Capítulo 12

Os Bolsonaros e o pior dos regimes

Tuíte de Carlos levanta dúvidas sobre compromisso democrático da familia, que deve carreiras politicas de sucesso à democracia

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2019 | 21h00

Caro leitor,

Uma frase atribuída a Winston Churchill (1874-1965) aponta a democracia como o pior dos regimes – excetuados todos os outros. Há dias, o Zero Dois Carlos Bolsonaro esqueceu a segunda parte desse aforismo e bramou no Twitter contra as “vias democráticas” como caminho para as mudanças que prega (e não detalhou). Foi injusto.

Sem a democracia, nem Carlos, nem seus irmãos (o Zero Um, o senador Flávio Bolsonaro, e o Zero Três, deputado Eduardo Bolsonaro), nem seu pai, o presidente Jair Bolsonaro, teriam chegado aonde estão na vida pública brasileira. Suas carreiras políticas ocorreram sob as instituições democráticas que o vereador, agora licenciado, atacou, e que Bolsonaro, o Velho, jurou defender, na posse. Mais: seus direitos têm sido garantidos pela democracia.

Veja-se o caso do Zero Um. Até algumas semanas, passava aperto com o caso Fabrício Queiroz. Agora, depois que o enrolado ex-assessor reapareceu e a investigação foi suspensa por ordem do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli,

Flávio está tranquilo. A democracia, que garante a independência do Judiciário, protegeu-lhe os direitos – como em tese faz com todos os cidadãos brasileiros. E o agradecido Flávio agora se dedica a – para desgosto dos apoiadores mais radicais, que gostariam de enquadrar juízes – convencer colegas do Senado a retirar apoios à CPI do Lava Toga. Também é da democracia. CPIs e a luta para que sejam ou não instaladas também são parte do regime democrático, gostemos ou não.

O próprio Bolsonaro pai foi muito beneficiado pela democracia – embora em seus discursos prefira falar genericamente em “liberdade”, palavra perigosa da direita à esquerda. Três décadas atrás, foi a Justiça democrática que o livrou do processo da Operação Beco Sem Saída, no qual era acusado de planejar plantar bombas em quartéis para protestar contra os baixos soldos. Foi ainda a democracia do voto que lhe deu sucessivos mandatos no Legislativo, primeiro municipal, depois federal. Também foi o regime democrático que lhe deu a Presidência da República.

É ainda a incômoda democracia que permite ao Zero Três – o mesmo que disse que, para fechar o Senado, bastariam um cabo e um soldado – ter seu nome submetido ao Senado como possível embaixador em Washington. Paradoxalmente, dá ao Zero Dois o direito de… criticar a própria democracia e criticar … as críticas que recebeu.

Nesse cenário, o tuíte de Carlos, alvo de críticas na Câmara, no Senado e em outras instâncias, inclusive neste editorial do Estado, somou-se ao estoque de declarações e atitudes da família  no governo iniciado em 1 de janeiro passado. A política-espetáculo do presidente e de seus filhos parece precisar criar polêmicas diárias (às vezes, mais de uma por dia), para dominar a cena política e mobilizar seus apoiadores nas redes sociais. 

Esses grupos provocados pela família, porém, às vezes mostram autonomia em relação aos próprios Bolsonaros. Foi o caso da indicação de Augusto Aras, estigmatizado por ser, na visão dessas pessoas, um perigoso “petista”, o que mereceu reação do próprio presidente.

São extremos assim que tornam perigosos ataques à democracia como o de Carlos Bolsonaro. Alguém pode acreditar.

Wilson Tosta

Wilson Tosta

Chefe de Reportagem da Sucursal do Rio de Janeiro.

Graduado em Jornalismo pela UFRJ em 1984, sou mestre em História Comparada pela mesma universidade e trabalho no Estado desde 1998. Acompanhei profissionalmente a política brasileira a partir da primeira eleição presidencial pós-redemocratização, em 1989 – e ainda hoje me surpreendo diariamente.

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