Secom/UnB
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'Ótimo plano, péssimo planejamento', uma síntese dos 60 anos da capital do Brasil

Professor emérito da Universidade de Brasília (UnB), José Carlos Coutinho analisa o crescimento da sede do Poder do Brasil, inaugurada em 21 de abril de 1960

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2020 | 08h00

Brasília completa 60 anos neste 21 de abril. Mas poderia ser 129 ou até mesmo 199 anos. José Bonifácio de Andrada já tinha falado nisso no início do século XIX. Uma comissão foi explorar o Planalto Central em 1892 para determinar o local de construção da cidade e três Constituições previam que a nova capital deveria estar no Planalto Central. 

No fim, coube a Juscelino Kubitschek a missão de realizar a previsão constitucional. O argumento mais forte era o da integração do Brasil, já que o País era uma fileira de capitais à beira mar. JK dizia na época que a fundação de Brasília era a marcha para o interior e uma conquista pelos brasileiros do próprio território nacional. 

Sessenta anos depois, o arquiteto José Carlos Coutinho, professor emérito da Universidade de Brasília (UnB), diz que a capital nasceu como um bebê bonito, mas adquiriu rapidamente as características - e os problemas - do pai. Coutinho é uma das principais autoridades sobre a história da arquitetura de Brasília, se formou no ano da construção da capital, mudou para lá em 1968 e hoje é cidadão emérito da cidade, que acabou se tornando a terceira maior do Brasil.

O professor afirma que a cidade, patrimônio mundial da humanidade, impulsionou a integração do interior do Brasil e mudou a geopolítica nacional. Mas lembra que Brasília tem o maior PIB per capita do Brasil, uma das maiores favelas da América do Sul e um sistema de transporte deficitário. Foi criada para receber 500 mil habitantes, mas hoje tem quatro milhões de moradores e mais de 30 cidades orbitando ao seu redor. “É um ótimo exemplo de plano, mas é um péssimo exemplo de planejamento”, disse. 

Coutinho lamenta que a cidade tenha se estratificado e que a especulação tenha transformado “uma cidade patrimônio em cidade-mercadoria”. Não deixa, no entanto, de dizer que se trata de uma cidade aprazível, única e cuja história se mistura com a da própria vida. 

Aos 60 anos, que balanço podemos fazer do desenvolvimento de Brasília? 

Eu dizia para os meus alunos que Brasília é um excelente exemplo de plano e um péssimo exemplo de planejamento. O plano é uma proposta estática em um determinado momento. E planejamento é a ação contínua de acompanhamento. Tivemos péssimos governos e ausência de planejamento, apenas uma ou outra tentativa isolada. Brasília explodiu no processo de crescimento sem um planejamento que antecipasse o que era previsível. 

Todos sabiam que a cidade planejada para 500 mil habitantes não ficaria nisso. Essa centrifugação urbana a partir do Plano Piloto se percebia no início do povoamento. Já se via que estavam surgindo prematuramente outros núcleos urbanos formando essa enorme constelação. Quem se aproveitou foi a especulação imobiliária, que comprou terras em volta e as transformou em condomínios residenciais. Esses equívocos transformam uma cidade-patrimônio em cidade-mercadoria. 

Brasília já foi reconhecida como patrimônio mundial da humanidade. Quais méritos o senhor vê na capital? 

Apesar dos problemas, o Plano Piloto representa um patrimônio inestimável, reconhecido pela Unesco patrimônio de interesse mundial. É necessário um esforço para preservar as obras originais dessa pressão destruidora do mercado imobiliário. Essa região do Plano Piloto é a Brasília da beleza, das artes, do espaço verde, florida, acolhedora. O Lago Paranoá é uma riqueza paisagística, uma moldura privilegiada da cidade. Além disso, convergiram para cá gênios da arquitetura, do urbanismo, da arte, para construir algo novo no centro do país. Brasília não é produto de duas ou três pessoas, é uma tarefa gigantesca de pessoas de talento excepcional que acreditaram em um futuro grandioso para o país. 

A cidade se insere em um movimento de renovação do urbanismo internacional, com cidades como Nova Délhi, na Índia, e Camberra, na Austrália, além de outras. Ela representa muito bem o movimento modernista.

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Brasília é excepcional pela sua ambição, por ser uma capital com toda essa monumentalidade, tendo esse dever de ser o local de onde se formulam as políticas públicas para o futuro. 
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Quando chega alguém que nunca esteve aqui, se surpreende com o que encontra porque existe muita descrição deturpada da cidade. Teóricos que dizem que a cidade é dispersiva, que afasta as pessoas, que as pessoas são solitárias. Nada disso é verdade. As pessoas se surpreendem ao constatar que é uma cidade viva, com atividade intensa, intelectual, cultural. E iniciativas não são apenas oficiais. A população apropriou-se da sua cidade. 

Muito se fala da construção como uma epopeia, mas há também os acidentes de trabalho, as mortes, um outro lado dessa construção que não aparece muito. 

A gente só comemora a epopeia de Brasília, um fato alegre e grandioso, mas esquece a tragédia que foi. Brasília é uma moeda de duas faces. A da epopeia e a da tragédia. É inegável que foi um grande feito, chamou a atenção do mundo, houve grandes conquistas do plano da arte, das ideias, do humanismo. Mas quantas vidas foram sacrificadas pelos acidentes de trabalho? Tudo era simplesmente desconsiderado para não abalar a moral dos demais operários. 

Como eram as condições de vida dos operários da época? 

Na época, não se usava dispositivos de segurança, cintos, capacetes, nada disso. Houve rebeliões nos canteiros de obra, principalmente nos refeitórios, contra a qualidade da comida. Havia relatos de carne podre, às vezes até com bicho. Tem um poema do João Bosco Ribeiro sobre o vaqueiro voador. É a metáfora de um vaqueiro que abandonava o Nordeste e vinha trabalhar aqui. E um dia ele despenca de uma construção. Então, o vaqueiro voador é aquele que passa voando pelos colegas trabalhando mais abaixo. Quando eles correm para socorrê-lo, já não havia corpo, já tinham recolhido.

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Brasília tem esse lado trágico que precisa ser lembrado, o lado do homem comum, do pobre, do desprotegido, que possibilitou essa epopeia. 
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E com o passar do tempo a desigualdade de oportunidades e de renda foi se estabelecendo, certo? 

O grande problema é a centrifugação das populações pobres. Está se criando uma segmentação muito forte na estrutura social e econômica da população. A população de baixa renda está sendo expelida para fora do Distrito Federal. Lamento que Brasília tenha se estratificado e se tornado uma cidade excludente. É um privilégio morar no Plano Piloto, onde vivem menos de 15% da população. Mas Brasília é a totalidade desse arquipélago de cidades-satélites. 

A maior renda per capita do país está no Plano Piloto, os bairros ricos detêm a maior renda per capita do país, mais do que São Paulo. Em compensação, a maior pobreza está instalada em sua periferia. Uma das maiores favelas da América do Sul está instalada aqui bem próximo. Isso não é justo. Lucio Costa pensou uma cidade para todos. Brasília nasceu como um bebê rosado, cheio de promessas, para o encantamento dos pais. Mas o pai de Brasília é o Brasil e ela foi ficando aos poucos com a cara do pai. O Brasil é um contraste entre a riqueza de uma minoria e a pobreza da grande maioria. 

Há quem diga que Brasília foi construída para afastar o povo do poder. O que o senhor acha desse argumento? 

Eu não digo que fosse a intenção principal, mas era uma intenção subjacente. Isso não pode ser desconsiderado. Juscelino tinha intenção de afastar a alta administração daquele torvelinho do Rio de Janeiro, da praia, daquele ar malandro, das grandes confusões. Tanto que há um episódio curioso quanto à Universidade de Brasília.

Ela foi uma ideia do Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro para criar uma universidade modelo. Mas o JK era contra. Chegou a dizer para o Darcy explicitamente que não queria trazer para Brasília aquelas confusões da Praia Vermelha, a sede da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 

Como serão os próximos 60 anos?

É preciso se antecipar aos problemas. Brasília está muito próxima de engasgar. Tem horas impossíveis de circular, hoje tem 4 milhões de habitantes, mas vai ter 5, 6, 7 milhões. É preciso pensar em um planejamento regional metropolitano para essa dezena de núcleos urbanos com elevada população e poucas oportunidades. Pensar em outras soluções e não apenas construir viadutos, alargar ruas. Não é por aí. É preciso mudar o conceito de transporte. 

Que sugestões o senhor daria? 

Hoje há uma proporção mais ou menos de um veículo para cada dois habitantes, então não há dúvida de que terá de se adotar restrições progressivas ao transporte individual, fazer estacionamentos rotativos, limitar determinados tipos de veículos em determinados períodos. Não que isso seja bom, mas vai ser inevitável. É preciso oferecer um metrô eficiente, confortável, estendendo-o a distâncias maiores, com ramais transversais e não só essa linha única, ir para a Asa Norte, ir para cidades-satélites, por exemplo. 

Precisa ser muito bem analisado e adaptado às condições do terreno. Hoje há mais de 30 cidades-satélites que dependem ou do transporte individual que congestiona os eixos de acesso ou do transporte coletivo que é totalmente deficiente e insuficiente. É urgente criar empregos, melhorar a educação e as condições de vida nas cidades no entorno, onde vivem mais de 80% da população.

 

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