Os infiéis na balança

Trata-se de uma imprecisão, para não dizer uma injustiça mesmo, atribuir exclusivamente aos 12 senadores do PT o peso da responsabilidade pela condenação ou absolvição do presidente do Senado, Renan Calheiros, na próxima quarta-feira.Ali, na sessão "protegida" pelo sigilo, uma dúzia só não fará verão. Os petistas são 12, mas os democratas são 17 e os tucanos, 13. O PMDB tem 19 senadores, o PTB seis, o PDT quatro, o PR três, o PP, o PRB e o PC do B, um senador cada.Somados todos os partidos, tirando o PT e o PMDB - já descontados os votos abertos pelos pemedebistas rebeldes Pedro Simon e Jarbas Vasconcelos - seriam 63 votos em tese suficientes para absolver ou condenar o presidente do Senado.Nesse plantel, há de tudo: gente convicta, gente dependente da direção dos ventos, gente que morde em público e assopra no particular. Nesse quadro, jogar nos ombros do PT a pecha de fiel da balança corresponde a subtrair dos outros uma responsabilidade que eles realmente têm, mas não querem assumir.Amigos de Renan Calheiros há em todos os partidos. A maioria, inclusive, se mantém calada até agora. Alguns "acusados" de votar a favor da absolvição sentiram-se na obrigação de declarar voto contra.Mas, sendo a votação secreta e a sessão sigilosa, não se poderá conferir quem joga na convicção ou quem evolui só para deleite da arquibancada.Quando se põe o PT na berlinda, fala-se de 12 votos que podem ser importantes, mas não necessariamente decisivos. Há defecções na oposição e, para confirmar, basta ver que, dos 30 senadores do Democratas e do PSDB, não passam de meia dúzia, em cada um dos partidos, os que já externaram opinião.Os infiéis a serem postos na balança extrapolam em muito a bancada petista. Não que esta não deva ser cobrada, pois não se sabe até agora se seus três senadores que votaram pela cassação no Conselho de Ética representavam de fato a posição do partido ou se buscavam prestar um serviço momentâneo a um PT eticamente desgastado pela decisão do Supremo Tribunal Federal na semana anterior de processar próceres petistas por corrupção.Mas, quando se põe o foco apenas sobre o PT, é grande o risco de se prestar um grande serviço a senadores cuja motivação para absolver não seria nem governamental nem partidária. Guardaria relação apenas com razões pessoais, cuja natureza real é, e permanecerá, de todos desconhecida.O grande problema da sessão secreta reside aí: sem o cotejo dos prós e dos contras, os senadores podem se escorar no sigilo do painel e na inexistência de tribuna para não se manifestar publicamente e atender suas conveniências individuais como bem lhes aprouver.Apoiados no regimento que eles mesmos aprovaram, podem fazer o que quiserem. Absolver ou condenar. Só não podem pretender transferir essa responsabilidade a 12 senadores num colegiado composto por 81.Lições do abismoO PT firma profissão de fé na democracia, mas na hora de aprender não vai buscar lições no mundo democrático.Amanhã, uma delegação de 11 petistas embarca para Pequim com o intuito de saber como o Partido Comunista Chinês - vale dizer, o único da China - faz sua política de filiação e comunicação."É um investimento político", diz o secretário de Relações Internacionais do PT, Valter Pomar. Donde resta saber no que investem os petistas e aonde pretendem chegar ao buscar aprendizado em partido totalitário.É uma tentativa inútil de importação de tecnologia, dadas as diferenças de realidades entre Brasil e China.Algo parecido já foi ensaiado no primeiro mandato de Lula. Sob o patrocínio do então chefe da Casa Civil, José Dirceu, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) quis importar o know-how na polícia política de Cuba, mandando agentes brasileiros para treinamento em Havana a fim de importar o sistema.Divulgado, o plano foi de imediato arquivado.Agora, como a viagem dos petistas à China é, ao que se sabe, custeada pelo partido, problema dos filiados do PT e da atração fatal de seus dirigentes por governos autoritários.TarôPouco antes de deixar o ministério da Agricultura, em 2006, Roberto Rodrigues disse a um grupo de jornalistas que a elevação dos índices de inflação estava contratada para 2008 por causa do aumento no preço dos alimentos. Na verdade, falava em "volta" da inflação.À época, a previsão se confundiu com as pesadas críticas que o então ministro fez à visão do governo sobre o setor - um misto de preconceito ideológico, ignorância e incompetência - e deu margem à interpretação de que poderiam ser apenas fruto de uma irritação funcional.Agora, a alta nos alimentos fez a inflação dobrar em agosto. O que não confirma, mas sinaliza na direção do previsto pelo então ministro da Agricultura.

Dora Kramer, dora.kramer@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

07 Setembro 2008 | 00h00

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