem foi chamado nem sei quem faz parte da Comissão da Verdade, mas eu lembro que na época, quando Marco Maciel era governador, a única coisa boa que ele fez foi não falar. Ficou em silêncio, sem tomar posição praticamente", Na época em que o religioso foi expulso, Maciel, era o governador do Estado.

 

Muito emocionado, o italiano comemorou o retorno ao estado e mostrou disposição para reassumir sua antiga paróquia. Miracapillo foi denunciado aos militares pelo ex-presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP/PE). A expectativa de amigos e religiosos locais é de que o padre possa reassumir a paróquia de Ribeirão após a conclusão do processo de revalidação do visto. A decisão, no entanto, depende de um acordo entre o Vaticano e a Igreja do Brasil e da Itália. Durante a entrevista coletiva, Miracapillo ressaltou seu amor pelo País e a alegria de poder retornar para "junto de seu povo". "Sempre me senti em casa no Brasil, especialmente aqui em Pernambuco. Foram muitos anos de expectativa e fé. E hoje estou aqui, de volta aos amigos, aos irmãos queridos", comemorou. Por todo o lugar em que passou durante o dia, o religioso foi acompanhado pela multidão, que cantava sem parar Vito, Vito, Vitória.

 

Para o casal Edson e Maria Dulce Reis, que durante todo o dia, seguiram os passos do religioso, o retorno de Miracapillo tem um forte valor emocional. "Ele celebrou nosso casamento e dois anos depois o batizado de nosso primeiro filho. Sofremos muito quando ele teve que ir embora. Na época de sua expulsão houve muita revolta na cidade. Mas ele agiu corretamente, como um homem de Deus. O Brasil não era um país livre com os militares, então, como celebrar a independência?", questionou Edson. Nas próximas semanas, Vito Miracapillo vai celebrar missas nos municípios pernambucanos de Ribeirão e Palmares, como convidado da Arquidiocese de Olinda e Recife.

 

O advogado do padre, Pedro Eurico, afirmou que o processo de regularização do visto deve durar até 30 dias. Durante este período, Miracapillo ficará no País com visto de turista, que dá direito a até três meses de permanência em território nacional. Em Ribeirão, a população se prepara para receber o padre, no final da semana, com uma grande festa.

 

 

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