Epitácio Pessoa/Estadão
Casarão da família Almeida Prado sediou a Convenção Republicana, 16 anos antes da Proclamação Epitácio Pessoa/Estadão

Os locais onde a República foi tramada e nasceu

Rio, interior paulista e São Paulo abrigaram personagens que lutaram para dar fim à Monarquia

José Maria Tomazela, Gilberto Amêndola e Caio Sartori, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2019 | 05h00

O movimento pela República envolveu personagens e locais em vários pontos distantes da capital do Império. Como o interior de São Paulo. Dezesseis anos antes de Deodoro proclamar a República na área do Campo de Santana, no Rio de Janeiro, em Itu (SP) era realizada a Convenção Republicana, um dos marcos da luta pelo fim da Monarquia.

O evento ocorreu em um casarão de dois pavimentos. Construído no início do século 19, era residência de Carlos Vasconcelos de Almeida Prado. Passou por reformas, mas mantém a estrutura original, segundo a historiadora Anicleide Zequini, do Museu Convenção de Itu. “A fachada é a mesma que os convencionais viram, com azulejos portugueses na platibanda, as mesmas portas e janelas”, descreve. Adquirido pelo Estado, foi transformado no museu inaugurado em 18 abril de 1923. 

A convenção registrou as presenças de 133 convencionais de 16 cidades paulistas, incluindo a capital. “Mas com certeza foram mais de 200, nem todos registraram presença”, afirma. “Campinas e outras cidades disputaram a realização da convenção, mas a votação feita nos clubes republicanos deu a vitória a Itu”, conta Anicleide. 

O pesquisador e historiador Genaro Campoy Scriptore, que escreve um livro sobre o período, afirma que Campinas esteve no centro do movimento. “Os ideais republicanos se intensificaram a partir da revolução (liberal) de 1842, iniciada em Sorocaba e que se estendeu para outras cidades do interior, principalmente Itu e Campinas. Aqui (Campinas), o padre Diogo Feijó, ex-regente do Império, aderiu ao levante que ficou marcado pelo combate em que ao menos 17 campineiros morreram.”

Segundo o pesquisador, o campineiro Manuel Ferraz de Campos Sales logo assumiu a linha de frente dos republicanos, que tinham em Francisco Quirino dos Santos e seu irmão, João, os doutrinadores liberais. “Era um grupo apoiado pela maçonaria, que incluía Prudente de Moraes e Rangel Pestana, que morou um período em Campinas. Campos Sales formou-se em 1863 na Faculdade de Direito de São Paulo e Prudente era seu colega de turma.”

Com a República, Campos Sales se tornaria o quarto presidente do País e o segundo eleito. Governou de 1898 a 1902 e deixou marcas importantes em sua terra natal. O casarão onde nasceu e morou grande parte da vida, no entanto, foi demolido e em seu lugar ergueu-se um prédio de 12 andares. Mas o Centro de Ciências, Letras e Artes, entidade particular sem fins lucrativos, abriga em suas instalações o Museu de Campos Sales. 

O local, no entanto, foi alvo de ladrões em agosto de 2013: levaram cerca de 100 peças, entre elas documentos originais de Campos Sales, uma carta do imperador chinês Guangxu e um livro com dedicatória sobre a história da dinastia Romanov, doado em sua posse como presidente por Nicolau II, último czar russo. 

Em Piracicaba, a casa onde morou o primeiro presidente civil do Brasil, Prudente José de Moraes Barros (1894-1898), está preservada. Prudente nasceu na vizinha Itu, em outubro de 1841, mas passou 32 anos de sua vida em Piracicaba, onde morreu. 

O casarão com nove cômodos de estilo eclético – do neogótico ao imperial – contrasta com as construções modernas da região. A antiga sala de visitas da família Moraes e Barros virou um espaço para exposições temporárias. O acervo de 12 mil peças aborda a história de Piracicaba, mas o foco principal é a vida de Prudente. Dele, há peças e objetos pessoais. 

Em Rio Claro, viveram personagens importantes do movimento republicano como José Alves de Cerqueira César, Alfredo Ellis, Cândido Valle e Campos Sales. Com o fim da Monarquia, a Praça Matriz da cidade foi rebatizada de Praça da Liberdade e nela foi plantada, exatamente um mês após a proclamação, a Árvore da República. Mas ela secou. “Não deixa de ser simbólico, pois nossa República, aos 130 anos, também precisa ser revigorada”, afirma o jornalista e pesquisador José Roberto Sant’Ana. Para manter a tradição, a prefeitura informou que vai plantar outra árvore no local. 

Da família de Cerqueira César, poucos vestígios restam na cidade. O clube Philarmônica Rioclarense, fundado em 1879, do qual o republicano foi o primeiro presidente, resiste. Mas o prédio clássico da época deu lugar a outro ‘modernoso’. Lá, os cafeicultores se reuniam para tramar contra o imperador, afirma o pesquisador. O Teatro Fênix, onde houve o lançamento do Partido Republicano de Rio Claro, está ocupado por lojas.

Na capital paulista, também é possível encontrar marcos importantes do período. Na Praça da República, cujo o próprio nome dispensa explicações, está o edifício Caetano de Campos, sede da primeira Escola Normal Paulista – e que hoje é sede da Secretaria Estadual da Educação. “Os republicanos, e Caetano de Campos foi um republicano de primeira hora, acreditavam que era pela educação que iriam mudar a sociedade. Para eles, os prédios das escolas deveriam ser verdadeiros templo da civilização”, conta o historiador Diógenes Lawand, do núcleo de memória do Centro de Referência em Educação Mario Covas (CRE Mario Covas). 

Outro marco da República na cidade é a Faculdade de Direito do Largo São Francisco. “Muitos consideram que foi da Faculdade de Direito do Largo São Francisco que partiram os principais movimentos do século 19: o abolicionismo e o movimento republicano. De fato, a faculdade sempre foi um lugar de concentração intelectual, um celeiro de homens públicos”, diz a museóloga Heloisa Barbuy, especialista no acervo da faculdade. 

Em seus bancos, como mencionado, estiveram Campos Sales e Prudente de Moraes. Entre as figuras históricas da faculdade, Heloísa destaca Américo Brasiliense – que já em 1873 presidia a convenção de Itu, que deu início ao movimento republicano em São Paulo. 

Todos esses locais estão conectados a republicanos que contribuíram para que, em 15 de novembro de 1889, o marechal Manuel Deodoro da Fonseca ajudasse a dar fim à Monarquia. Estava doente, de pijama, quando o convocaram para a missão. Foi no Campo de Santana, o epicentro da antiga capital – e, portanto, do País. Da casa em que morava, ao lado da praça, foi de carruagem, puxada a cavalo, ao encontro de militares revoltosos, a cerca de 650 metros de onde estava. Era o início da Proclamação. 

Assim nomeado por causa da antiga Igreja de Sant’Ana, localizada na área em que hoje é a Central do Brasil, o Campo de Santana era onde as coisas aconteciam na cidade: sediou festas e comemorações políticas e militares. Lá, d. Pedro foi aclamado imperador. 

No entorno, a casa de Deodoro foi transformada em Museu Histórico do Exército e expõe peças do marechal. O Palácio do Itamaraty foi sede do governo republicano de 1889 a 1898 e depois, até 1970, abrigou o Ministério das Relações Exteriores. 

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Furtos e expansão urbana ameaçam memória de Campos Sales em Campinas

Casarão onde presidente nasceu deu lugar a prédio; museu em sua homenagem foi assaltado

José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

18 de novembro de 2019 | 05h00

CAMPINAS - Campinas esteve no centro do movimento que derrubou a Monarquia, conta o historiador Genaro Campoy Scriptore, que escreve um livro sobre o período histórico que antecedeu a República. “Os ideais republicanos se intensificaram a partir da revolução de 1842, iniciada em Sorocaba, com a aclamação pelos paulistas de Tobias de Aguiar como presidente da Província. A revolta se estendeu para outras cidades do interior, principalmente Itu e Campinas. Aqui, o padre Diogo Feijó, ex-regente do Império, aderiu ao levante que ficou marcado pelo combate da Venda Grande, em que ao menos 17 campineiros morreram”, conta Scriptore.

Ainda segundo o pesquisador, o campineiro Manuel Ferraz de Campos Sales logo assumiu a linha de frente dos republicanos, que tinham em Francisco Quirino dos Santos e seu irmão, João Quirino, os doutrinadores liberais. “Era um grupo apoiado pela maçonaria, que incluía Prudente de Morais e Rangel Pestana, que morou um período em Campinas. Campos Sales formou-se em 1863 na Faculdade de Direito de São Paulo e Prudente era seu colega de turma.”

Mais tarde, Campos Sales se tornou o quarto presidente da República, o segundo eleito pelo voto direto. Governou o País de 1898 a 1902 e deixou marcas importantes em sua terra natal. Parte de sua memória, no entanto, foi alvo dos ladrões. Uma placa de bronze, na casa em que morou, na esquina da avenida que leva seu nome com a Rua Regente Feijó, foi furtada. Restou uma placa de concreto fazendo referência ao seu nascimento, naquele local.

O casarão onde Campos Sales nasceu e morou grande parte da vida foi demolido e, em seu lugar, ergueu-se um prédio de 12 andares. No térreo, funciona uma loja de acessórios para celulares. A perda maior foi registrada no museu criado para cultuar a memória do ex-presidente. No dia 8 de agosto de 2013, cinco criminosos armados invadiram o Centro de Ciências, Letras e Artes (CCLA), onde funciona o Museu de Campos Sales, renderam funcionários, visitantes e pesquisadores e roubaram peças importantes do acervo. O CCLA é uma entidade cultural particular e sem fins lucrativos.

No roubo, foram levadas cerca de 100 peças, entre elas documentos originais de Campos Sales, uma carta do imperador chinês Guangxu e um livro com dedicatória sobre a história da Dinastia Romanov, doado ao então presidente em sua posse por Nicolau II, último czar russo. Os ladrões levaram, ainda, 11 livros do botânico francês Auguste de Saint-Hilaire, escritos no início do século 19, e a primeira edição de uma obra sobre a flora nacional do também botânico João Barbosa Rodrigues. “Eram dois volumes raríssimos sobre as palmeiras do Brasil. Levaram outras obras raras que foram presentes do próprio Campos Sales para o Centro de Ciências. Ele nos honrou várias vezes. A quadrilha foi presa meses depois, mas as obras de maior valor não foram recuperadas”, diz o presidente do CCLA, Alcides Ladislau Acosta.

O museu guarda objetos pessoais, como a navalha usada por Campos Sales, um retrato em óleo sobre tela pintado por Fernando Piendereck em 1879, quando Sales era vereador na cidade, caricaturas do então presidente publicadas pelo jornal O Malho, fotos de obras em seu mandato, como a construção da ferrovia Madeira-Mamoré, na Amazônia. Em seu acervo ainda há cartas escritas pelo político, o livro com eus discursos e o de sua biografia, escrito por Afonso Arinos. A biblioteca com 150 mil volumes, dezenas deles doados por Campos Sales – muitos com dedicatórias –, fica no mesmo prédio onde funciona também o Museu Carlos Gomes, em homenagem ao músico campineiro. ”

A forte expansão urbana da principal metrópole do interior, com 1,19 milhão de habitantes, cobrou seu preço. Na proclamação, Campinas tinha 33,9 mil moradores, hoje são 1,19 milhão de habitantes. Com o crescimento, muitos símbolos republicanos desapareceram. Mas o monumento a Campos Sales, inaugurado em 1934 no meio do Largo do Rosário, ainda resiste, embora ocupe atualmente um espaço menor. Formado por esculturas de bronze, sendo que uma delas retrata o político sentado. Em 1956, durante reforma do largo pela prefeitura, o monumento foi transferido para uma rotatória, no início da Avenida Campos Sales e base de mármore do monumento, com quase um metro de altura, foi suprimida.

No novo local, um dos pontos mais movimentados do trânsito central, devido à confluência de várias vias, um morador de rua de 62 anos, que “ocupa” aquele espaço e se identificou apenas como Oliveira, diz que faz companhia “ao homem sentado” (Campos Sales).

 

SERVIÇO

MUSEU CAMPOS SALLES – CAMPINAS

Rua Bernardino de Campos, 989, centro.

Aberto de segunda a sexta, das 9 às 12 e das 14 às 17h30.

Entrada gratuita.

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Piracicaba mantém viva memória do ‘filho’ Prudente de Morais

Nascido em Itu, primeiro presidente civil do País tem a história preservada no interior paulista

José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

18 de novembro de 2019 | 05h00

PIRACICABA - Primeiro presidente civil do Brasil, Prudente José de Morais Barros nasceu em Itu (SP), em outubro de 1841, mas passou 32 anos de sua vida em Piracicaba, onde morreu. A cidade mantém viva a memória do político que a adotou como sua. O casarão onde morou, numa esquina da Rua Santo Antônio, no centro, está bem preservado. Tem nove cômodos de estilo eclético – do neogótico ao imperial –, contrastando com as construções modernas da região.

O restauro concluído em 2009 recuperou formas e cores originais da casa térrea. Desde 1957, o imóvel abriga o Museu Histórico e Pedagógico Prudente de Morais. “O prédio é tombado nos três níveis, municipal, estadual e federal. Por isso, tudo nele é original, desde as madeiras das portas, piso e forro até as paredes e o acabamento”, conta o historiador Maurício Beraldo, assistente de ação educativa e programação do museu. Ele conta que a cores originais das paredes, branca, amarela e bordô, foram recuperadas.

A antiga sala de visitas da família Morais e Barros virou um espaço para exposições temporárias. O acervo de 12 mil peças aborda a história de Piracicaba desde os primórdios, mas o foco principal é a vida de Prudente. A frase de cunho próprio, ao lado de um quadro com a foto do ex-presidente, define quem era Prudente de Morais: “Sou prudente no nome, prudente por princípios e prudente por hábito. Sou também prudente, procurando evitar questões pessoais odiosas”. Ao lado, a reprodução de um comentário comum, na época, de que o então presidente era “prudente demais”.

Em outra sala, uma caderneta de anotações originais confirma sua fama de meticuloso e regrado nos atos. Todos os seus gastos eram anotados, desde as despesas de hotel, até a gorjeta dada aos criados. No rol de “despesas miúdas”, o gasto mais elevado, de 1.250 réis, foi despendido na compra de um livro. “Era um homem comedido inclusive financeiramente. Quando estava na Presidência, recusava nomes famosos da alta costura carioca e mandava fazer seus ternos em Piracicaba mesmo. Ele controlava até os gastos dos filhos, assim como a vida escolar e pessoal deles”, conta o historiador.

Na sala de objetos pessoais, estão fotos da sua mulher, Adelaide, e dos dez filhos de Prudente – seis mulheres e quatro homens – um dos filhos, ele teve fora do casamento. O museu guarda em reserva técnica uma coleção com ao menos 60 cartas que Prudente de Morais trocou com a família. “Quando ele estava no Rio, no exercício da Presidência, a mulher e três filhas o acompanharam, mas os demais filhos ficaram em Piracicaba. Assim, ele escrevia cartas com frequência, perguntando da saúde, dos estudos, do comportamento em casa”, conta.

Em uma das cartas, Prudente intrometeu-se no namoro de um dos filhos, por considerar que a senhorita não era adequada para ele. O presidente ameaçou cortar a “mesada” do jovem e o affaire foi rompido. Os símbolos da maçonaria estão presentes em objetos e mimos recebidos pelo republicano, que foi fundador de uma loja maçônica de Piracicaba. Na sala, chama a atenção uma tela a óleo, pintada por Franco de Sá, na qual Prudente é retratado em tamanho natural.

Canudos. O museu reserva uma sala para “reflexão” sobre a Guerra de Canudos, conflito armado ocorrido durante o governo de Prudente. Estão dispostas reproduções de fotos dos combates, uma delas mostrando o cadáver de Antônio Conselheiro, que liderou os sertanejos de Canudos contra as forças federais. As imagens são do Museu da República do Rio de Janeiro e os textos, do livro Os Sertões, de Euclides da Cunha. Um exemplar original da segunda edição do livro faz parte do acervo.

Uma charge a cores dos artistas Andrei Bressan e Marcelo Maiolo mostra o atentado sofrido por Prudente de Morais em novembro de 1897, na comemoração da vitória do Exército contra os revoltosos de Canudos. O presidente recebia as tropas que retornavam da batalha no Arsenal de Guerra, no Rio, quando foi atacado por Marcellino Bispo de Mello. Prudente escapou ileso, mas seu ministro de Guerra, Marechal Bittencourt, faleceu defendendo a vida do presidente. Marcellino foi preso e teria se enforcado na cadeia usando um lençol.

Um dos destaques da casa, o quarto onde Prudente de Morais deu o último suspiro, em 3 de dezembro de 1902, é um ambiente sóbrio. Após deixar a Presidência, em novembro de 1898, Prudente retornou para Piracicaba e foi recebido com festa. Beraldo conta que a saúde de Prudente de Morais estava abalada, o que o obrigou a se afastar do mandato para a retirada cirúrgica de cálculos da bexiga. Já em Piracicaba, em 1901, ele foi diagnosticado com tuberculose. O sobrinho médico, Paulo de Morais Barros, cuidou dele até o fim. Nos instantes finais, Prudente tinha dificuldade com a respiração e pedia: “Mais ar, Paulo! ... Mais ar!” – a frase está estampada em um cartaz, no quarto em que morreu, no dia 3 de dezembro de 1902.

Prudente de Morais também é lembrado em Piracicaba por ter incentivado, juntamente com o irmão Manoel, a criação do Colégio Piracicabano, até hoje uma das principais instituições de ensino da cidade. Os irmãos queriam criar na cidade uma escola nos moldes das norte-americanas. Com o apoio político dos irmãos, a missionária americana Martha Watts abriu as portas da escola metodista em 1881. Logo após a Proclamação da República, Prudente de Morais foi nomeado governador de São Paulo e implantou a reforma do ensino público, tendo como modelo o sistema de ensino do Colégio Piracicabano.

 

MUSEU HISTÓRICO E PEDAGÓGICO PRUDENTE DE MORAES – PIRACICABA

Rua Santo Antonio, 641, centro F.: 19-3422.3069

Aberto de terça a sexta, das 9 às 17, sábados e feriados, das 9 às 14 horas.

Entrada gratuita

 

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    Árvore da República morre, mas outras marcas estão vivas em Rio Claro

    Na cidade do interior paulista, também viveram importantes do movimento republicano

    José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

    18 de novembro de 2019 | 05h00

    RIO CLARO – Em Rio Claro, outra cidade do interior paulista, também viveram personagens importantes do movimento republicano, como José Alves de Cerqueira César, Alfredo Ellis, Cândido Valle e Campos Sales. Com o fim da Monarquia, a Praça Matriz da cidade foi rebatizada de Praça da Liberdade e nela foi plantada, exatamente um mês após a proclamação, a Árvore da República. Mas ela está seca. “Não deixa de ser simbólico, pois nossa República, aos 130 anos, também precisa ser revigorada”, afirma o jornalista e pesquisador José Roberto Sant’Ana. A prefeitura informou que vai plantar outra árvore da mesma espécie no local. 

    Da família de Cerqueira César, poucos vestígios restam na cidade. O clube Philarmônica Rioclarense, fundado em 1879, do qual o republicano foi o primeiro presidente, resiste. Mas o prédio clássico da época deu lugar a outro ‘modernoso’. Lá, os cafeicultores se reuniam para tramar contra o imperador, afirma o pesquisador. “Era o clube mais luxuoso, frequentado pela elite da época, os fazendeiros do café e suas filhas, médicos e profissionais liberais. Era um clube republicano”, diz Sant’Ana.

    Outro marco do período, o Teatro Fênix teve o prédio ocupado por um conjunto de lojas. Ali se deu o lançamento do Partido Republicano de Rio Claro, simultaneamente com o do Rio de Janeiro. “Com o grande prestígio que tinha na região, Cerqueira César conseguiu reunir 200 republicanos para lançar o manifesto do partido. O futuro presidente Campos Sales estava presente”, afirma.

    Na praça, estão os bustos de Siqueira Campos, outro rio-clarense famoso, e do médico republicano Alfredo Ellis. Na base, uma placa informa que Ellis foi pioneiro na libertação dos escravos e propagandista republicano. Ele se formou em medicina nos Estados Unidos e, em 1874, junto com seu sogro e tio, coronel Francisco da Cunha Bueno, abriu a fazenda Santa Eudóxia, a maior produtora de café do Brasil na época.

    Em 1890, já na República, Ellis foi eleito deputado federal para a Câmara Constituinte pelo Partido Republicano Paulista. Anos mais tarde se tornaria senador. O episódio marcante na vida desse republicano foi imortalizado no monumento erguido na Praça da Liberdade, em frente ao atual prédio do Fórum. “Em 1891, quando o Congresso foi fechado pelo Marechal Deodoro, teve início em Rio Claro um levante que almejava simplesmente derrubar o presidente e tomar o poder. Os republicanos daqui se sentiam traídos por Deodoro que, na opinião deles, se tornara um tirano”, relembra Sant’Ana.

    Uma inscrição, com a grafia da época, no granito da base do busto de Ellis faz referência ao acontecimento: “Foi neste logar que no dia 13 de Dezembro de 1891, os republicanos Rio clarenses arriscarao suas vidas para restabellecer a Constituição da República violada a 3 de Novembro de 1891”. Em duas faces do pedestal se lê: “Tudo pela República”. O levante (que também aconteceu na capital federal) resultou na deposição de Deodoro, sucedido na presidência por Floriano Peixoto. Em São Paulo, com a queda do governador Américo Brasiliense, seu vice, o republicano Cerqueira César, assumiu o governo. 

    Em quase 20 anos de atuação como advogado em Rio Claro, Cerqueira César se converteu em importante liderança regional. Foi vereador por três mandatos a partir de 1870 e construiu o alicerce para se tornar depois uma liderança nacional. Ao lado de Prudente de Morais, de Itu, e de Campos Sales, de Campinas, teve papel decisivo no movimento pelo fim da Monarquia no Brasil.

    Advogado pela Faculdade do Largo de São Francisco, turma de 1860, ele montou escritório em Rio Claro e iniciou sua trajetória política naquele ano. Logo o progresso começava a acontecer com a chegada dos imigrantes. “Apesar de os ideais republicanos terem sido cogitados no Rio de Janeiro desde a Independência, e antes disso no Nordeste, sua consolidação política e econômica é originária do interior de São Paulo. Aqui estavam os fazendeiros que sustentavam a economia nacional e queriam direcionar os destinos do País”, afirma o pesquisador.

    Sob a liderança de Cerqueira César, Rio Claro foi a primeira cidade do País a ter maioria republicana na Câmara Municipal. “Ele era um político hábil e admirado pela população. Quando decidiu se mudar para a capital, em 1880, os rio-clarenses fizeram um abaixo-assinado na tentativa de demovê-lo”, diz. Cerqueira César foi presidente da loja maçônica Fraternidade III, que mantinha hospital para atendimento das vítimas da epidemia de varíola que assolou a cidade. Ele também presidiu a OAB local.

    Sant’Ana conta que Rio Claro também teve grandes monarquistas e a cidade era prestigiada pelo imperador Pedro II. “O monarca esteve aqui duas vezes no auge da ebulição do movimento republicano. Na primeira, em 1878, trazia na comitiva nomes importantes do Império e foi recebido pelos governantes da cidade, Cerqueira César e Joaquim Teixeira das Neves.” O imperador se hospedou no casarão de José Estanislau de Oliveira, o visconde de Rio Claro, no centro, que permanece conservado e abriga a pasta municipal da Cultura.

     MUSEU HISTÓRICO AMADOR BUENO DE VEIGA

    Avenida 2, no. 572, centro, Rio Claro. F.: 19-3532.4090.

    Aberto de terça a sexta, das 9h às 17h; sábados e domingos das 9 às 13 horas.

    Entrada gratuita.

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    Sobrado de Itu é ‘documento’ da convenção que enterrou a Monarquia

    Casarão da família Almeida Prado sediou reunião republicana 16 anos antes da Proclamação da República

    José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

    18 de novembro de 2019 | 05h00

    ITU – Um acontecimento marcante da luta republicana aconteceu em Itu: em 18 de abril de 1873, um casarão de dois pavimentos sediou a Convenção Republicana, 16 anos antes do fim o Império. O sobrado, construído no início do século 19, passou por várias reformas, mas mantém a estrutura original, segundo a historiadora Anicleide Zequini, do Museu Convenção de Itu, que hoje funciona no lugar. Ele é uma extensão do Museu Paulista, da Universidade de São Paulo (USP).

    “A fachada é a mesma que os convencionais viram, com azulejos portugueses na platibanda, as mesmas portas e janelas, embora pudesse haver uma segunda porta de entrada”, diz. O museu foi inaugurado em dia 18 de abril de 1923, 50 anos após a reunião republicana, com a proposta de ser um memorial da República. Antes de ser adquirida pelo Estado, a casa pertencia à família Almeida Prado e era usada como residência por Carlos Vasconcelos de Almeida Prado.

    Os registros mostram que 133 pessoas de 16 cidades paulistas, incluindo a capital, participaram do evento, mas a historiadora acredita que eram mais. “Com certeza foram mais de 200, mas nem todos fizeram o registro da presença”, afirma Anicleide. Segundo ela, a maioria dos convencionais, se não morava na cidade, tinha laços familiares com Itu. “Campinas e outras cidades disputaram a realização da convenção, mas a votação realizada nos clubes republicanos deu a vitória a Itu.” 

    A pesquisadora revela que o mobiliário não é o da época. O historiador Afonso de Taunay planejou a sala da convenção para mostrar aos visitantes como vivia uma família rica no século 19. “Ele comprou os móveis de um professor local, e montou um cenário muito próximo do que seria o casarão dos Almeida Prado.” São 15 cadeiras, uma poltrona, um piano, dois gabinetes e uma mesa de centro. Nas paredes, foram fixados os quadros a óleo dos sete convencionais que compuseram a mesa principal.

    A sessão foi presidida por João Tibiriçá Piratininga e secretariada por Américo Brasiliense de Almeida Melo, incumbido de redigir a ata. O mesário foi Francisco de Paula Sousa. Também faziam parte da mesa Francisco Emigdio da Fonseca Pacheco, Ignácio Xavier Paes de Campos Mesquita, Joaquim Saldanha Marinho e José Vasconcellos. 

    A criação de um jornal para ser um órgão do Partido Republicano ocupou parte dos debates. Naquela reunião, João Tibiriçá alegou que “o assunto não era dos que deviam ser votados, por não fazer parte das bases da organização”. Contudo, lembrou ser “de suma importância e grande alcance não se descuidarem os republicanos da imprensa, elemento essencial de propaganda das ideias e princípios, que são professados pelos cidadãos presentes”, conforme a ata. O próprio João Tibiriçá, além de outros convencionais ituanos são considerados fundadores do jornal A Província de São Paulo, atual O Estado de S. Paulo, cuja primeira edição circulou em 4 de janeiro de 1875. 

    A convenção começou às 5 da tarde e terminou 8h30 da noite, conforme registrou o relógio que hoje está no Museu Histórico Nacional, do Rio de Janeiro. “Quando Washington Luís doou o relógio para o museu do Rio, ele informou que havia marcado as horas na convenção de Itu”, diz Anicleide.

    Uma das preciosidades do acervo, a coleção de pinturas de 116 convencionais, está guardada. Os quadros são expostos em revezamento no museu. Taunay requisitou artistas de renome para fazer as pinturas, baseadas em fotos cedidas pelas famílias. Ao menos dois deles foram pintados por Tarsila do Amaral. A historiadora conta que faltaram 16 quadros, porque não se conseguiram as fotografias dos convencionais. As fotos eram reproduzidas fielmente pelos pintores.

    Ao lado da sala principal ficavam os quartos do casarão. Ao conceber a estrutura do museu, Taunay decidiu derrubar as paredes que dividiam os quartos e fazer um único salão grande, dedicado às exposições. Entre móveis e objetos de época, destacam-se telas a óleo de Henrique Manzo e Almeida Junior. 

    Outro destaque, é a sala dedicada a Prudente de Morais, primeiro presidente civil, nascido em Itu. Prudente participou da convenção e teve papel importante na proclamação da República. “Há quem duvide da presença de Prudente na convenção, pois a assinatura dele foi feita com caneta diferente da usada pelos demais. Taunay, no entanto, confirmou que ele esteve no evento, junto com o irmão”, diz Anicleide.

    O livro ata da Convenção e o registro das presenças são outras relíquias do acervo. Segundo Anicleide, a peça documental mais importante da Convenção Republicana é o sobrado onde tudo aconteceu. “Muita coisa da época foi mudada. Quase todas as casas dos convencionais ituanos desapareceram ou se descaracterizaram, como a residência de Elias Lobo, transformada em pizzaria. O prédio da estação, inaugurado na mesma época, foi todo deformado. Já o sobrado dos Almeida Prado continua o mesmo da época, é o documento vivo da história.” 

    Transição do Império para Republica 

    Entre o final do século 18 e as últimas décadas do século 19, o café fez a riqueza de grandes produtores rurais no interior paulista e, por meio deles, deu sustentação política ao Império. Nesse período, surgiram os “barões do café”, expressão usada pelos historiadores para designar, não apenas os grandes cafeicultores, mas também senhores de engenho e donos de grandes fortunas, que recebiam títulos de nobreza do imperador como garantia de apoio e fidelidade.

    No quarto final do século 19, muitos desses fazendeiros se tornaram críticos da Monarquia, por considerar o regime excessivamente conservador. “A Monarquia dava passos de forma muito lenta, desagradando os fazendeiros”, conta o historiador Genaro Campoy Scriptore. “Os produtores (de café) queriam ferrovias, mas a Monarquia tardava a atender, então a iniciativa privada tomou a frente, fez as ferrovias e apoiou os movimentos pela República.”

    Registros importantes dessa mudança aconteceram em Itu. Em 17 de março de 1823, a cidade recebeu de d. Pedro I o título de “A Fidelíssima”, pelo apoio à Monarquia. Uma placa, na fachada de um casarão da Praça Padre Miguel, marca o local onde a moção de apoio foi assinada. Meio século depois, a cidade sediou a grande convenção a favor da República. Cinco anos antes da queda do Império, em novembro de 1884, o imperador Pedro II foi a Itu e se hospedou, com a família imperial, no casarão da família Caselli, outro marco histórico.

    Nos primeiros anos da República, muitos fazendeiros resistiram ao novo regime. “Meus antepassados eram monarquistas e, enquanto outros fazendeiros da região estavam descontentes, eles continuavam fiéis ao imperador”, conta João Pacheco, proprietário da antiga Fazenda Engenho Grande, atual Chácara do Rosário, em Itu. A propriedade está com a família há sete gerações. “Foi comprada pelo meu ‘setimavô’, Antonio Pacheco da Silva, em maio de 1756. Ele era descendente dos bandeirantes e aplicou em terras o dinheiro nas minas”, diz.

    De acordo com Pacheco, outros descendentes se tornaram republicanos. É o caso dos donos da Fazenda Vassoural, que atualmente pertence a Maria Mercedes Pacheco Vergueiro da Silva e seu marido, Gilberto Vergueiro da Silva. “Meu avô, Sérvulo Correia Pacheco e Silva, era republicano e fazia reuniões em casa. Ele dizia para minha avó: ‘Marina, vamos servir almoço para 100 pessoas’. Ela corria ao terreiro para matar galinhas, porcos, e saía um banquete.”

    A Chácara do Rosário é tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).  

    MUSEU REPUBLICANO CONVENÇÃO DE ITU

    Rua Barão do Itaim, 67, centro histórico F.: (11) 4023.2525

    Aberto de terça a domingo, das 10 às 17 horas

    Entrada gratuita  

    CHÁCARA DO ROSÁRIO – ITU

    Rod. Convenção Republicana, km 1,5 F. (11) 99607.7483

    Eventos, visitas e passeios a cavalos sob consulta.

     

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    São Paulo também guarda memória da Proclamação da República

    Embora interior do Estado e Rio de Janeiro guardem as relíquias do período, capital paulista também tem marcos e curiosidades

    Gilberto Amendola, O Estado de S. Paulo

    18 de novembro de 2019 | 05h00

    SÃO PAULO - Nem só de nome de rua vive a memória da cidade de São Paulo em relação à Proclamação da República. Embora o interior do Estado e o Rio de Janeiro guardem as relíquias mais representativas, também é possível encontrar marcos importantes e curiosidades do período por aqui.

    É na Praça da República, por exemplo, cujo o próprio nome dispensa explicações, que está o edifício Caetano de Campos, sede da primeira Escola Normal Paulista – e que hoje é sede da Secretaria Estadual da Educação. “Os republicanos, e Caetano de Campos foi um republicano de primeira hora, acreditavam que era pela educação que iriam mudar a sociedade. Para eles, o prédio das escolas deveriam ser verdadeiros templo da civilização”, conta o historiador Diógenes Lawand, do núcleo de memória do Centro de Referência em Educação Mario Covas (CRE Mario Covas).

    “O prédio foi planejado no local em que seria construída pelo Império a Catedral de São Paulo. Chegando ao poder, os republicanos decidiram usar o dinheiro destinado à catedral para a construção de uma escola”, completou Lawand.

    O edifício Caetano de Campos foi inaugurado em 2 de agosto de 1894. O projeto foi autorizado em 1890 por meio de um decreto assinado pelo então presidente da Província, Prudente de Moraes. A construção do prédio foi iniciada pelo então Superintendente de Obras Públicas, Antonio Francisco de Paula Souza, e concluída pelo arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo – que seguiu um estilo arquitetônico neoclássico. Foi também nesse período que a Escola Normal passou a ser conhecida por Caetano de Campos, em uma homenagem ao seu diretor. Apesar de sua enorme importância histórica, o prédio quase foi demolido no final da década de 1970, para a implantação da linha Leste-Oeste do metrô.

    Outro marco da República na cidade é a Faculdade de Direito do Largo São Francisco. “Muitos consideram que foi da Faculdade de Direito do Largo São Francisco que partiram os principais movimentos do século 19: o abolicionismo e o movimento republicano. De fato, essa faculdade sempre foi um lugar de concentração intelectual, um celeiro de homens públicos”, contou a museóloga Heloisa Barbuy, especialista no acervo da faculdade.

    Entre as figuras históricas da faculdade, Heloísa destaca Américo Brasiliense – que já em 1873 participava a convenção de Itu, que deu início ao movimento republicano em São Paulo. Existe um retrato dele na galeria de retratos da Faculdade de Direito.

    Além dele, o Barão do Rio Branco (embora fosse uma figura do Império, teve atuação destacada no período republicano) e Rui Barbosa também são homenageados com bustos no salão nobre da faculdade. Barbosa, aliás, também está representado em uma pintura dentro do gabinete do diretor. O poeta Olavo Bilac, que não foi um aluno formal da faculdade, mas frequentou seus corredores por dois anos, tornou-se uma espécie de herói para os alunos (devido, entre outras coisas, aos seus discursos apaixonados em defesa da República). Em 1922, foi homenageado com o monumento Beijo Eterno (criação do escultor sueco William Zadig).

    Curiosidades. Arquivos históricos da cidade também guardam algumas curiosidades sobre o período. No acervo do Museu Paulista (USP), localizado nas proximidades do Parque da Independência, é possível encontrar um bilhete trocado entre dois possíveis amigos, enviado exatamente no dia da Proclamação da República. Neste bilhete, um interlocutor se oferece para pagar um almoço ao amigo, um “almoço pela República”.

    Ainda no arquivo do Museu Paulista é possível encontrar uma espécie de cartaz com a esfinge de todo Legislativo e Executivo do início da República – bem como um retrato da direção do Partido Republicano de São Paulo.

    No Arquivo Público do Estado de São Paulo existem outras curiosidade do período, como um documento enviado por um grupo de portugueses demonstrando apoio à Proclamação da República. Além disso, encontra-se no arquivo a ata de uma reunião entre as principais figuras da movimento republicano, realizada poucos dias após a Proclamação.

    Existem também muitos ofícios, tanto de órgãos públicos quanto de municípios, empenhando apoio ao novo regime. Além de documentos demonstrando o preenchimento da máquina pública nos anos posteriores à proclamação.

    Os acervos do Museu Paulista e do Estado são abertos ao público e podem ser consultados mediante agendamento. 

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      Campo de Santana, a área onde a República veio à luz na antiga capital

      Espaço no então epicentro do Rio de Janeiro foi palco da Proclamação há 130 anos

      Caio Sartori, O Estado de S.Paulo

      18 de novembro de 2019 | 05h00

      RIO – Sem ar e meio sem querer, o marechal Deodoro da Fonseca, então comandante do Exército, deu início à Proclamação da República há 130 anos. Estava doente, de pijama, quando o convocaram para a missão. Foi no Campo de Santana, no Rio de Janeiro, o epicentro da antiga capital – e, portanto, do País. Da casa em que morava, ao lado da praça, foi de carruagem, puxada a cavalo, ao encontro de militares revoltosos que estavam reunidos onde hoje fica a Companhia Estadual de Gás, a cerca de 650 metros.

      Partiram, então, para o Quartel General do Exército (hoje Comando Militar do Leste), distante 550 metros. Ali se reunia o gabinete ministerial que representava a Corte, liderado pelo primeiro-ministro Afonso Celso de Assis Figueiredo, o visconde de Ouro Preto. Todos foram presos.

      Deodoro não era um republicano convicto, militante. Militar de 62 anos de idade à época, cultivara uma forte relação com o Império. Comandou tropas na Guerra do Paraguai e era querido pelo imperador d. Pedro II e por monarquistas.

      “Ele serviu muitos anos ao Império, então não conseguiu fazer essa ruptura que os jovens coronéis e os capitães fizeram com mais facilidade”, diz o historiador Nireu Cavalcanti. “Mas ele tinha uma característica que os republicanos também tinham: era um abolicionista.” 

      Sancionada em maio do ano anterior, 1888, a Lei Áurea foi primordial para os anseios republicanos. Uma vez abolida a escravatura, derrubar o Império era visto como um passo natural. A chamada Questão Militar, uma série de insatisfações dos militares no contexto pós-Guerra do Paraguai, também fez com que crescesse no Exército o desejo de derrubar o Império – ou, pelo menos, o gabinete que o representava naquele momento.

      Especialista em história militar, o coronel e historiador Antonio Ferreira Sobrinho ressalta que todos esses fatores – a Questão Militar, a abolição e o “panorama econômico” – foram mais decisivos para convencer Deodoro do que os ideais. A principal figura para cooptá-lo, diz, foi o também militar Benjamin Constant Botelho de Magalhães, republicano dos mais entusiasmados.

      “Benjamin Constant encarnava essa situação da ala mais jovem do Exército. Além de ser um republicano por natureza, era positivista. Tinha, vamos dizer assim, uma visão diferente da que estava vigente na época. Ele consegue trazer Deodoro para o lado dos republicanos”, diz o coronel Ferreira. Segundo ele, os republicanos até podiam dar o golpe por conta própria, sem o beneplácito do comandante do Exército. A fim de evitar quebra de hierarquia, contudo, convocam Deodoro para dar mais legitimidade ao movimento. 

      Além de Constant, outras figuras são centrais para compreender a Proclamação e o início da República. Do âmbito civil, Rui Barbosa talvez seja hoje a face mais conhecida do republicanismo. Já de dentro do governo, outro marechal, Floriano Peixoto, também tem papel crucial. Como ministro da Guerra do último gabinete do Império, facilitou a ascensão da República e dela virou um adepto. 

      Esses dois nomes, inclusive, antagonizaram dali a alguns anos, o que expõe a diversidade daquela espécie de concertação de 1889.

      Quando Floriano vira presidente – o primeiro após Deodoro, em 1891–, radicaliza e decreta estado de sítio. Tomou a iniciativa depois de ter tentado restabelecer a ordem republicana em oposição a outro estado de sítio, decretado pelo antecessor. O período de Deodoro e Floriano, na prática uma ditadura militar republicana, ficou conhecida como República da Espada.

      Rui Barbosa, profissional do direito, entra com habeas corpus paradigmático em favor de congressistas e outros cidadãos que haviam sido indiciados e presos por supostamente conspirar contra o governo. Apesar de negado por dez votos a um, o HC 300 é tido como um marco desse instrumento jurídico e da defesa dos direitos constitucionais. 

      Não demorou muito, uma vez erigida a República, para que houvesse o rompimento entre as diferentes alas que apoiaram a derrubada do Império.

      “Depois da Proclamação, Deodoro rompe com Constant, porque Constant colide com aquilo que ele pensava a respeito do Exército. Constant apresenta a proposta de um Exército mais voltado para o bacharelismo, o conhecimento científico. Para a paz. Contrariava a crença do proclamador da República”, diz o coronel Ferreira. 

      Campo de Santana

      Assim nomeado por causa da antiga Igreja de Sant’Ana, localizada na área em que hoje é a Central do Brasil, o Campo de Santana era onde as coisas aconteciam na cidade, que ainda estava longe da expansão que se deu no século 20. Antes da Proclamação da República, a praça – que era maior que a atual – sediou festas e comemorações políticas e militares.

      Ali, dom Pedro I foi aclamado imperador, dando ao local o nome de Campo da Aclamação. A Guerra do Paraguai, episódio importante para o desgaste do Império e o crescimento do ideário republicano, também acarretou celebrações na praça. 

      Na região, houve a construção de diversos edifícios cruciais para o Poder. Entre eles o Palácio do Conde dos Arcos, sede da Faculdade Nacional de Direito, que por cerca de um século abrigou o Senado. Em 1811, ergueu-se ali o Quartel-General do Exército, no espaço em que hoje está o imponente Palácio Duque de Caxias, sede do Comando Militar do Leste. 

      Também no entorno da praça subiram a Casa da Moeda (atual Arquivo Nacional), a Prefeitura, a antiga Câmara dos Vereadores e a casa em que morou Deodoro, que pertencia ao Exército e servia de residência para seu comandante. Outro palácio fundamental para a República que se instalava é o do Itamaraty. Foi sede do governo republicano até 1898 e depois, até 1970, sediou o Ministério das Relações Exteriores. 

      “Quando se fez a independência, em 1822, o campo era consagrado como o espaço da festa, pelas dimensões. Então os republicanos e os abolicionistas usaram de uma forma muito intensa o Campo de Santana”, conta Nireu Cavalcanti, que também é arquiteto. 

      O campo hoje tem as ruas do seu entorno batizadas de Praça da República. Um monumento a Benjamin Constant se destaca entre as construções que estão dentro da área verde. O local, porém, está longe de ser um espaço visitado pelos cariocas com o intuito de resgatar a memória da República. É mais conhecido pelo abandono. Cutias, gatos e outros animais de espécies variadas estão por toda parte. Os lagos são mal cuidados, assim como os bancos e monumentos, alguns deles pichados. É comum ver população em situação de rua dormindo no gramado.

      Apesar de ter cerca de 155 mil metros quadrados atualmente, a praça já foi maior. A construção da Avenida Presidente Vargas, na década de 1940, simbolizou a imagem de “progresso” que o Estado Novo tentava passar. Para que a via pudesse cortar o Centro da cidade, foi amputada antes uma parte considerável da área verde. Foi criada assim uma divisão entre o que restou dela e os atuais prédios da Central do Brasil e do Palácio Duque de Caxias, na frente do qual foi construído um jardim.  

      Um roteiro da Proclamação da República no Rio 

      1) Casa Histórica de Deodoro (onde morava o marechal)

      Praça da República, 197 - Centro 

      2) Campo de Santana (ex-Campo da Aclamação)

      Praça da República, sem número - Centro 

      3) Comando Militar do Leste (constituído onde ficava o Comando do Exército no Império)

      Praça Duque de Caxias, 25 - Centro 

      4) Palácio do Itamaraty (sede do governo republicano de 1889 a 1898)

      Avenida Marechal Floriano, 196 - Centro 

      5) Quinta da Boa Vista (onde ficava o Palácio de São Cristóvão, sede do Museu Nacional destruído por um incêndio em 2018; ali era a residência do imperador e funcionou a Constituinte de 1891).

      Avenida Pedro II, s/número - São Cristóvão (o Palácio está em obras) 

      6) Museu Casa de Benjamin Constant (antiga residência do militar positivista, está fechada para visitação)

      Rua Monte Alegre, 255 - Santa Teresa 

      7) Igreja Positivista do Brasil (centro de difusão do positivismo)

      Rua Benjamin Constant, 74 - Glória

      (Atualmente fechada para visitas)

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