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‘Otários e patetas’, mas não só

Precisa, Davati e World Brands revelam o padrão de negociações de vacinas no governo

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2021 | 03h00

A CPI da Covid revela um padrão mais do que suspeito de negociações de vacina no governo Jair Bolsonaro, mas ainda falta concluir o principal: as múltiplas histórias revelam patetadas incríveis que resvalam para uma incompetência constrangedora, ou negociatas e interesses inconfessáveis de grupos do Ministério da Saúde, com beneplácito do Planalto?

O padrão é claro: depois de desdenhar das ofertas sérias e confiáveis, o governo escancarou as portas para empresas de origem duvidosa, que ofereciam vacinas inexistentes, usavam atravessadores suspeitos e cobravam preços exorbitantes.

Como Bolsonaro e o governo escorraçaram a Coronavac do Butantan, fugiram da Pfizer e desdenharam do consórcio Covax Facility, os brasileiros não começaram a se vacinar em dezembro de 2020, e a Saúde correu atrás de propostas indecentes. E não foi “só” por incompetência e disputa política, mas pela fusão do negacionismo doentio de Bolsonaro com interesses escusos de setores do governo.

Almoçando com o presidente, numa dessas viagens de campanha, generais e coronéis descobriram que não é da boca para fora, ele é mesmo, convictamente, contra as vacinas. Gabou-se de não se vacinar, disse que não acreditava “nessas vacinas aí” e, se dependesse dele, não tinha imunização nenhuma. Um espanto!

Enquanto isso, o general da ativa Eduardo Pazuello e seu braço direito na Saúde, coronel da reserva Élcio Franco, negociavam com empresas e atravessadores que seriam facilmente desmascarados, mas ninguém checou, ou não quis checar. A Precisa, da Covaxin, é sócia da Global, processada pelo próprio Ministério da Saúde, o governo do DF, a Petrobrás e os Correios por oferecer o que não tinha, embolsar a grana e não entregar o produto.

A Covaxin, não reconhecida na Índia e na Anvisa, era a mais cara de todas. Mas o governo assinou o contrato de R$ 1,6 bilhão e a nota de empenho e, como o Estadão mostrou, ainda mudou o contrato para trocar “exclusividade” por “preferência”. O risco? A empresa receber o pagamento do governo e desviar as vacinas para clínicas particulares. E o coronel Élcio ainda pediu mais 30 milhões de doses...

Tudo isso só foi abortado por causa da CPI, que transmite também a novela da Davati, que seria um pastelão, não fosse do gênero policial: um reverendo, um PM da ativa e um beneficiário do auxílio emergencial metidos com uma empresa americana que nunca vendeu uma dose de vacina, mas oferecia 400 milhões da AstraZeneca. Pazuello precisa voltar à CPI e explicar como o ministério acreditou num golpe tão óbvio.

Ratificando o padrão, um vídeo divulgado pela Folha de S. Paulo mostra Pazuello anunciando, no ministério, um memorando de entendimentos com uma terceira empresa, World Brands, para adquirir a Coronavac por um preço três vezes superior ao que o governo paga ao Butantan. Assim como estava passando e deu de cara com o palanque de Bolsonaro, Pazuello diz que foi dar uma volta nos corredores e trombou por acaso com a World Brands.

Resultado: Bolsonaro tinha vetado a oferta do Butantan, de US$ 10 a dose, e Pazuello anunciou alegremente a nova, a US$ 28, num total de R$ 4,7 bilhões. Pazuello e Franco “esqueceram” que o Butantan é o único representante da Coronavac no Brasil? Que vacinas a World Brands tinha efetivamente a oferecer? E por que mentir na CPI?

Precisa, Davati e World Brands revelam aproveitadores, vacinas inexistentes, valores bilionários, funcionários de má-fé e militares que, ou estavam mais perdidos do que cego em tiroteio, ou curtindo o tiroteio. Bolsonaro chamou os senadores Omar Aziz, Randolfe Rodrigues e Renan Calheiros de “otários” e “patetas”, mas errou o alvo. Não seriam o general e seus coronéis da Saúde? Ou nós, o povo brasileiro?

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