Os motivos políticos da guerra: 'a terra não tinha valor'

Mudanças provocadas pela República influenciaram o contexto político regional

Leonencio Nossa e Celso Júnior

11 de fevereiro de 2012 | 18h36

Aldair Goetten de Moraes, sobrinho-bisneto de Elias de Moraes, o comandante-chefe dos rebeldes, afirma que o ataque a Curitibanos teve motivações políticas. Os irmãos Sampaio e Pereira, comerciantes que travavam um duelo pelo controle político e comercial com o coronel Francisco Ferreira de Albuquerque, intendente do município há mais de uma década, teriam convencido os líderes rebeldes de Taquaruçu a invadir a cidade. "Os rebeldes foram induzidos a queimar Curitibanos", afirma.

 

Era uma briga que envolvia também mulher. Um empregado de João Sampaio viu a mulher do chefe com o coronel Albuquerque. Para piorar, o coronel mandou fechar a pequena fábrica de gasosas de Paulino Pereira, alegando que o mesmo não estava selando as bebidas, evitando pagar impostos. Por sua vez, Albuquerque pretendia acabar com o reduto de Taquaruçu, pois seu maior rival no comércio, Praxedes Gomes Damasceno, dominava as vendas para os caboclos de produtos comprados em Curitiba. Os Sampaio e os Pereira convenceram os rebeldes de que Albuquerque planejava a destruição de Taquaruçu.

 

 

"A guerra não teve um motivo, teve vários", avalia Aldair. Ele faz críticas a versões de que o movimento era exclusivamente pela terra. "O problema da terra no Contestado começou muito depois, após o conflito, nos anos 1950, quando as madeireiras avançaram. No pós-Contestado, 168 serrarias passaram a funcionar na região. Antes, não era conflito agrário, porque sobrava terra. A terra não tinha valor", afirma.

 

Ao analisar o perfil dos rebeldes, Aldair descreve o próprio bisavô. Alguns estudos alinhados à esquerda tentaram mostrar que Elias de Moraes era um homem sem renda. O inventário da família, no entanto, mostra que ele tinha propriedades consideráveis para a época, não era um homem pobre. Elias foi um fazendeiro que resolveu seguir o movimento religioso. No início, o objetivo era só o fanatismo religioso. Muitas castas estavam presentes: o fazendeiro, o pequeno sitiante, o homem sem-terra."

 

Ele observa que o contexto político regional, com mudanças no tabuleiro do jogo provocadas pela República deve ser analisado. O caboclo e os homens com alguma posse, acomodados na antiga estrutura, passaram a sofrer problemas econômicos e políticos com a ascensão de novos coronéis. Famílias que viviam há décadas em volta de patriarcas de uma hora para outra tiveram de se ajustar. Havia um clima de extremo ódio em relação a coronéis, homens que faziam política com tiro e sangue. Alguns dos coronéis, conquistaram uma boa imagem em livros.

 

É o caso de Henrique Almeida Filho, o Henriquinho, tratado como "pai dos pobres". De fato, Henrique aparece nos documentos do Exército como fornecedor de alimentos para os redutos. Em telegrama de 3 de janeiro de 1915, o coronel Estillac Leal informa a Setembrino de Carvalho sobre uma suposta relação de Henriquinho com os rebeldes. "Senhor general, o fazendeiro Henrique Almeida, residente em Guarda Mor está fornecendo gêneros aos fanáticos do Taquarussu."

 

Aldair, porém, faz uma ressalva quanto às diferenças nos propósitos dos caboclos e do coronel. Henrique aproveitou o movimento rebelde para se posicionar no jogo político de Curitibanos. "Era um bandido, matava muita gente."

 

As famílias que viviam, há mais de cem anos, nas terras tomadas pela Lumber, não tinham documentos. Não eram muitas. A leva de pessoas retiradas com pedaços de pau pela milícia da empresa era engrossada por trabalhadores da construção da estrada de ferro. Eram homens retirados de prisões do Rio de Janeiro, São Paulo e Santos e que, sem trabalho e sem moradia, não tinha para onde ir. "O pessoal de fora era sem-terra, mas não era agricultor. Era presidiário e trabalhador braçal de grandes cidades."

 

O pesquisador cita uma antiga benzedeira de Curitibanos, Conceição Maciel, já falecida. Ela era remanescente de reduto rebelde. O pai, um ex-combatente gaúcho da Revolução Federalista, ficou perdido na região desde o fim daquela guerra. Esse homem também foi pedir abrigo nas "cidades santas". "Imagine quanta gente da Revolução Federalista ficou extraviada? Era gente que não tinha nada."

 

Aldair também faz críticas a versões oficiais e de grupos políticos de Florianópolis de que os líderes jagunços eram meros criminosos. "Eles (rebeldes) sem dúvida foram demonizados durante a guerra, quando eram chamados de loucos e bobos pelo povo, e depois, quando se contou a história", avalia. Aldair diz que alguns estudiosos querem provar que a revolta não passou de briga política e um movimento messiânico. Outros insistem que o único motivo foi a questão da terra. "Quem escreveu primeira a história foi o Exército, que demonizou todos", ressalta. "A gente que pesquisa porque gosta entende apenas que tem muita coisa para ser explicada."

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