Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Os partidos encolhem no Brasil

Das dez maiores legendas do País, oito viram o seu número de filiados diminuir após 2018

Katia Brembatti, especial para o Estadão

28 de dezembro de 2021 | 05h00

A onda antipolítica que culminou na eleição de Jair Bolsonaro deixou marcas na composição dos principais partidos brasileiros. Das dez maiores legendas, oito tiveram diminuição no número de filiados desde 2018, ano em que foram eleitos presidente, governadores, senadores e deputados. As principais exceções na tendência de encolhimento são o PT, que voltou a crescer depois de uma sequência de quedas; e o Republicanos, legenda que arregimenta seguidores principalmente entre os fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus.

O PSL, que abrigou o presidente até 2019 e viu os quadros dispararem no início do mandato, agora “desidratou”, chegando a números inferiores ao que tinha antes de se associar ao bolsonarismo. O Podemos, que desde novembro tem o ex-ministro Sérgio Moro como pré-candidato à Presidência, teve crescimento expressivo, mas está em 14º. lugar no ranking de filiados, atrás de nanicos como o PSC e o PCdoB.

Fustigados pelo desgaste crescente, acentuado a partir das manifestações de junho de 2013 e por uma série de escândalos, os partidos políticos são gestores de uma fortuna – a estimativa do Movimento Transparência Partidária é de que, somadas todas as fontes, serão R$ 7 bilhões em recursos públicos para gastar em 2022.

Em 2021, entretanto, o número de filiados a partidos políticos no Brasil diminuiu. São 565 mil registros a menos do que em 2020. É a segunda vez na década que ocorre queda. O caso anterior aconteceu em 2019, quando mais de 1 milhão de pessoas deixaram de fazer parte de quadros partidários. Depois disso, houve uma retomada e agora uma nova redução, com a quantidade total de filiados saindo de 16,65 milhões no ano passado para 16,09 milhões em 2021.

Década

Para entender o momento atual, vale olhar para o panorama de dez anos atrás e identificar quais foram as principais mudanças. Em 2011, o Brasil tinha 29 partidos. Atualmente, são 33. Desde então, sete novas siglas surgiram (Solidariedade, PROS, PMB, Rede, Novo, UP e PEN, que virou Patriota e incorporou o PRP) e três foram engolidas por outras (PHS, PRP e PPL). 

Além disso, houve alterações de nome: PMDB passou a se chamar MDB, PR voltou a ser PL, PRB adotou o Republicanos, PPS mudou para Cidadania, PTN virou Podemos, PTdoB assumiu o nome de Avante e PSDC se transformou em Democracia Cristã. Em breve, as estatísticas podem mudar, com a oficialização da fusão de DEM e PSL, criando o União Brasil.

Entre partidos que já existiam há uma década, os aumentos que chamam a atenção são do PSOL (253%), Podemos (240%), PSD (221%) e Republicanos (78%). Entre as altas mais recentes, nos últimos três anos, se destacam Podemos (144%) e Patriota (312%) – ambos incorporaram outras siglas. A oscilação mais expressiva é do Novo, que tinha 13 mil em 2017, chegou a bater 48 mil filiados em 2019 e agora está com 32 mil. A maior parte dos partidos, no entanto, apresenta variações inferiores a 15% no número de filiados.

Já a situação do PSL destoa de todo o quadro. O partido subiu de 241 mil filiados em 2018, para 348 mil no primeiro ano do governo, bateu 464 mil em 2020 e “derreteu” para 74 mil, número inferior até mesmo à entrada de Bolsonaro – e essa debandada aconteceu antes mesmo de ser oficializada a fusão com o DEM. Especialistas ouvidos pelo Estadão acreditam que esses filiados deixaram de participar de legendas ou se espalharam por siglas.

Maiores

O MDB ainda concentra o maior número de correligionários – é o único que passa de 2 milhões. Na sequência vem o PT, que encolheu depois do impeachment de Dilma Rousseff, voltou a registrar novos filiados e somou 132 mil pessoas a mais nos quadros, considerando as fichas assinadas em 2020 e 2021. Atualmente, o PT tem 1,6 milhão de filiados – mais do que no último ano do governo Lula. Esse crescimento, porém, não foi uniforme: desde 2018, houve aumento de petistas em 13 unidades da Federação, e diminuição nas demais 14.

O PSDB perdeu cadeiras na Câmara dos Deputados e já não polariza com o PT as disputas presidenciais, mas segue sendo o terceiro maior partido em quantidade de filiados, com 1,3 milhão de inscritos – com números relativamente estáveis ao longo da década. É seguido de perto pelo PP, também na casa de 1,3 milhão. 

Na quinta e na sexta posição estão duas legendas tradicionais, o PDT e o PTB, na faixa de 1,1 milhão cada um. O clube do milhão é fechado pelo DEM. O PL está na lista como oitava maior sigla. O novo partido de Bolsonaro tem hoje cerca de 760 mil filiados.

Nesse quadro, Mariah Sampaio, cientista política, pesquisadora do grupo de comunicação eleitoral da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e professora na Universidade de Brasília (UnB), destacou o crescimento do PSOL e do Novo como siglas que conseguiram se firmar como representantes de um conjunto ideológico claro, que atrai seguidores. Já o cientista político e professor do Insper Leandro Consentino, chama a atenção para a redução do número de filiados de alguns partidos tradicionais como um fenômeno ainda a ser aprofundado em pesquisas. “Essa questão de filiações no Brasil é ainda muito delicada”, disse. “Nem todos são participantes ativos.”

Francis Ricken, cientista político e professor de Direito na Universidade Positivo, destacou que siglas consolidadas, como MDB e PTB, que sempre tiveram quantidade significativa de membros no Legislativo e também em prefeituras, vêm perdendo força. “É bem possível que o PSD assuma o papel que, no passado, foi do MDB, porque é um partido de consenso, de articulação política.”

Lara Mesquita, cientista política e pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas (FGV), analisa que os partidos buscam se reforçar para sobreviver à cláusula de desempenho, capaz de fazer minguar as siglas que não forem bem nas urnas no ano que vem. Uma das estratégias é aumentar o número de potenciais candidatos.

Mudança

Para o diretor do Movimento Transparência Partidária, Marcelo Issa, as mudanças pelas quais as legendas passaram na última década foram mais paliativas do que profundas. Um exemplo foi a tendência de desaparecimento do “P” de partido nas siglas. “É uma tentativa de dissociar as agremiações partidárias, dentro desse processo de descrença na política, por meio de iniciativas cosméticas, como a mudança de nome. Contudo, não há grandes transformações do ponto de vista estatutário, nas regras de governança, nas suas práticas, na transparência, nos mecanismos de participação e de equidade.” 

Consentino lembra que dinâmicas locais interferem diretamente nesses números. A presença de uma figura marcante, “puxadora” de votos e com grande poder político ou alguma disputa acirrada são fatores que influenciam. 

Um exemplo é a situação do PT em Pernambuco. O Estado quase dobrou o número de petistas nos últimos três anos, passando de 60 mil para 114 mil e hoje tem a maior concentração estadual do partido no País, com um filiado a cada 100 habitantes. Parte desse movimento de reforço se deve ao desempenho da deputada federal Marília Arraes na disputa com o primo João Campos (PSB) pela prefeitura do Recife, em 2020. Mesmo derrotada nas eleições, ela teve participação no impulsionamento do partido no Estado.

Em números absolutos, a maior movimentação partidária nos últimos três anos foi do PT do Distrito Federal. Eram 19 mil petistas em 2018 e hoje são 30 mil. Os números são bem superiores aos registrados no DF nos mandatos de Lula e Dilma Rousseff. Naqueles anos, a quantidade de filiados se manteve em 9 mil. Graziella Testa, professora da FGV e doutora em ciência política pela USP, considera que a incidência está relacionada a uma adesão de servidores públicos, refletindo as relações entre o funcionalismo e o governo Bolsonaro.

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