Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Organizadores de ato em apoio ao Trump em São Paulo são ex-petistas e ex-Passe Livre

Todos os quatro principais da organização são fãs do deputado federal, Jair Bolsonaro (PSC); Chegam a comparar o republicano com ele e Dilma com Hillary

Gilberto Amendola e Marianna Holanda, O Estado de S.Paulo

23 Outubro 2016 | 05h00

"Mas você é descendente de Árabe!”, enfatiza a reportagem como se o advogado Leandro Mohallem, de 26 anos, disso já não soubesse. Na mesma mesa, o estudante de direito Dennis Henrique Possani Heiderich, de 25 anos, toma a palavra e completa: “E eu sou gay...”.

Mohallen e Heiderich são membros do movimento Juntos pelo Brasil e organizadores da manifestação pró-Donald Trump – candidato republicano à Casa Branca conhecido por declarações controversas quanto a minorias –, agendada para o próximo sábado, às 14 horas, na Avenida Paulista. A eleição nos Estados Unidos, que já começou, acaba em 8 de novembro. 

Além deles, fazem parte do núcleo duro do evento, o professor de matemática e dono do site Crítica Nacional, Paulo Enéas, de 52 anos, e o corretor de seguros, membro do grupo Direita São Paulo, Edson Salomão, de 39 anos.

Em junho de 2013, Heiderich e Mohallen participaram das manifestações junto ao Movimento Passe Livre (MPL). Além disso, os dois estiveram próximos ao PT (Heiderich foi filiado). “Me desiludi e deixei o lado negro da força. Hoje sou um conservador. Apoio Trump nos Estados Unidos e Bolsonaro no Brasil”, avisa Heiderich. 

O quarteto, que nunca esteve nos EUA, considera que uma manifestação em São Paulo pode servir de alerta aos norte-americanos, que, segundo eles, estariam correndo o risco de “eleger uma nova Dilma”, no caso, a democrata Hillary Clinton, e de “se renderem ao bolivarianismo”. 

Para que o recado da manifestação chegue à “campanha de Trump”, um discurso em inglês está sendo preparado. Bonés e camisetas com o lema Make America Great Again – mesmo slogan usado pelo candidato – foram confeccionados para o evento.

Polêmicas. O grupo defende o republicano em todas suas polêmicas. Se o assunto é imigrantes, Mohallen avisa que Trump “só pretende deportar os ilegais, ilegal não tem que ter mesmo”. Argumento reforçado por Heiderich, que considera que o Brasil passa pelo mesmo problema. “Aqui a gente tem bolivianos e o pessoal do Haiti que também é ilegal – e acabam ocupando postos de trabalho dos brasileiros.” 

Nem as gravações mostrando Trump falando de mulheres de forma desrespeitosa diminuíram a empolgação do grupo. “Ele convive há mais de 30 anos com mulheres lindas, nunca teve nenhum problema”, defendeu Mohallen, referindo-se ao fato de Trump ser o dono do Concurso de Miss. “Olha, o importante é que o Trump não é contra nenhuma minoria. Cada um faz o que quer da própria vida – desde que se tenha respeito”, completa Salomão. “Gay que reclama do Trump é porque quer privilégio”, arremata Heiderich.

A última polêmica trumpista foi quando declarou que pode não reconhecer a vitória de Hillary. “Eu não me espantaria se a eleição americana for fraudada mesmo – como deve acontecer no Brasil também”, diz Mohallen. E o que a eleição de Trump traria de positivo para o Brasil? “Na era Obama, a América do Sul viveu sob influência cubana. Agora, iremos escapar dessa inclinação comunista”, afirma Enéas.

Elogiado pelos organizadores do protesto, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) prefere ficar à margem das eleições americanas. “Querem me elogiar? Fiquem à vontade, me compare com quem quiser. Mas eu respondo por mim, sou Jair Bolsonaro e ímpar no Brasil”, diz. Entretanto, um dia depois de afirmar que “não é contra, nem à favor de Trump”, o deputado postou um vídeo no Facebook exaltando o republicano.

Reação. Para o cientista político e professor do Insper Carlos Melo, o apoio de grupos brasileiros à candidatura de Trump tem explicação. “A descrença na política tende a gerar esse tipo de visão e comportamento que avalio como reacionário, no sentido de ser uma reação enraivecida contra o status quo”. Segundo o professor, esses grupos têm uma visão enraivecida e cheia de clichês. “Imaginando romper com o status quo e com o bom senso, acreditam-se geniais. Não são.” 

Governador Valadares é Hillary. A cidade de Minas Gerais é reconhecida no País por ser a que mais “exporta” cidadãos para os Estados Unidos – principalmente quando a economia por aqui não anda muito bem. Agora, às vésperas da eleição norte-americana, moradores do município mineiro com cidadania americana se uniram em torno de uma causa: a eleição de Hillary Clinton.

“A impressão que muitos têm é de que o Donald Trump pode causar problemas para quem não for nascido nos Estados Unidos. Por isso, acredito, que a comunidade de Governador Valadares vai votar em peso em Hillary”, diz o advogado Ailton Gomes, nascido na cidade mineira, mas vivendo em Nova York. 

Segundo Gomes, mesmo os brasileiros ilegais estariam se mobilizando para convencer seus compatriotas com dupla cidadania a votar em favor da candidata democrata. “Com Trump, a perseguição contra os ilegais deve ser ainda mais dura – e a possibilidade de conseguir uma regularização muito mais difícil. Hillary tem um discurso menos duro em relação aos imigrantes”, afirma o advogado. A estimativa é de que cerca de 40 mil cidadãos de Governador Valadares vivam nos EUA.

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