Os falsos filhos de Bolívar

No grandioso esquema bolivariano de Chávez, que repete antigas trilhas autoritárias, não está claro o papel do Brasil

Marcos de Azambuja

09 de agosto de 2010 | 00h04

Karl Marx, redivivo, talvez não fosse hoje "marxista". É possível imaginar que Simon Bolívar também não coubesse nem se sentisse confortável em nossos dias no molde de um militante "bolivariano". No dia 17 de dezembro de 1830, em uma casa de fazenda em Santa Marta, morria "El Libertador" - o primeiro, o original, verdadeiramente o único. Embora San Martín, com menores merecimentos, houvesse também sido ungido com igual título, faltava ao sóbrio argentino o sentido de teatro e história e o carisma extraordinário do venezuelano.

 

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Sua última e relutante viagem a caminho do exílio é um estudo em desilusão e amargura. Garcia Marques escreve sobre ela uma de suas melhores narrativas. As cartas finais de Bolívar são o testamento de sua decepção com o futuro que antevia para a América espanhola que havia ajudado a desconstruir e não pudera (ou soubera) reconstruir de acordo com sua grande visão de uma América Latina unida e integrada e - aí residia um dos maiores obstáculos - com ele como seu ditador.

 

Se voltasse hoje - 180 anos depois - e se visse refém do projeto político de Hugo Chávez, é agradável presumir que o libertador não iria permitir que seu nome, seus ideais e seus grandiosos projetos pudessem ser apropriados, nas novas e inteiramente diversas circunstâncias do começo do século 21, para definir e rotular um projeto que não seria o seu.

 

Bolívar é, acima de tudo, o herói em sua definição romântica e poderia ter saído da obra de Byron - que, incidentalmente, era um ardente admirador e deu mesmo seu nome ao barco que o levou em sua última viagem pelas costas da Europa.

 

É também fácil associar Bolívar a Garibaldi, com quem compartilha importantes traços de identidade. Foi um homem de seu tempo e um admirador do Napoleão da primeira fase e a cuja coroação como imperador assistiu em 1804. Não é fácil imaginar um cidadão do mundo formado no espírito de Rousseau, de Voltaire, admirador da revolução americana e do modelo constitucional britânico reduzido ao sectarismo das teses hoje defendidas pelo governo de Caracas.

 

Há vários Bolívar embrulhados em um só. Há o jovem aristocrata criollo ferozmente anti-espanhol; há o profeta que jura libertar a América com Roma a seus pés; há o homem de ação das várias campanhas militares; há o estadista dos manifestos de Angostura e de Cartagena e há o homem de reflexão da Carta da Jamaica. Há ainda o amante da destemida Manuela Saenz (que ele próprio havia definido como "La libertadora Del Libertador") - ele, o Don Juan de muitas outras escapadas na Nova Granada e em diversos leitos e paragens.

 

Se Byron era um seu admirador, Marx foi um crítico severo pelo que se depreende do artigo que, sobre Bolívar, escreveu para The New American Encyclopedia em 1858. Para Marx revolução era coisa séria, a ser perseguida com rigor, método e disciplina. O impulsivo caudilho não era, certamente para Marx, o tipo de líder que a revolução reclamava. O que salva Bolívar da vala comum do autoritarismo dos cavalarianos de sua época é exatamente a riqueza de seu mundo interior e as surpresas e os paradoxos do seu espírito.

 

Não vou levar mais longe este exercício hipotético sobre como o Bolívar histórico teria reagido à apropriação de seu nome para legitimar um suspeito projeto político atual. Alguns dos ingredientes básicos do modelo "bolivariano" de Hugo Chávez não são, certamente, originais e podem ser encontrados em outros movimentos latino-americanos: no justicialismo argentino; no aprismo e nos que trilharam o Sendero Luminoso peruano; nos Montoneros dos pampas e nos Tupamaros uruguaios; nos sandinistas da Nicarágua e nos seguidores de Farabundo Martí ou de José Martí em Salvador e Cuba. A lista pode se alongar e acabaríamos juntando, na busca da recriação de "La Pátria Grande", berço natural dessa latino-americanidade visionária, Bolívar e Ernesto Guevara - este, seguramente, a versão acabada do herói romântico do nosso tempo.

Com algumas diferenças naturais de época ou contexto nacional, muitos dos ingredientes de cada movimento parecem retirados do mesmo bloco de sentimentos populistas, autoritários e socialistas latino-americanos. Dependendo da época, o dragão externo é a Espanha, ou a Inglaterra ou os EUA. Os vilões internos são ou as forças armadas, uma oligarquia corrupta ou latifundiários brutais. No mais das vezes, todos juntos. É difícil ir contra a retórica "bolivariana". As palavras são sempre candentes; as promessas generosas; os erros do passado sempre odiosos; a exploração dos pobres, cruel e insensível. Como ser contra cada manifesto que traz a promessa de que desta vez a história será diferente?

 

O grande engano de cada impulso "bolivariano" - de que o "chavismo" é a mais recente versão - é que, em seu nome, se cometem os mesmos erros e se trilha o mesmo caminho de experiências fracassadas anteriores: renova-se a esperança da salvação pela espada e pela inspiração do herói; promete-se mais liberdade futura ao limitar a liberdade atual; insiste-se no desprezo pela construção paciente de um edifício social e econômico onde os erros venham a ser gradualmente corrigidos. Traçam uma linha irreconciliável entre amigos e inimigos e na há espaço para matizes e qualificações. Subestimam e desqualificam os que não estão na mesma onda de fervor e militância.

 

Sobre o Brasil e nosso lugar nesse grandiloquente esquema, há quase sempre um constrangido silêncio. Desde o início não somos vistos como parte da família a ser reagrupada; nossa opção inicial, monárquica e escravocrata e a consolidação - com a Independência - de nossos imensos espaços e da nossa unidade nos faz alheios ao esforço por reunificação e restauração que animava os principais atores da América espanhola fragmentada.

 

Não falamos - literal e metaforicamente - a mesma língua. Enquanto eles se insurgiam contra o império distante, o Rio de Janeiro, com a chegada da Côrte portuguesa, passava a ser, nos trópicos, a capital de um império.

 

O nosso foi um outro caminho. Menos retumbante mas, talvez, mais sensato na busca das formas mais justas e representativas de organização política e social. Tivemos mais sorte que eles e uma dose maior de juízo.

 

Ao procurar separar Simon Bolívar do projeto de Hugo Chávez devo reconhecer que, em pelo menos um ponto, El Libertador foi um legítimo precursor do que hoje se faz em Caracas. Quis também a presidência vitalícia, da qual acabou afastado pela inexorável força da natureza das coisas.

 

Seria confortador pensar que, depois de 180 anos de reflexão na quietude do túmulo, Bolívar se tenha convertido ao reconhecimento de que democracia é também alternância das pessoas e dos partidos no poder - o que provoca a oxigenação e a regeneração que só acontecem quando novos atores chegam ao centro do palco.

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