Werther Santana/AE
Werther Santana/AE

Paciência, o remédio obrigatório

Quem depende do serviço público ainda enfrenta filas para marcar consultas e conseguir atendimento, apesar da Ampliação da rede e de novas formas de gestão

Pablo Pereira, de O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2012 | 16h00

Ela está preocupada com a saúde desde fevereiro. Mas não consegue atendimento no sistema municipal para fazer tratamento. Sônia Sales Campos, de 53 anos, dona de casa, moradora de Sapopemba, zona leste de São Paulo, procurou ajuda médica da Prefeitura pela primeira vez há quatro meses. Com a indicação do exame de papanicolau, esperou até maio para obter o resultado. Agora a batalha é para conseguir um ginecologista para o tratamento. Mas, para conseguir uma vaga de consulta, vai ter de esperar até setembro, ou seja, sete meses após a primeira ida ao médico.

"Estou preocupada", dizia ela na manhã de quinta-feira, diante da unidade de Atendimento Médico Ambulatorial (AMA) Sapopemba, serviço municipal que funciona ao lado do Hospital de Sapopemba, do Estado. A AMA é operada por uma organização social contratada pela Prefeitura. As vagas para atendimento são gerenciadas pela Central de Vagas da Secretaria Municipal da Saúde.

"O exame deu que tem inflamação", explicou Sônia. Mas o retorno médico vai demorar dois meses. "Não tem ginecologista. Deveria ter alguma prioridade para as pessoas que têm problemas."

Na mesma manhã, o contabilista Ricardo Rodrigues, de 33 anos, saiu do local acompanhado da mulher, Taíce, e da filha, Camille, de 4 anos, que precisa de cirurgia de cabeça. Há dois meses o casal tenta tratamento para a menina. Agora Rodrigues foi encaminhado a um posto de saúde para primeiro consultar um especialista e só então iniciar a busca por vaga para cirurgia.

"Já estive no Cema (hospital especializado em garganta e ouvido), que também atende pelo SUS", contou ele. Foi informado de que uma cirurgia de adenoide, indicada para a menina, tem uma fila de no mínimo dois anos. Se fosse convênio, o caso seria resolvido em no máximo um mês, disse ele.

"A Camille tem problemas para dormir, irritação nos olhos", contou o pai. Rodrigues explicou que, após ir à AMA, procurou outro posto de saúde para tentar marcar um pediatra, mas não conseguiu nada. "Hoje não deu certo. Vamos continuar."

Segundo a Secretaria Municipal da Saúde, "para completar o diagnóstico, a senhora S.S.C tinha ultrassonografia da mama agendada para 16 de maio, no Ambulatório de Especialidades Flávio Giannotti, mas faltou. Então, foi agendada uma nova data do exame, para 3 de julho, e o retorno com a médica está marcado para 27 de julho". A paciente negou ter faltado a exames. E disse que não tem qualquer informação sobre novas datas de retorno. Sobre o caso de Camille, a pasta alegou não ter informações suficientes para comentar. "Cabe esclarecer, contudo, que a espera para cirurgia de adenoide, na região Sudeste, não ultrapassa três meses."

Especialidades. Historicamente, a demora no agendamento de consultas e exames e a superlotação são o calcanhar de Aquiles da saúde pública paulistana. A rede vem sendo ampliada e ganhou novos tipos de equipamentos, como as AMAs, criadas em 2005, e a Prefeitura adotou um modelo diferente de gestão com as organizações sociais, entidades geralmente ligadas a hospitais particulares e filantrópicos contratadas para gerir desde postos de saúde até hospitais.

Um dos argumentos a favor desse modelo é a possibilidade de melhor remuneração dos profissionais, a fim de suprir a carência de médicos. Na prática, porém, nem essas unidades estão livres da falta de especialistas, como os críticos do modelo costumam apontar. Segundo o Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp), 64% dos cerca de 14 mil profissionais da rede municipal trabalham em unidades do centro expandido - ou seja, distantes dos bairros com maior demanda de atendimento.

Casos com necessidade de internação passaram a ser direcionados para a central de vagas do município, a fim de otimizar o uso da rede pública. Mas a demora persiste.

Como ocorreu em caso que chegou à Promotoria de Saúde em março. Rubia de Lima Nicolau, vendedora, de 22 anos, estava na cozinha num domingo à tarde, quando sofreu um corte na palma da mão direita, atingindo os tendões do dedo médio. Mãe de duas crianças, desempregada, moradora da zona leste, ela enrolou a mão ensanguentada numa toalha e correu para o hospital mais próximo, o Sapopemba.

Rubia esperou atendimento por três horas no setor de emergências. E nada. Cansada, mudou de hospital. Segundo a Secretaria Estadual de Saúde, "a paciente passou por avaliação de risco e, até por não apresentar sangramento grave, foi classificada em grau de não urgência. Quando foi chamada para a consulta, a paciente já não se encontrava nas dependências do hospital".

Rubia tinha ido ao Hospital da Vila Alpina. Já no começo da noite, o primeiro atendimento foi rápido. Os médicos diagnosticaram a necessidade de cirurgia para reparar o talho fundo, que impedia o movimento da mão. "À 0h do dia 5/3, a paciente foi internada e, durante o dia, passou por avaliação pré-operatória. No dia seguinte, o hospital solicitou, via central de regulação de vagas do município, vaga para realização da cirurgia, disponibilizada para 12 de março, pelo Hospital São Paulo."

No Vila Alpina, conforme a nota, não havia vaga para o preparatório cirúrgico, nem para a sala de operações. Rubia ficou numa maca quatro dias, com a mão aberta. Sem informação, a irmã de Rubia, Kelly, ameaçou procurar a polícia. Outra irmã, Talita, mandou e-mail para o setor de reclamações de saúde. Rubia foi operada no domingo seguinte ao acidente. O caso chegou ao promotor Arthur Pinto Filho 20 dias após a queixa. Ele determinou atendimento imediato, mas a ordem chegou atrasada.Rubia já estava em casa.

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