Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Os riscos de 2022 para o futuro de Doria num PSDB sem alma; leia análise

O acúmulo de conflitos no partido suscita dúvidas se a campanha presidencial será capaz de juntar os cacos do passado e superar as divisões que alimentaram essas prévias

Marco Antônio Carvalho Teixeira*, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2021 | 20h25

Com início meteórico na política partidária, João Doria, no intervalo de dois anos (2016-2018), saiu da condição de prefeito de São Paulo, primeiro cargo eletivo que disputou, para a de governador do Estado, alcançando protagonismo no seu partido e na cena política nacional. Agora, torna-se presidenciável ao vencer as prévias do PSDB numa disputa marcada por acusações e muita tensão entre os concorrentes. A pergunta que se faz é: qual será o PSDB que vai conduzir a campanha de 2022? O conjunto de contendas que acompanham a recente trajetória sobre a vida partidária de Doria lança dúvidas sobre se o PSDB marchará unido para o próximo pleito presidencial. 

Eleito prefeito de São Paulo graças ao apoio pessoal do então governador Geraldo Alckmin, João Doria passou a atuar fortemente na política partidária atropelando seus adversários no partido. Sua ambição presidencial já se explicitava quando, ainda prefeito, passou a ser apresentado por simpatizantes como provável presidenciável tucano em 2018, entrando em rota de conflito com Alckmin, cujo nome já era tido como certo para ser o candidato a presidência do ninho tucano. 

Doria acabou disputando o governo do Estado com uma retórica típica das hostes bolsonaristas, além de se distanciar da campanha tucana à Presidência da República. No segundo turno vinculou sua imagem com a de Jair Bolsonaro, de quem hoje é desafeto, lançando a aliança Bolsodoria, o que causou calafrios em tucanos históricos. 

O acúmulo de conflitos no PSDB suscita dúvidas se a campanha presidencial de João Doria será capaz de juntar os cacos do passado e superar as divisões que alimentaram essas prévias, muitas feridas ainda estão expostas. Heterogêneo, a razão de existência do grupo de Eduardo Leite, que unia aecistas, tucanos bolsonaristas e outros segmentos do PSDB, era ser uma frente anti-Doria. 

Desconfia-se, inclusive, que parte desse grupo queria ver Leite vice de outro candidato a presidente com mais chances de derrotar Lula e Bolsonaro, assim também como tucanos bolsonaristas certamente não estarão apoiando Doria e dificilmente marchariam com Leite. O PSDB não apenas se tornou menor nos últimos anos, mas perdeu a alma que uniu o grupo na motivação para criar o partido em 1988. 

Patinando nas pesquisas e vendo Moro se consolidar como alternativa a Bolsonaro, João Doria corre o risco de fracassar como presidenciável e de ver Geraldo Alckmin, seu desafeto, voltar a governar São Paulo. O capital político por ele acumulado nesses poucos mais de cinco anos de disputa eleitoral poderá se esvair rapidamente. Caso fique sem governo e sem recursos de poder, a conta certamente vai chegar. Ter feito política eliminando companheiros de partidos e possíveis aliados deixou João Doria com uma legião de inimigos. A sorte está lançada, mas é bom lembrar, em política não é sempre que se ganha.

*CIENTISTA POLÍTICO E PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE GESTÃO PÚBLICA DA FGV EAEP, ONDE COORDENA O MESTRADO PROFISSIONAL EM GESTÃO E POLÍTICAS PÚBLICAS

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