Capítulo 11

Os Bolsonaro, os militares e a guerra ideológica

As palavras são uma arma para Carlos e para Heleno; ambos são os guerreiros do bolsonarismo no poder

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2019 | 11h01

Ao se despedir do Comando Militar do Sudeste para assumir a Secretaria de Governo, o general Luiz Eduardo Ramos lembrou ao presidente Jair Bolsonaro um provérbio popular entre os paraquedistas: aves de mesma plumagem voam juntas. Ramos se referia à quantidade de veteranos paraquedistas no Planalto. E os enumerou: o presidente, o vice Hamilton Mourão, Augusto Heleno (GSI) e Fernando Azevedo e Silva (Defesa). E completou: “Águia não voa com coruja”.    

O novo ministro será, no entanto, uma avis rara no Planalto e no bolsonarismo. Tem o sorriso fácil e o ouvido atento. É aberto ao diálogo e sua cordialidade contrasta com o mau humor e as paixões desmedidas que devoram alguns expoentes da base de apoio do governo. É a chance de o governo sair do imobilismo que lhe foi ditado pela guerra ideológica, desde que as equipes de transição foram formadas com a disposição de cada uma remar para um lado.

Um desses lados é o de Carlos Bolsonaro, o filho presidente. Na semana passada, ele disse que tem o direito de se queixar quando acredita que a segurança do pai está ameaçada. Compartilhou vídeo no qual questionava a competência do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) em razão da apreensão de 39 quilos de cocaína com o sargento da Aeronáutica Manoel Silva Rodrigues. O militar transportara a droga em avião da Presidência e foi preso na Espanha.

Na visão de Carlos, os militares são um problema no governo de seu pai. Ele vê tentáculos profundos dos generais tentando impedir que seu projeto populista conservador seja posto em prática. Mas o que o general Augusto Heleno e o GSI têm a ver com o caso da droga? Como eles teriam posto em risco a vida do presidente? Carlos não diz. Se tem provas de alguma coisa ou de falhas do GSI, devia exibi-las. Em vez disso, o filho do presidente prefere as insinuações em 140 caracteres com as quais ajuda a desmontar o governo do pai.

O leitor viu aqui que já são dois os ministros que sucumbiram à sua guerra ideológica para limpar o Brasil de tudo o que lhe cheira comunismo, esquerdismo ou que quer que lhe pareça hostil. Carlos é um guerreiro ideológico, mas não o único no governo. A diferença entre ele e Augusto Heleno, o decano dos generais do Planalto, é que o segundo tem formação militar, que é voltada para o senso de dever e o exercício de uma função de Estado.

Ideologicamente, no entanto, Heleno é próximo de Carlos. Ambos são contrários ao Foro de São Paulo, ao MST e ao PT. O general  é assaltado pelo mau humor quando escuta o nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado e preso pela Lava Jato, como aconteceu ao ser questionado sobre o petista ao visitar Israel . Há ainda mais do que simples repúdio às fake news ou desprezo a Lula no murro dado por Heleno ao comentar a “dúvida” do ex-presidente sobre a facada que vitimou Bolsonaro. Há também guerra ideológica.

Em seu discurso no ato em apoio ao ministro Sérgio Moro, o general disse que as previsões sobre o G-20 dos críticos do governo eram coisa de ”esquerdopatas” e “derrotistas”. O linguajar é curioso em um ministro. Ainda mais para um militar que gosta de história, como Heleno – o leitor viu que a monografia dele na Escola de Comando e Estado-Maior é sobre a Guerra do Chaco.

O general certamente sabe o destino dos derrotistas em guerras. Na 2ª Guerra Mundial, por exemplo, diante do avanço alemão para o Volga, Stalin deu uma ordem: nenhum passo atrás. E a NKVD passou a fuzilar os “derrotistas”.  Por fim, se o esquerdismo é uma patologia, qualquer diálogo ou consenso com a oposição se torna, a priori, impossível.

As palavras são uma arma para Carlos e para Heleno. Ambos são os guerreiros do bolsonarismo no poder. O general acredita – assim como o chefe -  que a soberania do Brasil na Amazônia está ameaçada por ONGs e pela atuação de ambientalistas que poderiam apoiar a criação de uma República da Raposa Serra do Sol, um Estado ianomâmi em Roraima.  Mas onde estão as provas dessa ameaça? Ninguém as exibe ou mostra. E, assim, lutando contra seus moinhos de vento, vão juntos o decano do Planalto e o jovem filho do presidente sem perceberem que a fábula aos dois se refere. De fato, as águias não voam com corujas.

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Marcelo Godoy

Marcelo Godoy

Repórter especial

Jornalista formado em 1991, está no Estadão desde 1998. As relações entre o poder Civil e o poder Militar estão na ordem do dia desse repórter, desde que escreveu o livro A Casa da Vovó, prêmios Jabuti (2015) e Sérgio Buarque de Holanda, da Biblioteca Nacional (2015).

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