Padrão do candidato: homem, empresário, 50 anos

Custo de campanha e desencanto com política ajudam a explicar perfil dos inscritos para concorrer a uma das 513 vagas da Câmara dos Deputados

JOÃO DOMINGOS, RICARDO DELLA COLETTA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2014 | 02h03

Aos 52 anos e dono de uma escola preparatória de concursos no Distrito Federal, José Wilton Granjeiro Oliveira vai disputar pela primeira vez uma vaga na Câmara dos Deputados. Recrutado para o PSB no fim do ano passado pelo candidato a governador Rodrigo Rollemberg, Granjeiro retrata o perfil predominante entre os quase 6,8 mil candidatos às 513 cadeiras de deputado federal.

No pleito deste ano, quase 70% dos postulantes à Câmara são homens, 16,62% têm entre 50 a 54 anos e quase metade dos candidatos concluiu um curso superior. A profissão mais comum dentre as declaradas à Justiça Eleitoral é a de empresário, com 631 candidatos - 9,29% do total de concorrentes.

O desencanto com a política e o alto custo das campanhas têm contribuído para a predominância desse perfil, avaliam políticos e estudiosos ouvidos pelo Estado. A entrada de candidatos jovens nas corridas eleitorais, por exemplo, geralmente esbarra nas dificuldades de financiamento. "É muito difícil um jovem ter condições de arrecadar recursos", disse o secretário-geral do PT, deputado federal Geraldo Magela (DF), que agora concorre a uma das 27 vagas em disputa no Senado.

Neste ano, por exemplo, a proporção de pessoas com menos de 34 anos que brigam por uma vaga na Câmara pouco avançou em relação à eleição geral anterior. Representavam 11,8% do total de candidatos em 2010 e, quatro anos depois, somam 13,4% dos concorrentes.

"São duas as realidades possíveis para a composição do Congresso. Ou os movimentos sociais se mobilizam de tal modo que eles possam preencher parte das vagas, ou elas vão ser ocupadas por aqueles que querem se dar bem", afirmou Antonio Augusto de Queiroz, diretor de documentação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), que há 28 anos edita publicações sobre o Congresso Nacional.

Renovação. O pleito de 2014 deve ter como marca a maior renovação na Câmara e no Senado desde 1990. Essa certeza se baseia no fato de que só 398 deputados são candidatos à reeleição. Portanto, no mínimo haverá 115 novas caras na Câmara no ano que vem. Se for levado em conta que tradicionalmente em torno de 60% dos parlamentares que concorrem à reeleição obtêm êxito, seriam outros 160 novatos.

Mas essa renovação não representa necessariamente uma mudança no perfil dos novos parlamentares, se comparado com a eleição de 2010. Naquele ano, também prevaleceram os empresários entre os candidatos.

A eleição marcará ainda a despedida de figuras que foram e ainda são importantes no Parlamento, tanto no Senado quanto na Câmara. Não disputam mais nenhum cargo eletivo os senadores Pedro Simon (PMDB-RS) e Inácio Arruda (PC do B-CE) nem os deputados Inocêncio Oliveira (PR-PE), Doutor Rosinha (PT-PR), Sandro Mabel (PMDB-GO), Eduardo Sciarra (PSD-PR), Ricardo Berzoini (PT-SP) e Aldo Rebelo (PC do B-SP). Os dois últimos preferiram ficar no governo federal em vez de correr às ruas atrás de votos. "Todos eles representam perdas consideráveis para a Câmara e para o Senado", afirma Queiroz.

Para o senador Valdir Raupp (RO), vice-presidente do PMDB e responsável por amarrar as alianças do partido nos Estados, a política tem causado desencanto e isso tem levado a baixas consideráveis. "Se for feito um levantamento em todos os partidos, em todos os Estados, veremos que ninguém conseguiu montar chapas completas para as eleições, principalmente para as Assembleias Legislativas", reconheceu.

Raupp diz que a política está se tornando inviável porque não é possível conviver com tantos partidos. "Do jeito que está, quando você vai montar uma coligação, o que aparece na sua frente é uma série de legendas criadas só para fazer negócio, todas interessadas em tirar vantagem em face do tempo de propaganda na TV."

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