Os sinais dos vetos

Quais as razões que levam alguns a entenderem o sucesso dessa batalha no Congresso como uma guerra vencida?

Humberto Dantas (Insper), O Estado de S. Paulo

23 de setembro de 2015 | 11h13

Na política, por vezes batalhas ganhas são consideradas guerras vencidas. Em contrapartida, algumas batalhas podem ser perdidas em nome de algo que o derrotado considera maior. A arte do conflito é muito mais complexa do que se imagina, e por vezes não enxergamos o que de fato ocorre. O governo conseguiu manter alguns vetos da presidente Dilma Rousseff a pautas que causariam rombo orçamentário ainda mais estrondoso ao país no longo prazo.

Para muitos, na desgastada relação entre Legislativo x Executivo, esse é um sinal de que a articulação política voltou a dar sinais de vida. Seria o imediato efeito da habilidade política de Lula? Seria o preço pago com uma reforma ministerial que custa a encontrar desfecho? Muitos dizem que a presidente esperava o Congresso para anunciar como ficará seu gabinete. O problema é que dos 32 vetos, 26 foram aceitos, mas oito serão votados individualmente, ofertando semblante de mistérios – aqui entendidos como capítulos dessa queda de braço que caracteriza nosso delicado instante político.

Mas quais as razões que levam alguns a entenderem o sucesso dessa batalha como uma guerra vencida? Lideranças do PT afirmam que se trata de um sinal de que o Executivo está forte, e pode ter maioria para conter um impeachment. Difícil acreditar numa relação tão indissociável entre tais fenômenos. O argumento aqui mais se assemelha ao time que comemora efusivamente um gol irregular para influenciar o árbitro. Não que exista irregularidade na aprovação dos vetos, mas há alegria demais para resultado de menos em termos políticos.

Duas hipóteses reforçam essa afirmação, que deve partir da ideia de que o PMDB, agente maior de toda a crise política, sabe que as matérias aprovadas corroíam as contas, apesar de estarem sintonizadas com interesses de diversos segmentos da sociedade. Assim, politicamente os vetos de ontem jogaram a responsabilidade por “maldades” no colo da presidente e de seu partido, bem como mostraram que o PMDB sabe o tamanho do problema que enfrentaria caso assumisse as rédeas do país. Batalha ou guerra? Ao que tudo indica, o conflito continua.

Humberto Dantas é cientista político, doutor pela USP, e professor do Insper

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