Padaria símbolo do plano Real está falindo

Cinco anos depois que o presidente Fernando Henrique comeu um pão de sal e tomou um café para comemorar os dois anos de implantação do Plano Real, os proprietários da panificadora Salgado e Cia, na quadra 24, Setor Leste do Gama, não têm nada a comemorar. O movimento diário caiu de R$ 1,5 mil para pouco mais de R$ 300, as prateleiras estão vazias - eles recusaram um carregamento de guaraná Tampico e Pitchula porque não têm dinheiro para pagar o fornecedor -, o risco do corte de energia está mais do que presente e os atuais proprietários garantem: se o presidente quiser repetir o cardápio, é melhor procurar outra padaria.Os tempos são outros e a vida de Walter Eduardo de Oliveira, Maria Madeiro Rodrigues de Oliveira e Kleber Rodrigues também mudou, para pior. No dia em que FHC visitou o estabelecimento, em 1996, o R$ 1 com o qual ele pagou o lanche eleitoreiro dava para comprar oito pães franceses, cada um a R$ 0,08, tomar um xícara de café a R$ 0,25 e sobrava R$ 0,11 de troco. Hoje, o café está o mesmo preço, mas o pãozinho, mesmo em promoção, custa R$ 0,15. Resultado: a contabilidade é de cinco pães e um café, semtroco."Eu acreditei muito que o plano Real fosse dar certo", declarou Walter, desanimado. "Eu fui um dos que lutaram para que o Real desse certo, mas os governantes não fizeram nada para que isso acontecesse", prossegue. Contendo-se para não chorar, Maria Madeiro afirma que está com vontade de largar a padaria e mudar de ramo, mas não sabe como será seu futuro. "Não sei fazer outra coisa da vida", lamenta.E lembra que na segunda-feira foi aniversário de seu filho Kleber, que na época era entregador de leite e comprou a padaria do antigo dono, Arnaldo Peres, proprietário na data do café da manhã presidencial. "Nem pudemos comemorar, pois a cada dia é uma tensão nova para os padeiros", finalizou.

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