Orlândia se volta para o ‘desprezado’ deputado Feliciano

Sem muitos votos em sua terra natal, parlamentar agora é recebido por políticos

Ricardo Brandt, enviado especial a Orlândia,

21 Abril 2013 | 22h11

No início de 2012, o deputado Marco Feliciano (PSC-SP) propôs uma lei para tornar sua cidade natal a "capital nacional do futsal" – Orlândia, a 362 km da capital, abriga o atual campeão nacional do futebol de salão e o maior ídolo do esporte, Falcão. Um ano depois, o município de 39 mil habitantes obteve a projeção nacional almejada pelo parlamentar. Não pelos dribles nas quadras, mas pelo arranjo partidário que o levou ao comando da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara. Orlândia e o pastor ainda dão o que falar.

 

As polêmicas resultantes do conflito entre o Feliciano pastor evangélico e o Feliciano presidente de uma comissão laica deram maior projeção política ao deputado, inclusive em sua cidade. O parlamentar obteve em Orlândia 2 mil dos 212 mil votos que fizeram do estreante nas urnas o 12.º deputado mais votado do Estado em 2010. Feliciano saiu sem apoio de grupos locais e até o fim de 2012 queixava-se de não ter sido recebido ou procurado pelo ex-prefeito Rodolfo Meireles (PSDB), mesmo depois de eleito.

 

"Nenhuma liderança política me deu apoio, por isso saí por aí", disse Feliciano em 2012 a uma rádio local, ao explicar por que não havia destinado emendas para a cidade, onde mora com a mulher e três filhas. "Meu mandato veio do meu povo, do povo evangélico."

 

Feliciano recebeu votos em 641 dos 645 municípios paulistas, graças às turnês como pregador e cantor – ele diz ter passado por mais de 1.700 cidades no País. Pela TV, internet e telefone, vende livros (18), CDs (dois) e DVDs (são 350). No início do mandato, postou no Twitter frases que foram consideradas racistas e homofóbicas – e que motivam os protestos contra sua permanência na comissão da Câmara.

 

Catarse. Filho de um relacionamento extraconjugal do pai, Feliciano nasceu em Orlândia em 1972, foi engraxate e coroinha da Igreja Católica aos 8 anos. Converteu-se evangélico aos 11 anos e, aos 16, passou a fazer suas pregações teatrais, carregadas de gritos, choros, saltos no ar e momentos de euforia que provocam catarse coletiva na plateia.

 

Aos 27 anos, passou um período nos Estados Unidos, de onde voltou catedrático em religião. Em 2009, fundou sua igreja, a Catedral do Avivamento, braço da Assembleia de Deus, que tem hoje 15 templos e sede em Orlândia.

 

O valor arrecadado pela igreja não é revelado, mas Feliciano montou negócios a partir dela: a Marco Feliciano Empreendimentos Culturais e Eventos; a Grata Music; a Tempo de Avivamento Empreendimentos; e a Kakeka Comércio Varejista de Brinquedos e Artigos do Vestuário. As três últimas não estariam funcionando, apesar de ativas para a Junta Comercial. Há um pedido de investigação na Corregedoria da Câmara para apurar, entre outras coisas, a omissão de propriedade de duas empresas, a GMF Consórcios e a Cinese (Centro de Inteligência Espiritual) nas declarações à Justiça Eleitoral.

 

No documento apresentado em 2010, o pastor informou ter bens de R$ 634,8 mil. A mansão em que mora com a mulher e as filhas fica num terreno de 600 m², foi declarada por R$ 60 mil, mas, segundo um corretor de Orlândia, vale mais de R$ 500 mil. Em seu nome há outros seis imóveis na cidade e cinco carros.

 

Aproximação. Nem a eleição em 2010 deu a Feliciano o status de liderança política local, mas isso pode mudar agora. "Ele teve votação inexpressiva na cidade, até porque não fazia parte do quadro político local", diz a atual prefeita, Flávia Gomes (PSB). Ao contrário do antecessor, ela tenta se aproximar do deputado.

 

"A cidade precisa de um ginásio para a equipe de futsal, verba para saneamento. Tendo um parlamentar daqui, apesar das divergências políticas, é importante abrir essa porta. Orlândia não recebeu uma emenda por conta dessa divergência", diz Flávia, que em fevereiro recebeu Feliciano em seu gabinete.

 

"Ele sempre foi politicamente um desconhecido em Orlândia. Nunca tinha sido nem candidato a vereador, sumiu e apareceu deputado por causa da igreja", afirma Eduardo Elias, presidente do PSDB local, ex-vereador e funcionário da Intelli, empresa onde Feliciano foi guardinha e dona do time de futsal da cidade. Para a prefeita, mesmo diante das controvérsias, Feliciano terá dividendos políticos em Orlândia. "A cidade é conservadora. Antes ele tinha um apoio muito menor entre os moradores."

 

O cabeleireiro Reginaldo Sousa, de 39 anos, amigo desde os 12, foi levado por Feliciano para a igreja e o chama até hoje de "pai na fé". "Ele está defendendo o que a Bíblia defende, seus votos vão triplicar depois disso. Estão sendo injustos com ele." Foi Reginaldo quem introduziu o alisamento no cabelo estilo black power do deputado. "É piada acusarem o Marco de racismo. A mãe dele é quase mulata."

 

Lúcia Maria Feliciano, de 59 anos, não dá mais entrevistas desde que desmentiu o filho publicamente – Feliciano dissera ser contra o aborto por ter visto "fetos serem arrancados de dentro de mulheres", mas Lúcia nega que ele tenha visto os procedimentos que ela realizava para ganhar a vida. "Isso tudo é coisa dele, meu filho. Não falo mais nada. Se for para ele ficar lá, que fique. Ser for para sair, que saia."

 

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